O filho de uma mulher do harém poderia se sentar no trono do Egito?
Finalmente, após exatamente um mês de leitura, terminei O Faraó (Eloise Jarvis McGraw). Um mês!
O maior problema de demorar tanto estava na fonte pequena e na diagramação apertada, bastante desconfortáveis pra leitura. Um livro que tem apenas 415 páginas, mas que numa diagramação melhor chegaria a 700 páginas tranquilamente. Mas nem reclamo porque esse livro foi publicado no Brasil em 1962 e, antigamente a diagramação era mesmo mais espremidinha...
Mas agora falando da história do livro em si. Eu estava bem empolgada por ser um livro bastante conceituado sobre o reinado de Hatshepsut e achei muito bacana o relacionamento dela com Tutmes III durante a infância dele, quando ela era apenas sua tia e ainda não o via como uma ameaça, já que ele era apenas o filho de uma mulher do harém. As coisas mudam de figura quando ela percebe que não conseguirá gerar um filho homem para herdar o trono, o que a faz tomar atitudes bastante questionáveis sobre o menino. Mas vale frisar que Hattasu (sim, ela é chamada de Hattasu no livro, o que não me agradou muito, confesso) e Tutmés não são vilões, apenas pessoas que tinha muitos defeitos e qualidades, o que faz deles bastante humanos, e isso sempre é ótimo num romance. Detesto personagens maniqueístas. e o desenvolvimento desses dois protagonistas é muito bem feito.
Senemut (no livro chamado de Senmut, e o porque disso eu não sei) é mostrado como um personagem ambicioso e de índole questionável, se tornando um personagem simplesmente detestável, mas muito bem encaixado no livro.
O que me desagradou bastante foi ter mostrado Hatshesput como uma faraó que só estava preocupada em reformar e erigir novos templos e monumentos pelo Egito, mas que não ligava nem um pouco pro que acontecia fora, deixando o país bastante vulnerável e eu vi isso como sendo parte da visão que se tinha de uma mulher na década de 50, quando o livro foi escrito. Se ele tivesse sido escrito hoje, com certeza esse retrato seria bem diferente, portanto me foquei no pensamento da década de 50 mesmo.
Em termos históricos, o livro foi escrito antes da descoberta da múmia de Hatshepsut e de muitas outras relacionadas ao reinado dela que aconteceram nas últimas 6 décadas, mas é recheado de personagens históricos de sua época bem pouco conhecidos como Amhhhhes pen Nekhbet, um antigo militar que participou da expulsão dos hicsos e serviu vários faraós, a ama Iput e a princesa Meritre-Hatshepsut, aqui uma filha rejeitada de Hatshepsut (hipótese que foi descartada já há algum tempo), além de diversos outros bem interessantes. Então é impossível não dizer que a pesquisa histórica pro livro foi realmente primorosa. E a descrição da expedição de Punt foi simplesmente incrível, mesmo que a narrativa tenha se mantidp no Egito. Indico muito esse livro para fãs do Egito Antigo como eu.