A Corneta Acústica é, na sua essência, um conto de fadas anarquista e surreal cuja protagonista Marian, uma velhota desdentada, praticamente careca, barbuda e surda que nem uma porta, no meio de um périplo pela salvação da humanidade, irá fazer todo um percurso iniciático, qual herói de demanda, até aos primórdios do ser e à essência de estar vivo.
Eis o mote: Marian partilha o seu lar com dois gatos, uma galinha, a empregada e os seus dois filhos, algumas moscas e um cacto chamado maguey. Mas filho, nora e neto têm planos para acabar com esse idílio:
- O governo providencia instituições para os idosos e os enfermos - vociferou a Muriel. - Há muito tempo que ela devia ter sido internada.
- Não estamos em Inglaterra - disse o Galahad. - As instituições aqui não se adequam a seres humanos.
- A avó - disse o Robert - dificilmente pode ser considerada um ser humano. É um saco babado de carne em decomposição.
Marian é, pois, recambiada para o asilo Casa da Luz, uma instituição cristã gerida pela Irmandade do Poço da Luz. Felizmente, a sua boa e velha amiga Carmella arranjou-lhe, entretanto, uma bonita corneta acústica com que se entreter nas horas vagas (embora pareça que na Casa da Luz tudo o que vai ouvir são sermões de doutrinação sobre a Obra e o Ensinamento Original do Mestre...). Como seja, o desafio está lançado, e mesmo que Marian se oponha - como compete ao herói -, a sua jornada está em andamento e a aventura pode prosseguir.
- O que devo fazer? perguntei. Acho lamentável suicidar-me quando vivi noventa e dois anos e, na verdade, não compreendi nada.
Uma vez na espartana Casa da Luz, um aglomerado de edifícios de contos de fadas que já viu melhores dias (iglus, botas, cabanas e altas torres de castelo), Marian vai escapando à catequização muito graças à sua surdez, às excêntricas novas amizades mas, sobretudo, porque a sua atenção está toda num retrato que preside às parcas refeições em grupo - o retrato de doña Rosalinda Alvarez Cruz Della Cueva, uma exótica freira com um atrevido piscar de olho. Entretanto, coisas (ainda mais) estranhas estão a acontecer à sua volta: envenenamentos, transvestismo, traficância de substâncias e alterações climáticas são apenas algumas delas. Felizmente, entre rituais manhosos patrocinados pelo guru da casa, visões proféticas e freiras que piscam o olho aos visitantes, também há espaço para inúmeros debates neste refúgio de velhinhas: moda, história, política, religião, a era atómica ou o fim do mundo. Nada está proibido.
- Toda a gente sabe que a Bíblia é completamente inexacta. A sério. Noé partiu, de facto, na Arca, mas embebedou-se e caiu ao mar. A Sr.ª Noé ficou na popa a vê-lo afogar-se; não fez nada acerca do assunto porque ia herdar todo aquele gado. As pessoas da Bíblia eram muito sórdidas e uma grande quantidade de gado era, nesses dias, o equivalente a uma conta bancária.
Marian Leatherby é a figura perfeita para acicatar estes debates e a figura perfeita para, perante um apocalipse, revelar a coragem e o sangue frio da maturidade feminina. Daí que, no passo seguinte, comece o seu percurso iniciático. E Carrington esmera-se aqui. Num rápido descambar, estamos numa nova era glaciar e o convénio de velhinhas da Casa da Luz enfrenta terramotos, fome, aparições cabalísticas e, finalmente, é presenteado com a sua missão: a salvação do Graal e a sua devolução à Grande Deusa - Hécate, símbolo do feminino primordial.
As restantes etapas da jornada culminam num crescendo esotérico com uma ressurreição autofágica dentro de uma caverna - a que se chega descendo por uma torre -, e na qual se encontram apenas um espelho de obsidiana que reflete a trindade feminina - menina, mulher, anciã - e um caldeirão (ambos elementos ritualísticos das culturas pré-cristãs), bem como um doppelganger intrigante de Marian:
- Velha como Moisés, feia como Seth, dura como uma bota e tão desprovida de juízo como uma vassoura. Porém, a carne escasseia; por isso, salte cá para dentro.
- O quê? - disse eu, esperando ter percebido mal.
Ela acenou gravemente com a cabeça e apontou para a sopa com a comprida colher de madeira.
- Salte para o caldo, a carne escasseia nesta estação.
Com um silêncio horrorizado, vi-a descascar uma cenoura e duas cebolas, que atirou para o caldeirão espumante. Nunca tive quaisquer aspirações a uma morte gloriosa, mas acabar como caldo de carne nunca fizera parte das minhas previsões.
Tudo isto pode parecer estranho - afinal, é Carrington -, mas nada é tão estranho quanto à primeira vista possa parecer.
Num final estrambólico, num fim do mundo como o conhecemos onde os lobisomens, as abelhas e as cabras governam sem autoridade humana (a escrita de A Corneta Acústica data do pós-II Guerra Mundial), Marian, uma espécie de projeção presciente de uma velhice irreverente por parte da autora, pode ser lida como uma original com pensamento próprio num mundo normativo; uma rebelde que, mesmo perante a tenacidade da idade, não cede na procura da sua verdadeira identidade e liberdade; ou uma improvável revolucionária anarquista que salvará a humanidade (e os seus símbolos) da sua própria rotundidade e estupidez.
Não consigo compreender como é que milhões e milhões de pessoas obedecem a uma colecção doentia de cavalheiros que chamam a si mesmos «Governo»! A palavra, suponho, assusta as pessoas. É uma forma de hipnose planetária particularmente insalubre.
Tudo isso ou nada disso, a sua aventura de autodescoberta é tão ternurenta, divertida e rocambolesca quanto pragmática. Mais sólido do que isto, só escrito na pedra.
Embora a liberdade nos tenha chegado um pouco tardiamente na vida, não tencionamos voltar a abdicar dela. Muitas de nós passaram as suas vidas com maridos dominadores e rabugentos. Quando finalmente nos livramos deles, vimo-nos pressionadas pelos nossos filhos e filhas, que não só já não gostavam de nós, como nos consideravam um fardo, um motivo de ridículo e de vergonha. Acha mesmo, nos seus sonhos mais delirantes, que, agora que saboreamos a liberdade, nos vamos deixar dominar outra vez?