"Para ser sincera, acho que até ler este livro eu não havia percebido que febre era aquela, que não se devia baixar; que permitiria separar dois sangues, duas vidas. Aqui, as duas vidas que nos orientam são mãe e filha. Digo duas vidas, mas são também duas mortes. É a mãe que morre, e nisso leva um pouco da filha. É a filha que persiste, apesar, e então faz de si um caminho de guarida para a mãe morta, a ´mãe-em-retiro´– essa ´Mulher que Não sei´, menciona a poeta."
Da orelha de Mar Becker
“É nesse duplo movimento, o da mãe retirada e o da mãe-restante, que se constrói, verdadeiramente, a tanatografia. E nisto consiste, afinal, a anomalia poética que a sustenta: não é apenas o livro que arde em nossas mãos, mas o próprio desespero de quem o escreveu, a mulher-chama. ‘A Mulher que me Chama’ Isadora insiste, pouco antes que as cinzas se espalhem pelo oceano, como excertos de uma improvável história.”
O que fazer quando o poema atravessa o papel, a cada pausa, palavra, no som que ecoa na leitura em voz alta, na voz que embarga ao terminar uma frase, em um atravessamento quando escutamos a poesia em nossa própria voz? O que fazer?
Foi assim que lentamente devorei Tanatografia da mãe de Isadora Krieger.
Cada tempo, cada parte desse poema, que me chegou também como uma “narrativa” dessa Mulher, me fez seguir de mãos dadas com a escritora em um retrato íntimo da sua relação com o sujeito “função-mãe” que é aqui rememorado. Esses poemas chegam como um texto, não-convencional, em uma experiência com o escrito, com a palavra, onde há uma linha que liga essa tanatografia em construção.
Há inúmeras referências literárias e filosóficas diluídas nesse texto. Há diversas mulheres escritoras que a acompanham aqui, é preciso uma escrita fina e uma leitura afiada para construir um texto tão denso e que, ao mesmo tempo, é pessoal e convida o leitor para o mergulho.
Se uma carta sempre chega ao seu destino, é também sobre essa travessia que se dá aqui.
Repare que tudo o que eu tentar aqui escrever já aponta para uma falta. O texto por si só é que carrega a história, posso tentar dizer desse particular que me tocou. De como iniciei esse texto duas vezes, até conseguir, de fato, adentrar. Como essas maiúsculas tiveram um peso importante nessa grafia, o quanto algo de Llansol ecoou em mim ao ler sobre isso que parecem figuras aqui pensadas por Isadora.
Entre a Mulher que Não Sei, a leitura, a loucura e a sedução, um não-todo inapreensível. Que faz marca maiúscula demarcando a diferença dessa “Mulher”. Um texto-carta com voz própria, que ecoa, como só é possível acompanhada do canto de outras que vieram antes. De uma Mulher Mãe que não se sabe, mas se sonha junto. Esse Deus “dividindo-se em enigma com a Mãe”, que me levou longe, lá em Joyce e Lacan, mas também muito próximo, nessa tal fé - em feminino - que está em toda parte, mas não é alcançado, quiçá perece.
Me veio o “isto” em Clarice, “é vasto, vai durar”. Há algo desse encontro que em certo momento, passado o assombro, chega como que maré baixa, em plena madrugada do texto e aponta para a falta, o segredo, o que é possível e ainda está por vir. É essa escrita que se dá aqui e, por isso, é Carta que chega a seu destino.
Isadora Fóes Krieger reinaugura um espaço na Literatura, em especial na Poesia, há muito desprezado no Ocidente: a relação com a morte. Em uma conferência do início dos anos 1980, Norbert Elias observa esse “não-assunto” que se transformou a morte ou a condição de quase-morte, moribundo. Em “Solidão dos Moribundos” conclui-se haver o recrudescimento da Linguagem em relação à morte. Mas o talento da escritora, após o cativante “Explorações Cardiomitológicas”, resgata, em um ato de resistência, as palavras e dizeres dos momentos cruciais. E o faz justamente por quem lhe deu a vida, nos dá a vida, a Mãe. Essa mãe que gera, nossa primeira estrangeira, que alimenta, a pessoa com quem mais aumentamos a distância em vida, que queimamos o sangue e, no momento derradeiro, a carne. Enfim, uma obra cativante, pois resgata o não-dito, o disfarçadamente sentido, e expulsa a recusa em admitir o fim, permitindo com isso a vida-eterna-enquanto-durarmos do ente querido.