"Olho a paisagem real com a sensação dos mundos sonhados. O azul lavado do céu, nu de nuvens abraça os montes despindo-os do verde que são. A solidão é fria e erma e a respiração do vento é o filme do passado. Cerca-nos a sensação da carne e do tédio, o bafo do grande boi que, parado, nos olha sem ciência como se o sentido do universo se prendesse em seus cornos e ficasse ali abandonado de todas as paisagens, corpo estranho a gozar-se do momento inútil. E nesta quietude de meio de tarde chega-me um leve sono suspenso de gestos pelo som do mundo, pelo ruído inventado da nora parada."
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"Esta terra é feita de húmus e de mãos.
São mãos de ventos e de vozes que como garras tocam tudo, e prendem a porta da noite pelo lado de fora para lhe agarrarem, por dentro, o alicerce intacto de uma nova aurora.
E as montanhas são também mãos, mãos lascivas, mãos carnais, profanando o corpo nu do firmamento e descansando seus dedos nas curvas suaves do vento."