No ano da Graça de 1873, o mundo pertence aos homens que cospem para o chão. Açorada por partir, Rosário oculta-se num enorme capote e capucho negro, tal como a maioria das mulheres. É uma adolescente irreverente, do contra, e desafia todas as convenções masculinas: rouba, corre descalça, luta com os punhos e até beija em público. No final do dia, lê Camilo e reza o terço com a mãe.
As Ilhas Adjacentes são um misto de encanto e de escassez, afastadas do Reino e das promessas da Coroa. Os engajadores brasileiros aliciam os açorianos a viajar para o Império, com promessas de riqueza. A família de Rosário entrega tudo o que possui e embarca na escuridão.
Mas a viagem no navio é calamitosa, uma nuvem de pessoas atoladas na própria imundície, e a chegada ao Rio de Janeiro oferece desafios inesperados. Rosário vive como uma escrava e vê o futuro esfumar-se. Perde o rumo, a virgindade e a esperança. Precisa de reagir, mas isso implica tornar-se uma pessoa totalmente diferente.
Pedro Almeida Maia nasceu na cidade de Ponta Delgada em 1979, estudou Psicologia Organizacional nas universidades de Coimbra e de Barcelona. Trabalhou em Galway, na Irlanda, e regressou aos Açores em 2017.
Começou por escrever para música em 1996, seguindo-se crónicas para a imprensa local, literatura infantojuvenil, poesia e ensaio. Estreou-se no romance com o romance policial «Bom Tempo no Canal» (2012), vencedor do Prémio Letras em Movimento, seguindo-se «Capítulo 41», que inspirou o espetáculo de dança «Atlântida».
Cinco dos seus trabalhos integram o Plano Regional de Leitura dos Açores, incluindo a ficção científica «A Viagem de Juno» (2019), tendo os mais recentes sido agraciados pela crítica, sobretudo «Ilha-América» (2020) e «A Escrava Açoriana» (2022), que inspirou a peça de dança contemporânea «Açorada» pelo 37.25 Núcleo de Artes Performativas.
No conto, tem participado em antologias, como na revista brasileira Vício Velho (2020), na edição comemorativa do centenário do PEN Clube Internacional «Os Dias da Peste» (2021), na «Nova Antologia de Autores Açorianos» (2022), ou «Viagens Vol. III» (2023), e publicado em revistas literárias, como na «Oresteia» (2025). Na poesia, venceu o Prémio Discover Azores em 2014, com «Vinhas e Epigeus», e publicou «A Escalada de um Manco» (2017), além de ter poemas traduzidos para inglês.
Foi considerado Escritor do Ano em 2014 pelo jornal Correio dos Açores e novamente em 2024 pela Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia, ano em que também foi convidado a escrever doze descrições mensais de pinturas de Cristina Troufa para a «Descendências Magazine», pela iniciativa “Obras de Capa”.
No género novela, publicou «Nove Estações» (2014), selecionado para a Mostra LabJovem, e «A Força das Sentenças» (2023), vencedor do Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e reeditado pela Cultura Editora. «Condenação» (2025), romance inspirado na história verdadeira de um gangster açoriano na América dos anos 1920, é o seu oitavo livro.
É considerado “uma respeitável voz da nova literatura destas ilhas” (Onésimo Teotónio Almeida, Diário de Notícias), “junto dos melhores escritores portugueses contemporâneos” (Telmo R. Nunes, Portuguese Times), “o mais cinematográfico dos escritores açorianos” (Víctor Rui Dores, Diário Insular), “um grande escritor, que honra a herança açoriana em todas as suas dimensões” (Carolina Matos, Portuguese American Journal), e “no centro deste furacão literário que certamente marcará a literatura açoriana do século XXI” (Miguel Real, Jornal de Letras).
A primeira conta a história de Rosário, uma jovem de 15 anos que emigrou de Ponta Delgada para o Brasil com a mãe. No Rio de Janeiro, Rosário foi vendida como escrava e forçada à prostituição. Durante sete anos, ela sofreu, desgostou-se, lutou e perseverou.
A segunda parte conta a vida de Rosário após seu regresso aos Açores. Em alguns momentos, pode parecer apenas uma lista de acontecimentos que poderiam ter sido mais explorados, principalmente no que toca à forma como Rosário lutou contra uma sociedade machista, preconceituosa e discriminatória.
É simples: eles nada sabem sobre nós! Não sabem que ser mulher é vestir a coragem e a sensibilidade, saber tocar tanto a magia como o sólido, equilibrar o desejo com a justeza. Não sabem que ser mulher é ser mãe do mundo.
Gostava de ter visto um maior desenvolvimento dos assuntos abordados, traria uma maior riqueza à segunda parte da história, até porque Rosário é uma personagem irreverente, corajosa, complexa e inconformada, que busca a felicidade.
A escrita do autor é rica e expressiva, e o uso dos regionalismos açorianos dá-lhe um toque de autenticidade e originalidade.
"É simples: eles nada sabem sobre nós! Não sabem que ser mulher é vestir a coragem e a sensibilidade, saber tocar tanto a magia como o sólido, equilibrar o desejo com a justeza. Não sabem que ser mulher é ser mãe do mundo."
Este é um pequeno excerto deste livro fabuloso de Pedro Almeida Maia, que nos apresenta uma mulher muito à frente do seu tempo, uma mulher combativa, inteligente e resiliente, chamada Rosário. Em a Escrava Açoriana vamos acompanhar a vida de Rosário desde 1873 com 15 anos, até 1925 já idosa. Inconformada com uma vida de miséria e com uma sociedade completamente machista, Rosário decide embarcar com a sua mãe no Lidador, o navio que as vai transportar até ao Brasil, com a esperança de aí ter uma vida melhor, trabalhar e conquistar a tão desejada felicidade. Lá chegada encontra um país completamente diferente da sua pequena ilha Açoriana, as cores, os cheiros, as pessoas, mas também encontra a violência, o trabalho escravo e a solidão. Neste livro conhecemos a história de todas as mulheres açorianas que procuraram fugir a uma vida muito difícil e subjugada ao homem, mas também é uma linda homenagem do autor ao Arquipélago dos Açores e às suas mulheres lutadoras e resilientes, este sim é um verdadeiro livro sobre o Empoderamento da Mulher escrito com uma sensibilidade e beleza incríveis.
Este livro é um romance histórico que se inicia em 1873, nos Açores, e onde conhecemos a jovem Rosário, de 15 anos. Rosário tem o sonho de um vida melhor, sem miséria e, por isso, embarca com a sua mãe no Lidador, rimo até ao Brasil. No entanto, a vida também não é fácil, e apesar de neste altura a escravatura ser proibida, a verdade é que os grandes senhores, aproveitam-se destas pessoas, levando a uma escravatura branca. Um fabuloso retrato social da época, não só dos Açores mas também do Brasil. Com uma escrita muito cuidada e pontuada de regionalismos açoreanos, o que me fez adorar ainda mais esta história. Vivemos, através de Rosário, a vida de tantas mulheres açorianas que lutaram por uma vida melhor. Foi o primeiro livro que li do autor e fiquei rendida.
Uma história de luta, perseverança e muita coragem. Decorria o ano de 1873, Rosário, uma micaelense insatisfeita com a vida difícil que levava, ambiciona emigrar para o Brasil. São-lhe prometidos "mundos e fundos", mas as dificuldades são sentidas logo no início desta dolorosa travessia transatlântica. Acompanhada dos seus dois amuletos: o Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, que lhe matava a saudade da sua pátria; e o terço, que rezava todas as noites, recordando a ladainha das Avé-marias. Rosário carregou o negrume dos basaltos no seu destino. O desembarque no Rio de Janeiro, com o roubo da sua mala e, a consequente perda dos amuletos, anunciavam um malfadado caminho. Senzala, tronco e grilhões, vocábulos desconhecidos até então, passarão a fazer parte da sua vida. As agruras da escravatura serão muitas, mas a protagonista, tem a fogosidade no carácter, que lhe vem do tom acobreado do cabelo, das sardas que lhe decoram o rosto, e da terra que a viu nascer. A história de Rosário, é a história de muitas mulheres que sentiram na pele as dificuldades da vida e nunca se deixaram vencer. Dois séculos passaram e, incredulamente, a escravatura ainda é uma realidade nada distante. A escrita do @palmeidamaia é a maior preciosidade, carregada de arcaísmos, que embelezam a prosa. Nota-se, uma pesquisa histórica profunda, nos costumes da época. A escrava açoriana é, também, uma vénia à ilha de S. Miguel e a todo o arquipélago, à audácia das suas gentes, à beleza e peculiaridade daquela terra vulcânica. E, na minha opinião, só um insular poderia fazer tal vénia.
Depois de “Lições de Química”, um novo livro com outra personagem feminina forte. Desta vez, Rosário, uma rapariga açoriana que é um exemplo de ambição, de luta e de resiliência.
Este romance histórico tem como personagem principal Rosário, uma rapariga de 15 anos que vive de forma quase miserável e que tem a esperança de encontrar no Brasil uma vida melhor. Depois de muitas peripécias, Rosário embarca com a mãe no navio Lidador para aquela que acredita ser a viagem que mudará a sua vida. E, de facto, a vida de Rosário muda, mas não para melhor. Na difícil viagem que nos é narrada de forma muito visual e olfativa, Rosário perde a mãe e chega ao Brasil, onde a espera uma vida de miséria, violência, prostituição e escravatura, ainda que nesta altura esta já tivesse sido abolida.
Este livro, escrito de forma sensível e muito pormenorizada, traça um fantástico retrato social da época. Gostei da forma cuidada como o autor nos vai contando a vida de Rosário desde 1873 até 1925, como a personagem vai evoluindo e envelhecendo. No entanto, apesar de tudo o que viveu, Rosário nunca deixa de ser resiliente, nunca deixa de lutar pelas causas em que acredita.
Rosário uma mulher destemida, uma personagem imaginária, mas que representa tantas mulheres que de alguma forma viram o seu futuro hipotecado pelo sonho de uma vida melhor. Está obra é também um hino aos Açores e ao espírito insular.
"A Escrava Açoriana" conta-nos a história de Rosário, uma jovem açoriana que emigra com a sua mãe para o Brasil em busca de uma vida melhor. Inicia-se no final do século XIX, numa altura em que se viviam grandes dificuldades, e as descrições das condições de vida, dos espaços, dos cheiros, são excelentes! Vividas, escritas com uma escrita poética muito cativante! Inesquecível a viagem de Rosário para o Brasil! No entanto o futuro que lá a aguardava não era o esperado. Sujeita à chamada "escravatura branca" de contrato assinado, logo considerada voluntária, Rosário é obrigada inicialmente a protituir-se e depois a trabalhar arduamente e sem quaisquer condições numa fazenda de café. Esta primeira parte do livro é muito boa! Ao fim de 7 anos Rosário consegue finalmente denunciar a situação e consegue ser enviada de volta para a sua ilha. Nesta segunda parte conhecemos o evoluir desta personagem que se torna uma mulher voluntariosas e interventiva, que nem sempre toma as melhores decisões, mas que consegue ter uma vida bem melhor do que o expectável. Enquanto vamos conhecendo a história de Rosário o autor vai focando muitos aspectos históricos da cidade de Ponta Delgada e do resto do país, notando-se a existência de uma pesquisa exaustiva. Esta segunda parte soube-me a pouco. Achei que a vida da nossa protagonista foi passada muito pela rama. Gostaria de ter visto mais desenvolvimento e mais pormenores. Mesmo assim foi uma leitura muito boa! Recomendo!
Desta vez vim dar-vos a minha opinião do livro "A Escrava Açoriana" do Pedro Almeida Maia
Eu tenho de vos dizer que A D O R E I este livro. É facilmente, até agora, o meu livro favorito do ano!
Rosário é uma menina de 14 anos que tem o sonho de ir para o "Império", para o Brasil. Naquela época ir para o império era uma maneira de ter uma melhor qualidade de vida do que aquela que era proporcionada no arquipélago dos Açores. Também naquela época, havia muita escravatura por parte do brasil, a troca e venda de escravos/as era uma das maiores fontes de rendimento dos grandes senhores do Brasil.
Esta história é muito bem escrita por parte do Pedro. O Pedro utiliza um vocabulário riquíssimo na sua escrita com algumas palavras e expressões originárias dos Açores, no entanto, utiliza também outras presentes no nosso idioma que não são originárias de lá que eu desconhecia. Muitas vezes tive de recorrer ao dicionário e à internet para conhecer o significado daquelas palavras ou expressões, o que me permitiu enriquecer muito o meu vocabulário e conhecimento da língua portuguesa.
Ao ler o livro vê-se que o Pedro tem um respeito enorme pelas mulheres. Principalmente porque foi o Pedro, um homem, a escrever uma história na pele de uma mulher. Nem todos os autores estariam predispostos a contar uma história nestes termos, o que me leva a querer que o Pedro, tem um apreço enorme pelas mulheres do hoje e do antigamente.
Este livro tem também um grande valor histórico, visto que o Pedro contou-nos estas histórias baseado em muitas outras que fora conhecendo ao longo dos anos.
Muito obrigado por fazeres parte deste projeto! Abraço
Eu ia dar 4 estrelas ao invés de 5 a este livro, mas desatei num choro estúpido de surpresa quando acabei de ler. Qualquer Açoriano, em particular Micaelense, que tenha a mínima cultura da sua terra sabe qual é a pintura que constituí a cena do epílogo deste livro. Uma pintura que por acaso anda pendurada numa parede da casa de uma das minhas avós. Qualquer Açoriano tem muito provavelmente família emigrada. Eu tenho família emigrada e já vi a tristeza e a saudade que se anticipa na hora da partida. E já ouvi de familiares meus emigrados o que passaram e trabalharam para se estabelecerem numa terra que não a sua, à semelhança de Rosário. Portanto, não consigo evitar revê-los nesta obra e o impacto, que eu não esperava, a que esta história acabou de me sujeitar.
Sendo um livro que tinha alguma curiosidade em ler, devido ao facto de me ter cruzado com algumas publicações que faziam referência ao mesmo, e também por se tratar de algo escrito por um autor Açoriano, decidi avançar com a sua leitura. À semelhança de muitos conterrâneos, a tendência é ler obras de outros autores, quer sejam portugueses ou não, em detrimento da leitura daquilo que se escreve nestas ilhas vulcânicas.Talvez por serem autores mais conhecidos por serem mais publicitados/divulgados em diversas plataformas. A leitura deste livro surpreendeu pela positiva. Acredito que seja um bom incentivo, ou ponto de partida, para quem pretenda prestar mais atenção ao que se escreve nos Açores, quer seja sobre os Açores, quer seja acerca de outros temas. No caso deste livro, a açorianidade está muito presente, aliada a outros ingredientes que fazem deste livro uma boa refeição de palavras.
Pode parecer um pouco estranho, mas ao mesmo tempo prazeroso, o exercício de tentar reimaginar os locais mencionados no livro, locais esses conhecidos por nós na sua versão mais recente, ou pelo menos com menos idade do que aquela aquando da acção inicial deste livro. Mas não deixa de ser engraçado conseguirmos identificar-nos com algumas coisas que são mencionadas no livro, quer estejam relacionadas com os locais, quer estejam relacionadas com os costumes do nosso povo. Características ou atitudes que, em alguns casos, ainda perduram. No entanto, há que referir que felizmente algumas dessas características e costumes também ficaram pelo caminho ao longo do tempo porque não tinham motivo para se prolongarem no tempo.
Este livro, para além de nos “entreter” ajuda-nos também a reviver, ou a saber como é que foram vividos alguns momentos históricos, dos finais do Século XIX e primeiro quarto do Século XX, sob a perspectiva do povo Açoriano.
Tendo em conta a ideia ou pretensão do livro, que no meu entender pretende dar a conhecer algo que fez parte da identidade e realidade do povo açoriano, nomeadamente o fenómeno da “escravatura branca”, penso que o autor conseguiu cumprir esse objecto. Quando se fala em emigração, por parte do povo Açoriano, nomeadamente com o intuito de procurar melhor condições de vida, pensamos quase sempre na ida dos nossos antepassados para países como Estados Unidos da América e Canadá, não esquecendo alguns países da Europa, certamente, esquecendo assim outros destinos que fizeram parte dos planos das gerações passadas. A exploração de açorianos no Brasil, a chamada "escravatura branca", perdurou ao longo de grande parte do século XIX, intensificando-se em certos períodos devido a fatores como o declínio do tráfico de escravos africanos e as dificuldades económicas nos Açores, onde a pobreza era significativa. Os fazendeiros brasileiros ainda necessitavam de mão de obra para as suas plantações, especialmente as de café, e viam nos imigrantes europeus, incluindo os portugueses, uma alternativa à mão de obra escrava, que estava sob crescente pressão abolicionista. Muitos açorianos eram aliciados com falsas promessas e chegavam ao Brasil endividados com os custos da viagem. Eram então submetidos a contratos de trabalho que os prendiam às fazendas, com dívidas que se tornavam impossíveis de pagar devido aos juros elevados e às más condições salariais. As condições de trabalho nas fazendas eram frequentemente exaustivas e insalubres, com longas jornadas e pouca ou nenhuma remuneração até que as dívidas fossem "saldadas". Isto criava um ciclo de dependência que impedia os imigrantes de sair e procurar melhores oportunidades. É neste imbróglio que a personagem Rosário, e seus familiares, se vê metida. Como é fácil imaginar, depois de estar envolvida numa situação deste género, o futuro não se torna muito promissor! Voltando ao que eu referi anteriormente, penso que o autor consegue manter, ao longo do livro, um bom equilíbrio entre a vertente histórica, e a vertente que se pode considerar mais ficcional, conseguindo uma boa intrusão entre a vida das personagens e os diversos acontecimentos, quer estes sejam históricos, quer estejam relacionados com os temas abordados (escravatura, prostituição, roubo, etc) no livro, sendo que neste livro acompanhamos a vida de algumas personagens ao longo de algumas décadas, acompanhando várias gerações.
No geral podemos ficar com a sensação de que algumas coisas podiam ser ainda mais desenvolvidas, ou exploradas, como é o caso das peripécias relacionadas com a vida da personagem Rosário no Brasil, e as diferentes “fases” que compõem o seu percurso naquelas terras longínquas. Entretanto, não quero com isto dizer que o que é relatado não seja mais que suficiente para ficarmos a par daquela triste e penosa realidade.
Mais tarde, numa outra fase em que o livro relata novamente acontecimentos, passados ou vividos nos Açores, sobretudo na Ilha de São Miguel, e durante um período temporal que compreende vários anos, ou até décadas, ficamos novamente com a sensação de que as coisas avançam muito depressa, sem grandes detalhes. No fim de contas, talvez tenha sido a forma que o autor encontrou de conseguir fazer com que o livro não se tornasse demasiado “pesado”, ou até repetitivo, garantindo algum ritmo e mantendo assim o leitor empolgado com a leitura.
Sem querer dar informações sobre o que pode acontecer no livro, para não estragar a leitura a quem pretenda dar uma oportunidade a esta aventura, o que posso dizer é que este livro também nos transmite a mensagem de que, por vezes, não valorizamos aquilo que temos, e, na ilusão de ir em busca de algo melhor, mas incerto, podemos acabar por ter que voltar ao ponto de partida em piores condições de que aquelas que existiam inicialmente. Não esquecendo que pode também não haver regresso e ser uma viagem só de ida. Quem sabe se foi esse o destino de Rosário…
Uma das coisas que mais me cativou neste livro foi a utilização de uma linguagem rica, emocional e descritiva, com forte carga visual e simbólica, mas sem abandonar o fio narrativo nem assumir inteiramente os traços formais da poesia. Alguns desses momentos estão fortemente ligados à génese do povo Açoriano, sobretudo no que se refere às personagens, mas ocasionalmente também quando são feitas referências a alguns lugares onde as coisas acontecem, nos Açores.
“Desejei que nos voltássemos a ver e que Deus nos acompanhasse rumo a um amanhã flutuante, mas só ouvi o pio do milhafre. Sempre o pio do milhafre.”
3.8 ⭐️ Um romance histórico açoriano com um enredo cheio de potencial e força. Contudo, sinto que carece de um maior aprofundamente da narrativa e das transições entre os diferentes momentos do enredo. Ainda assim, um livro que vale a pena ler, uma história que vale a pena conhecer com uma leitura rápida e fluída.
É leve mas não é leve. É um misto de pesos. Uma história super envolvente, com um vocabulário riquíssimo típico de Almeida Maia. Para os amantes de história açoriana e literatura (como é o meu caso), é perfeito. E acho que vou demorar para ultrapassar este livro. Incrível.
A história da vida de Rosário, uma jovem irreverente, muito à frente do seu tempo.
“No ano da Graça de 1873, o mundo pertence aos homens que cospem para o chão. Açorada por partir, Rosário oculta-se num enorme capote e capucho negro, tal como a maioria das mulheres. É uma adolescente irreverente, do contra, e desafia todas as convenções masculinas: rouba, corre descalça, luta com os punhos e até beija em público. No final do dia, lê Camilo e reza o terço com a mãe.
As Ilhas Adjacentes são um misto de encanto e de escassez, afastadas do Reino e das promessas da Coroa. Os engajadores brasileiros aliciam os açorianos a viajar para o Império, com promessas de riqueza. A família de Rosário entrega tudo o que possui e embarca na escuridão.
Mas a viagem no navio é calamitosa, uma nuvem de pessoas atoladas na própria imundície, e a chegada ao Rio de Janeiro oferece desafios inesperados. Rosário vive como uma escrava e vê o futuro esfumar-se. Perde o rumo, a virgindade e a esperança. Precisa de reagir, mas isso implica tornar-se uma pessoa totalmente diferente.” Um livro que retrata a vida de muitos contratados (“escravos” mas com um contrato que os obrigava a trabalhar durante imensos anos em troca de uma parca refeição, maus tratos e muitas horas de trabalho em condições desumanas). Rosário tentou lutar contra toda esta injustiça, com alegrias e grande sofrimento passou por muito para obter a tão desejada liberdade, será que tudo aconteceu como desejava? Têm de ler para saber e eu aconselho muito a leitura 😊
A Escrava Açoriana é um romance histórico ambientado em 1873 que combina ficção e contexto real para narrar a trajetória de Rosário, uma jovem açoriana criada em um contexto de escassez nas ilhas, que cresce entre gestos de rebeldia e uma rotina marcada pela tradição, lendo Camilo ao fim do dia e rezando o terço com a mãe. Seduzida pelas promessas de prosperidade no Brasil, abandona tudo e embarca rumo ao Império. A travessia é dura e desumana, e a chegada ao Rio de Janeiro revela uma realidade muito distante do que foi prometido. Submetida a condições de extrema exploração, Rosário vê seu futuro se dissolver e é forçada a transformar-se para sobreviver.
A história, para mim, teve um enredo envolvente, o que deixou a leitura fluída e prazerosa. Tenho uma predileção por romances que utilizam a história como pano de fundo narrativo e, nesse sentido, o livro me agradou especialmente por articular o eixo Portugal–Brasil, ampliando o olhar sobre o sistema colonial e pós-colonial. Um aspecto que me chamou atenção, ainda que apareça apenas como uma pequena pílula dentro do romance, é a menção à imigração açoriana também para o sul do Brasil. Tendo crescido nessa região, essa referência aproxima a história da minha própria realidade: ainda hoje existem traços materiais e culturais deixados pelos açorianos (na dança dos gaúchos, nos doces, nas expressões, no artesanato), o que tornou a leitura mais próxima e significativa para mim.
Essa lembrança pontual se conecta também a outros processos migratórios que ocorreram na mesma época, como os de alemães e italianos, todos atravessados por promessas de oportunidade, terra e ascensão social. Em muitos casos, o que esses grupos encontraram foram condições muito semelhantes às que haviam deixado para trás, ou até mais duras, marcadas por exploração, endividamento e precariedade.
Para mim, o valor do livro está justamente aí: além da história individual de Rosário, ele funciona como uma reflexão sobre a história Portugal-Brasil, sobre escravidão e a migração. É uma leitura que me incentiva a buscar novos conteúdos e revisitar outros aspectos da história.
Foram 4 estrelas mas podiam ter sido cinco. A escrita do Pedro é inteligente e poética, como gosto, mas inteligente e poética demais para a velocidade da narrativa que ele queria, para conseguir um milagre - aquele do livro de narrativa rápida e poética, que nos apanha pela garganta e não nos deixa mais. E ficamos ali, presos às pequenas (e grandes) palavras a que nos introduz, para saber como acaba a Rosário. Bem, a Rosário.... Uma das únicas personagens que li este ano que não tenta ser perfeita. (finalmente um autor com coragem suficiente para não fazer as suas personagens perfeitas) e os seus erros, em vez de hilariantes de ler, são completamente desastrosos. Porque, em vez de quereres saber como ela se vai safar daquela, estás de joelhos, "açorada" que ela saia de sarilhos e conseguia viver "uma vida normal", aquela vida normal que desejas depois de uma adolescente perder tanto. Foi bom, Pedro, obrigada.
Tecnicamente um livro que induz velocidade na leitura. Ter capítulos pequenos é um truque de mestre para isto. Discurso directo cheio de pormenores típicos de nós. Com pouco explica muito. Mas aquele final é de mestre...
Emocionalmente é um livro que me tocou. Porque sente-se verdadeiramente o que foi aquela vida e imagina-se ter sido tal e qual para milhares dos nossos. Mas também me senti no papel de Rosário nas venturas e desventuras da minha vida. De pancada em pancada. De queda e levanta. De não se deixar ir, mas lutar. E descobrir novos caminhos e novas vidas, para depois, no fim, chegar àquele final...
Pedro Almeida começou por me surpreender positivamente, pela forma como usa o português "açoreanado" de uma forma muito atraente, diria mesmo, bonita. Mas este é um livro a dois tempos: O tempo da Rosário criança irreverente que provoca a ida da família para o Brasil. Onde sofre de todas as vicissitudes de uma pessoa pobre imigrada num Brasil após fim (administrativo) da escravatura. Não pelas desventuras da moça, mas é neste período que o autor me atraiu. O segundo tempo, o do regresso de Rosário aos Açores, passa mais a ser um romance histórico, mais descritivo, mais seco! No global, gostei o suficiente para vir a ler um segundo livro deste autor.
Gostei bastante de descobrir o fundo histórico deste romance que desconhecia. Tenho dificuldade em acreditar na irreverência da Rosário em pleno século XIX... fica por conta das liberdades da ficção, não faz mal!
Um bom livro! 4⭐️ Uma escrita forte, que nos prende aos Açores e ao Brasil, no século XIX, e a Rosário, uma jovem mulher pobre, cujo destino é marcado pela sua condição. Muito obrigado, Pedro Almeida Maia.
...brigas sobre as insignificância da pouquidão. O cortiço era magia. Ensinava o povo a ser feliz, o único bem que a riqueza não trazia. A ruína do submisso é a subserviência. Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranquilo. A diferença entre a velhice e a infância está somente nas mãos enrugadas; de resto, fazemos os mesmos disparates, perdemos as mesmas oportunidades. É essa a beleza da nossa imperfeição.
4,5 ⭐️ Por pouco que não é arredondado para as 5 estrelas completas, mas porquê isso? Oras veremos.
Esse livro retrata a história de Rosário, uma jovem açoriana de apenas 15 anos. Esta viaja para o Brasil e enfrenta desafios que deixam marcas eternas na vida da mulher. Pessoalmente, gostei muito da história e como essa me envolveu por completo, a conseguir ler em 2 dias com muita boa-vontade, é escrita de maneira simples e de fácil compreensão geral, além de, claro, a maneira que a história nos envolve e nos comove. A única coisa que foi "desperdicada" foi a falta de aprofundar alguns temas aos longo do livro, principalmente aprofundar na vida de Rosário após regressar para a sua ilha. Mas de resto, é um livro incrível e recomendo a todos que leiam. Se gostam de romance, histórias com altos e baixos, leitura rápida e uma história que mexe com o nosso interior, "A Escrava Açoriana" te vai encantar.
Estes são os ingredientes para descrever a personagem principal Rosário neste romance fenomenal escrito por Pedro Almeida Maia. Por eu ser açoriano, tive ainda maior gosto em poder ler esta obra passada no século XIX na ilha de S. Miguel, época em que as ilhas passavam por uma sociedade empobrecida - materialmente e psicologicamente.
Rosário é o retrato de uma mulher determinada, resiliente, forte, corajosa, capaz de enfrentar os obstáculos que lhe aparecem pelo caminho desde a sua vivência em Ponta Delgada até à sua viagem (desafortunada) ao Brasil para encontrar uma vida melhor. No entanto, ela não é perfeita e estas características mencionadas foram reforçadas pela sua experiência no Brasil.
Dizendo que foram momentos horripilantes que ela passou no outro lado do atlântico é um eufemismo. Durante a sua viagem no histórico Lidador até à sua chegada e estadia no Brasil, Rosário foi vítima das maiores atrocidades imagináveis. Qualquer pessoa que passaria por o que ela encarou, facilmente teria a sua sanidade mental devastada e deitava tudo a perder numa questão de horas, até minutos. Rosário rezou, chorou, gritou, suplicou... Mas nunca desistiu. Ela é a verdadeira definição de resiliência e perseverança. A experiência de Rosário marca um exemplo do retrato social do século XIX que separava o idealismo do realismo.
Devo dizer que gostei imenso de apreciar A Escrava Açoriana. Só não dou 5 estrelas por achar que o romance entre Rosário e Josué foi forçado logo no início da obra, mas isto é um gosto pessoal (afinal não sou a melhor pessoa para apreciar romances de amor). Apesar disso, eu recomendo vivamente a obra para todos os que queira apreciar um bom romance e, ademais, aprender sobre a história e vivência nos Açores nos séculos passados. Devo também salientar que o autor recorreu a vários textos e a professores/historiadores cujas áreas de domínio inserem-se na história e cultura dos Açores, assim aumentado a viabilidade da representação histórica presente na obra.
Os Açores para mim são especiais e gosto muito de romances históricos daí a combinação ser apelativa para mim. No fim do livro aprendi que a emigração açoreana para o Brasil foi uma forma encapotada de escravatura, tive uma ideia de PDL no século XIX, seus costumes e modos de vida, mas o que gostei mais foi de “passear” por PDL, pelo mercado da Graça, pela Matriz, pelo alto da mãe de Deus e tantos outros lugares. Um livro que se lê bem!!!
Livro com enredo para ser um romance mas que fica pela novela (às vezes fico até com a sensação de conto), tal é a velocidade com que a narrativa se desenrola, sem aprofundar ideias e conteúdos. História de uma pobre que se torna escrava, que se torna livre e revolucionária.
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Entrei no romance esperando uma história de época e encontrei uma narrativa que, embora dialogando com Amor de Perdição, faz do cânone apenas um dos seus muitos espelhos. A trajetória de Rosário, marcada por pobreza, deslocamento e violência estrutural, tem uma força emocional que me prendeu desde o início. Gostei muito da forma como Pedro Almeida Maia recria o século XIX sem romantizá-lo: tudo é cru, duro, mas narrado com sensibilidade e ritmo. A presença do livro de Camilo no enredo, ora como esperança, ora como ironia trágica, dá ao romance um lastro afetivo que me comoveu profundamente, afinal sou apaixonado no Amor de Perdição. A cada vez que Rosário abre o Amor de Perdição, o contraste entre idealização e realidade se torna mais intenso e, como leitor, eu também fui percebendo que a grande força do romance está justamente em mostrar o que fica de fora das idealizações românticas do passado. Gostei muito de como ele traz à tona temas como migração, exploração, pobreza e violência de gênero sem jamais perder de vista a humanidade da personagem. Rosário é uma protagonista que nos acompanha para além da leitura; sua luta, suas pequenas esperanças, seu desejo de futuro permanecem ecoando. Terminei o livro com a sensação de ter lido uma obra que dialoga com o cânone para criticá-lo, ampliá-lo e reinventá-lo. E isso, para mim, é o que a literatura contemporânea tem de mais poderoso. A Escrava Açoriana é um romance que eu gostei muito pela escrita envolvente, pela construção emocional densa e pelo modo como devolve voz e corpo a uma história que, no século XIX, talvez jamais tivesse sido contada. É uma obra que recomendo sem hesitar, tanto para quem conhece Camilo quanto para quem apenas deseja uma narrativa forte, humana e inesquecível.