Depois de Virginia Woolf na intimidade com as suas cartas amorosas, eis Virginia Woolf na sua dimensão pública com uma palestra dada dois anos depois de “Um Quarto Só Seu” na Women’s Service League. Que discurso fenomenal!
Convidada a falar perante uma audiência de mulheres sobre a sua experiência profissional, Woolf começa por explicar, cheia de modéstia, que se limita a ter a ocupação mais respeitável e inofensiva, a que não causa despesa nem a mínima perturbação ao sossego doméstico.
O módico preço do papel de escrever é, evidentemente, a razão pela qual as mulheres obtiveram sucesso como escritoras antes de serem bem sucedidas nas outras profissões.
Hoje, se calhar, com o preço a que está o papel, nem isso lhes valeria…
Com a mesma parcimónia em mente, Woolf enviou alguns dos seus textos pelo correio e tornou-se jornalista. Com o pagamento recebido, comprou um gato persa, mas tornou-se ambiciosa.
Um gato persa está muito bem, todavia não é o suficiente. Tenho de arranjar um automóvel. E foi assim que me tornei romancista – pois é muito estranho, as pessoas dão-nos um automóvel se lhes contarmos uma história.
E é com o mesmo sarcasmo que passa a falar do Anjo do Lar, o fantasma a quem teve de apertar o pescoço para escrever livremente. O Anjo do Lar é a vozinha que as mulheres ouvem que as fazem sacrificar-se pelo resto da família, juntamente com toda a formatação imposta pela sociedade para que se anule e não levante ondas.
E mal eu peguei na pena para criticar o tal romance escrito por um homem famoso, ela deslizou por trás de mim e sussurrou: “Minha querida, você é uma jovem. Você está a escrever acerca de um livro escrito por um homem. Seja complacente, seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas do nosso sexo. Nunca deixe que alguém suspeite que você tem opiniões próprias. Acima de tudo, seja pura.
Exorcizado o fantasma, Woolf dá largas à sua imaginação, alimentada com letargia e a rotina, para não a espantar.
Pretendo que me imaginem a escrever um romance num estado de transe.
Até que, neste estado de semi-inconsciência através do qual mergulha nas profundezas do seu ser, embate violentamente num obstáculo.
Ela tinha pensado em algo, algo relacionado com o corpo, com as paixões que lhe era inconveniente manifestar por ser mulher. A sua razão dizia-lhe que os homens ficariam chocados.
Teme, pois, Woolf pelas mulheres que, menos resguardas que ela, entram agora no mercado de trabalho e desempenham funções até há pouco reservadas aos homens. É, para concluir, que retoma a ideia do quarto só para si, motivando-as e responsabilizando-as pelo que mais podem alcançar.
Tendes conquistado quartos só para vós na casa que até agora era propriedade exclusiva de homens. Sois capazes, não sem grande labor e esforço, de pagar a renda. Ganhais as vossas 500 libras por ano. Mas esta liberdade constitui apenas um princípio; o quarto é vosso, mas ainda está vazio. Como ides mobilá-lo, decorá-lo? Com quem o ides partilhar e sob que condições?