No Japão, uma rapariga suicida-se na noite de Natal, atirando-se de uma janela do seu local de trabalho, a principal agência de publicidade do país. No mês anterior, tinha cumprido 105 horas extraordinárias.
Em Lisboa, uma agência de publicidade decide adotar uma inovadora estratégia japonesa de despedimento: os colaboradores que estão na calha para ir para a rua são convidados a desempenhar o papel de carrasco e escolher entre si quem deverá ser despedido. Um jogo ingrato e perigoso, que transforma a empresa num campo de batalha.
Entre mortos e feridos, ninguém se salva: multiplicam-se as intrigas e os golpes baixos, formam-se alianças improváveis, desperta um romance escaldante, e até ocorre um homicídio bizarro.
«Nessa tarde soube que fazia parte de um lote de funcionários a dispensar da agência de publicidade onde trabalho. Melhor dizendo, somos seis funcionários e um de entre nós vai ser despedido, seremos nós a decidir qual. Acreditam nisto? Eu também não acreditei, mas parece que é verdade —veio cá a diretora de recursos humanos explicar que esta estratégia tem sido utilizada com sucesso no Japão. Está bem, abelha. Como se os japoneses, com aqueles roupões esvoaçantes, tivessem parecença alguma com os tugas, máquinas de drenar sangue fervente.»
Foi jornalista entre 1991 e 2017, tendo passado por publicações como o Diário Económico e a Sábado (de que foi fundadora e subdiretora) e colaborado com as revistas Elle, GQ, Vogue, Máxima, entre outras.
Foi editora de ficção portuguesa do grupo editorial Planeta.
Atualmente, é assessora de imprensa na área da política.
Em 2017, estreou-se na ficção com Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum. Olho da rua é o seu segundo romance.
Pois o meu pai acreditava que toda a gente devia ter um emprego e um ordenado justo. Escrevia poemas pueris nas pratas dos maços de tabaco e foi vítima da esperança do 25 de Abril. Porra, pai, eras tão ingénuo como o Jeff Buckley quando cantava o ‘Hallelujah’; uma pessoa ouve aquilo, e está ali a alma de um homem escancarada.
Começou com fulgor e originalidade esta obra de Dulce Garcia, mas infelizmente a autora não conseguiu manter até ao fim o malabarismo de encarnar quase 10 personagens na primeira pessoa. Os intervenientes de “Olho da Rua” são inicialmente apresentados como Abelha, Ursa, Hiena, Mulher, Cisne Negro, Mosca da Fruta, Barata e Coruja, (mais tarde haverá uma participação especial do Polvo e a referência a um Pavão, que me parece uma troca de nomes com Cisne Negro ou alguém que não deveria ser introduzido já tão tarde), iniciando o seu primeiro capítulo com factos sobre a respectiva espécie. Cedo se percebe, portanto, que são personagens-tipo e que estamos perante uma sátira. Estando em curso uma restruturação na agência de publicidade onde esta fauna trabalha, escolheu-se uma estratégia de despedimento japonesa que é simplesmente abaixo de cão, que vira os funcionários uns contra os outros.
Onde será exactamente o olho desta rua, a Vítor Cordon, nome de um oficial e explorador português que traduziu para o mundo a beleza do lago Niassa? No idea. O que sei é que aqui mesmo ao lado, na Rua da Pide, a António Maria Cardoso, hospedava-se a minha escritora preferida, a Clarice Lispector, quando vinha a Lisboa. (...) Clarice, maravilhosa Clarice, por vezes, penso que só tu me entendes. Sobretudo quando folheio as páginas dos teus livros e tropeço em pérolas como esta: “Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam.”
Com excepção da Abelha, que tem graça, e da Mulher, que é a mais interessante na sua depressão crónica, as restantes personagens não passam de caricaturas mal engendradas de vários elementos da actual sociedade portuguesa: a divorciada gorda, a arrivista, a socialite, o sedutor, a megera, o caçador de fortunas e por aí adiante, uns em busca de estatuto, outros que tanto poderiam estar ali como a virar frangos. Não tendo personagens suficientemente bem construídas nem um enredo forte, apesar de um tema com tanto por explorar, tendendo para o abuso das frases feitas, “Olho da Rua” desemboca na saída mais sensaborona, um homicídio.
Ainda estou para saber o que me deu para usar esta linguagem desbragada com alguém que preferia manter à distância. Pode ter sido um efeito da mudança de medicação – passei de Alcoran para Alprazoran, o que continuava a soar a nome de seita fundamentalista – ou talvez fosse consequência do terceiro Martini Limoni ou mera reacção inusitada ao festim de bolinhas que esvoaçavam pela avenida. O certo é que proferi aquelas palavras com o ar mais tranquilo do mundo, e quase ouvi aplausos dentro da minha cabeça.
"Começou tudo com aquela ideia estúpida do método japonês. Em que sítio do mundo se pede aos funcionários de uma empresa que decidam quem vai ser despedido? No Japão? Okay, mas também não será por acaso que eles têm uma das taxas de suicídio mais elevadas do mundo. Pense comigo: para que servem os chefes? Exacto, para tomar decisões difíceis, nomeadamente quem vão despedir numa situação de crise, que até nem me parece que fosse assim tão grave, mas adiante. Onde é que já se viu atirar a responsabilidade para cima das vítimas? É claro que a agência se transformou numa espécie de Big Brother, ainda por cima sem direito a galas e a cenas picantes."
O que eu sei é que não queria ser funcionária desta agência de publicidade. Minha nossa! Não há um que se aproveite. São todos mesquinhos, egocêntricos, invejosos e pequeninos.
Apesar de não me identificar nem torcer por nenhum dos personagens, esta leitura, com capítulos curtos, cheios de ironia, crueza e mordacidade, entreteve-me.
Uma ficção que se apresenta como deslinda da "escravatura moderna", da exploração laboral e da glorificação das conquistas materiais e de produção de shareholder value como orientadora da vida é difícil de levar a sério quando apresenta como explorados e vítimas pessoas que, no meio pejado de precariedade e recibos verdes como é a comunicação e a publicidade, ganham as módicas quantias de 3-6k mensais, mais despesas de representação et ali. na Lisboa dos anos 2000. É certo que é ficção, mas a uma millennial na fronteira com a gen z que cresceu na crise do subprime e entrou no mercado de trabalho em 2020 isto deu-me só imensa vontade de rir. E de consultar as definições de "explorado" e de "vítima" no dicionário. Sou a última pessoa que defenderá que a identidade ou classe de alguém o torna mais ou menos legítimo ou defensável, mas não é minimamente plausível do ponto de vista narrativo ler páginas a fio de pessoas com grandes cargos, apelidos sonantes e uma rede de contactos invejável lamentar a sua desgraça se acabarem por ser, por azar, despedidas, sem um único exercício de auto consciência autoral. Que os próprios acreditem que são vítimas, tudo certo, mas não aceito um autor que viva na lua e não venha cá abaixo acenar-nos com um mínimo de plausibilidade.
Em termos literários não há escrita de grande monta nem nada digno de particular nota, a não ser a sensação de que a autora não se conseguiu decidir se queria escrever um thriller ou ficção literária, então a dois capítulos do fim do livro decidiu trocar as voltas e trocar também um género literário pelo outro. Sem proporcionar ao leitor o fim digno de nenhum dos dois estilos: o thriller fica sem explicação digna e justa sobre o enredo, e a ficção fica sem uma conclusão que honre o pacto da ficção entre autor e leitor.
Começou bem - gostei da caracterização das personagens e da utilização de animais como personificação -, mas depois o livro acaba por ser só isso mesmo: as mesmas personagens a agirem da forma como foram caracterizadas (um pouco planas).
Nem sempre os livros mais “badalados” são os que aprecio. Que bom é começar um livro sem ter o mínimo conhecimento do que trata, sem nenhuma expectativa, e terminar com a sensação “Caraças, ainda bem que li isto!” Não conhecia muito da autora. Mas este livro piscou-me o olho na biblioteca (tema que daria para outro post) e veio comigo. Esteve a marinar na estante até ter pegado nele por não querer ler nada muito denso. Engano! É daqueles que nos prende, que me fez anotar tudo nas notas do telemóvel ( sim, mania minha) e aproveitei todos os momentos para o ler. Foi uma leitura leve? Não, porque é impossível não nos revermos nas personagens (que são muitas) e nos seus dramas. Mas foi, sem dúvida, uma leitura muito agradável e uma grande surpresa. E uma leitura que acabou por me divertir. Esta espécie de “fábula” do mundo moderno, onde as personagens têm nomes de animais e vivem dramas de humanos, está muito bem construída. Só depois de o terminar fui pesquisar mais sobre o livro e sobre a autora. E quero ler o primeiro livro que escreveu, claro.
Uma sátira genial sobre o universo das empresas nos dias que correm, com as várias personagens a transportarem-nos para a nossa própria realidade e os cromos a arrancarem-nos muitas gargalhadas. Um romance que nos faz rir, mas também pensar nestes tempos em que o trabalho nos consome, muitas vezes, mais do que devia.
O título é elucidativo. Olho da Rua é uma expressão que significa despedimento, rescisão de contrato de trabalho (ou despejo, expulsão de casa). Um grupo de pessoas que são identificadas como os animais com os quais partilham características estão em risco de sair de uma agência de publicidade e um modelo "japonês" é utilizado para determinar quem. A lei da selva também serve para o escrutínio nesta "fábula" moderna em que entre si escolhem os que vão para o olho da rua.
Nada nesta trama bem urdida e fantasiosa é alheio à realidade. Os sentimentos subjacentes que comportam diversos comportamentos consoante o tipo de personalidade correspondem e talvez seja interessante pensar nisto porque apesar do humor existem situações terríveis. Um pequeno núcleo que tem que coabitar em conflito até um desfecho imprevisível.
Muito bom e viciante. A adrenalina que todas as personagens carregam passa para o leitor e apesar do sarcasmo e ironia presente em toda a narrativa é um romance forte e atual que não nos deixa indiferentes. A contrapartida surgiu depois de uma jovem se suicidar no dia de natal depois de mais uma jornada de trabalho de vinte horas. E tanto que este livro contêm sobre os riscos em balancear estabilidade, liberdade e realização.
Livro fácil de ler, com um enredo engraçado. Fez-me concluir que tenho de ler mais literatura portuguesa contemporânea, com as suas referências a Actimel, Pingo Doce e, até, à Marinha Grande (a minha cidade natal).
Lê-se rapidamente, e é razoável, mas tem muitas partes que não acrescentam muito às personagens e à história. As personagens acabam por parecer apenas caricaturas por vezes.
O conceito à volta do qual a ação de passa está bem urdido. O humor está presente, quase sempre sob a forma de ironia. Uma boa surpresa, ainda que tenha preferido a consistência inicial da narrativa.
Um livro sobre uma empresa onde alguém irá ser despedido e quem tomará essa decisão serão os próprios funcionários (ideia "inovadora" vinda do Japão). Um livro sobre a vida de várias pessoas, as suas amizades ou inimizades, as suas qualidades e defeitos. Foi uma leitura estranha, apesar de ser um livro de leitura fácil e rápido de ler. O que teve de estranho? A quantidade de personagens, todas personificadas por um animal diferente, associado à sua personalidade. Para mim, foi demasiada gente e demasiados animais. Tinha de procurar sempre informação que me esclarecesse sobre que pessoa era o capítulo. Não deixa de ser um relato (talvez fiel) de várias empresas e essa parte faz todo o sentido.
Se me fosse guiar pelas opiniões que por aí circulam teria perdido um dos melhores livros que li, até agora, este ano.
Embora ficção, esta é a estória de muitos de nós. Uma realidade muito portuguesa... A dos que subiram na vida a pulso, dos que subiram na vida deitados, dos que usaram a política para ser alguém na vida, de quem tem pergaminhos mas não tem fundos...
A alternância no narrador (os narradores têm nomes de animais predadores, o que não deixa de ser pertinente), o tema e a escrita num português fluído e muito contemporâneo fazem deste romance uma obra singular no panorama literário actual em Portugal. Gostei muito!
Um dos meus passatempos favoritos é chegar à estante de uma qualquer livraria, olhar aos títulos portugueses, e aleatoriamente escolher um. “Olho da Rua” foi uma dessas seleções, e não sabia nada nem da autora nem da história. Inicialmente achei estranha, a história, as personagens e o desenlace. Contudo, ao ler, vi-me (bem) perdido no enredo, nas idiossincrasias de cada uma das almas desta história, e na maravilha que é esta crítica social à sociedade de hoje, dos seus bizarros esquemas, e da (pouca) moralidade que a caracteriza (e ao trabalho). Um desenlace que mantém o leitor bem agarrado até à última página. A ler, sem moderação.