Carlos Campaniço nasceu em Safara, no concelho de Moura, em Setembro de 1973. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, pela Universidade do Algarve, onde adquiriu também o grau de Mestre em Culturas Árabe e Islâmica e o Mediterrâneo. Vive há dezassete anos em Faro e é Director de Programação do Auditório Municipal de Olhão, o mais recente teatro do Algarve.
Numa zona rural do Alentejo profundo em pleno Estado Novo, vivem duas famílias que se odeiam : os Velho e os Lobo. No Montinho vive a família Velho, uma família extremamente pobre e que tem como patriarca Jacinto Velho, um homem rude, analfabeto e que não aceita ser subserviente de ninguém, a sua mulher Maria Barnabé, uma mulher simples com uma força interior extraordinária, é a curandeira local e está sempre pronta a ajudar quem precisa de um conselho ou de uma mezinha. Com o casal Velho vivem ainda os seus 6 filhos. No Monte do Azinhal vive a família Lobo, o patriarca Francisco D'Almeida Lobo é um rico latifundiário, um homem com um temperamento difícil, não permite que lhe desobedeçam e não dá liberdade de movimentos quer à sua mulher Lurdes e muito menos à sua jovem filha Esperança atirando-as para o total isolamento na sumptuosa mansão que construiu no monte. A história destas duas famílias é-nos contada por Sebastião Velho o filho de Jacinto e Maria, agora com 60 anos. Recorrendo à sua memória vai-nos contando como e porque é que começou o ódio entre as duas famílias, ódio este que ganhou uma outra dimensão quando Moisés o primogénito dos Velho aceitou ir trabalhar para o rival do pai. Com esta atitude Moisés vai trazer consequências catastróficas para ambas as famílias que nunca mais recuperarão. Velhos Lobos é uma saga familiar sobre a luta de classes, o ciúme, a traição mas é sobretudo sobre a solidão, a solidão que nos é imposta e a que impomos a nós mesmos . É uma história bem portuguesa, um livro extremamente bem escrito, com vários segredos por desvendar e que nos retrata com mestria as agruras da vida de quem nada tem e das consequências nefastas da maldade e tirania de quem tudo pode.
Aposto que muitos de vocês nunca ouviram falar de Carlos Campaniço! Ou, pelo menos, não da forma que ele merece! A sua escrita remete-nos para ambientes rurais, nossos, e uma das suas obras possui um toque de realismo mágico. Depois de se entrar nesses mundos é difícil de lá sair. Aconteceu-me isso em "Os Demónios de Álvaro Cobra".
Neste "Velhos Lobos", o realismo mágico não está presente. Presente está a escrita viciante de Campaniço, as histórias de vizinhos rivais, os ódios intemporais de famílias que lado a lado vivem anos de guerras que parecem não ter fim. E a solidão. Uma solidão profunda, marcada pela quase inexistente vida social, que parece instalada no dia a dia dessas gentes.
Algures no Alentejo, num tempo em que os automóveis não povoavam os lugares, de contrabandistas e refugiados espanhóis a monte, de telegramas que anunciavam as boas novas, sobretudo as más, duas famílias partilham ódios profundos e amores estranhos.
A família Velho e a familia Lobo - uma pobre, outra rica - que, piores que velhos lobos, se atiçam com quesílias toda uma vida e passam aos seus descendentes esse desamor, esses ciúmes e esse ódio que sentem uma pela outra e que é vivido também dentro de cada família.
Vale tanto a pena conhecer os segredos que estão por detrás destas duas famílias! Que amores se escondem dentro desses ódios?
Uma história (estória) portuguesa com certeza! Famílias rivais num monte alentejano onde há de tudo menos amor. Foi a emoção mais negada. Escrita fantástica e uma saga familiar interessante. Recomendo vivamente
Uma história muito bem escrita sobre duas famílias rivais em que as suas vidas se entrelaçam durante anos, criando ódio, rancor, ciúme, vingança e desamores. Com personagens bem construídas, a leitura é também levada pela expectativa de desvendar os seus segredos. Recomendo!
Ainda que o tenha achado o mais fraco dos livros que já li do autor, Carlos Campaniço não defrauda com a sua escrita descritiva (sem exageros) dos ambientes rurais (que no caso são alentejanos mas que poderiam ser de qualquer outra região isolada do país) e de outros tempos. Nesta narrativa mostram-se “as dores” de quem nada tem, em contraposição (ou não) com os abastados e que, para mim, não funcionou tão bem como os anteriores (excepto as Viúvas de Dom Rufia que ainda não li) pelo ritmo monocórdico do desenrolar da história, até ao final. De qualquer forma, é sempre um prazer ler Carlos Campaniço.
Uma fabulosa saga familiar passada no Alentejo. Uma história de duas famílias muito diferentes que partilham uma terra e cujas vidas seguem emparelhadas como dois cavalos que se odeiam. Boas personagens, magníficas descrições dos lugares, dos tempos e do passar do tempo, lento e abrasador. Os acontecimentos trágicos que unem as duas famílias fazem com que não se consiga parar de ler. Uma leitura obrigatória. Do melhor que se faz agora em português.
"Velhos Lobos" é o primeiro livro que leio do escritor português Carlos Campaniço, natural do concelho de Moura, no Alentejo, o qual me foi oferecido por uma amiga, que me disse que os seus livros eram muito interessantes e que não entendia a razão pela qual aquele não era um escritor mais conhecido do público.
E a minha amiga estava certa, pois gostei muito da história e da escrita. As personagens e a época em que decorre estão muito bem caracterizadas, assim como as paisagens do Alentejo, simultaneamente agrestes e tranquilas, atravessadas ora por um calor intenso, ora por um frio impedioso, mas de uma beleza a perder de vista.
No final dos anos 30 e durante o período da segunda guerra mundial, quando os ecos dos conflitos apenas chegavam às terras da raia alentejana, através de espanhóis que fugiam das regiões de Espanha ocupadas pelo exército do General Franco, e que eram perseguidos pelos guardas da GNR, os quais os prendiam e devolviam a Espanha, duas famílias residiam em dois montes vizinhos, mas isolados e afastados da aldeia mais próxima.
Uma delas, os Velho de apelido, era pobre e praticava uma agricultura e pecuária de subsistência. O pai, Jacinto Velho, era muito teimoso e não permitia que os filhos aprendessem a ler e a escrever, tentava impedir que a família contactasse com as pessoas da aldeia e sentia ciúmes doentios da esposa. Esta, de nome Maria Barnabé, tentava opôr-se à pobreza em que o marido queria manter a família e sendo uma mulher forte e corajosa, tudo fazia para melhorar as condições de vida da sua prole, e contra a vontade daquele, ia vender frutas, hortaliças e galinhas ao mercado da aldeia.
A segunda família, a mais rica e poderosa da região, era encabeçada pelo lavrador Francisco Lobo, sendo ainda formada por o seu irmão alcoólico, duas tias idosas solteiras e uma filha doce e obediente. Tinha uma casa enorme, estábulos com cavalos, terras muito produtivas e um número imenso de trabalhadores que tratavam das terras e dos animais.
As famílias eram inimigas entre si, pois Jacinto Velho, apesar de pobre, era muito orgulhoso e sempre se recusou a trabalhar para Francisco Lobo, bem como tentava impedir que o segundo se acercasse da sua humilde propriedade, pois este tinha um interesse antigo por Maria Barnabé e queria tomar posse da mesma, já que como homem poderoso que era, não admitia que quem quer que fosse se lhe opusesse.
Os conflitos entre as duas famílias agudizam-se quando o filho mais velho de Jacinto e Maria Barnabé, contra a vontade do pai, vai trabalhar para a herdade de Francisco Lobo como tratador de cavalos e, também, quando Francisco Lobo volta a casar com Lourdes, uma senhora da alta sociedade de Sintra, mas a atravessar dificuldades financeiras, que vai residir para a sua herdade, passando a ter uma vida muito diferente da que tinha até então, o que lhe causa uma profunda tristeza e solidão.
O livro retrata ainda o poder dos lavradores ricos, a sua influência política junto das forças policiais, que controlavam através de favores, presentes e outras formas de corrupção, as desigualdades sociais e uma sociedade estratificada entre os muito ricos e os muito pobres, onde aos segundos só era permitido continuarem a viver na miséria e não lhes era dada qualquer oportunidade de ascensão social e, por último, à total submissão das mulheres perante os maridos e os pais, todas estas situações características de um país pobre e analfabeto, que era Portugal durante a ditadura de Salazar.
Sebastião Velho na casa dos sessenta anos, recorda a voz de menino que brincava na azinheira grande a mais clara das suas memórias embrulhadas numa espécie de sono e de espera. E logo começa...
Romance de época da nossa gente. Mundos tão dissemelhantes que nos parecem mais recuados e que Campaniço recupera com mestria num escrita que encanta, expressiva e bela, com uma sonoridade que apetece ler e reler para melhor apreciar.
A solidão dos campos e o silêncio afetam a vida de duas familias vizinhas desavindas, uma pobre e outra rica, em que o ciúme de um e o desejo do outro não permitem acertos. E com o passar dos anos tanto se deu na vida destas duas famílias e apenas Jacinto Velho soube o que era a verdadeira riqueza.
Este é daqueles livros que nos deixam com um amargo de boca por terminarem. Por querermos mais e mais, de tão bom que é. Uma estória bem construída, muitíssimo bem escrita (achei a forma de escrita absolutamente soberba, irrepreensível) e com uma caracterização extremamente bem feita das personagens.
Um drama rural, do Alentejo de outros tempos, mas que nos faz avivar memórias de relatos antigos.
Numa altura em que gravitam por aí novos escritores portugueses, alguns numa quase aparição frenética, qual fast food literário, é de salientar a escolha daqueles de nos tocam no âmago. Por tudo o que disse acima... Só li esta obra de Carlos Campaniço, mas termino-a com a certeza de que não será a última. Assim como, este é um exemplo de livro que, mais tarde, relerei...