Para João Anzanello Carrascoza as palavras dão contorno a nós e ao mundo. Causam dor, feito espinhos e alfinetes. Mas, como agulhas, ajudam a nos curar de nós mesmos. Em ESPINHOS E ALFINETES, seu quinto livro de contos, esse homem que ama as palavras desde menino, fala das diferentes formas de vivenciar o adeus, dos difíceis temas da perda e da despedida “Quando perdemos alguém, damos adeus também a quem fomos. E, no fundo, estamos nos despedindo o tempo todo, mesmo quando damos boas vindas a uma pessoa”, argumenta o autor . Com rara sensibilidade, Carrascoza cria aqui, ainda, uma especial proximidade com o universo da infância — ela está na memória adulta, na vivência da paternidade, ou na exploração de seus ritos de passagem. “A infância é um período mágico, em que vivenciamos, ainda que em meio à dor, um processo de encantamento pelo mundo. Depois, adultos, cegamos para as belezas que antes nos deslumbravam e, aí, passamos o resto da existência em busca desse território perdido. Perdido, mas possível de reencontrar dentro de nós mesmos”, explica. Ao todo, são onze contos nos quais mais uma vez demonstra a força inventiva e o apreço pela palavra exata e necessária ao momento. Os narradores de Carrascoza contam suas histórias desde o ponto de vista de crianças, como se a infância fosse a única e real possibilidade de deslumbramento e fantasia. As narrativas, em sua grande maioria, giram em torno à perda de inocência: é gente moça que vai criando a casca para a vida e que aprende o que há de pueril em todas as felicidades. Aproximando sua prosa à poesia, Carrascoza tem construções de linguagem singulares e que remetem, aqui e ali, a um parentesco com Guimarães Rosa — sem que esses laços representem prisão. Bem pelo contrário, esse paulista de Cravinhos maneja a linguagem de maneira desenvolta, com imagens e comparações que, mais do que poesia, parecem contornar a falta de significação das palavras, inaugurando, enfim, uma marcha rumo à lucidez.
João Anzanello Carrascoza (Cravinhos, interior de São Paulo, 1962) é um escritor e professor universitário brasileiro.
Estreou-se com o livro Hotel Solidão (1994). Publicou vários livros de contos, como Duas tardes (2002), Espinhos e alfinetes (2010), Amores mínimos (2011), O volume do silêncio (2006, prêmio Jabuti) e Aquela água toda (2012, prêmio APCA).
Em seu primeiro romance, Aos 7 e aos 40 (Cosac Naify, 2013), Carrascoza escreveu que “o presente é feito de todas as ausências”. Em Caderno de um ausente (Cosac Naify, 2014), essa ideia se materializa de forma contundente, alçada por um lirismo poucas vezes visto na literatura brasileira.
"O vazio. Sorte que não nos abismamos com ele a todo minuto; se fosse assim, viver seria o inútil, o amargo do paladar que nunca passaria; sorte que na miudeza dos dias, por trás dos instantes, vem o urgente de ser, e vamos sendo, desligados de nossas faltas."
sobre tempo, perdas, faltas e saudade. incrível como ele escreve sob uma ótica nostálgica tão palpável.