Cardoso Pires va patir el 1995 una isquèmia cerebral, que li va ocasionar pèrdua de la memòria i problemes en els centres cerebrals que controlen la parla i l'escriptura. Contra tot pronòstic, a poc a poc va anar recuperant-se fins a poder narrar a De Profundis, vals lent el seu lent retorn a la vida des de les portes de la mort. El seu procés de recuperació de la memòria va ser també el de la recuperació de la pròpia identitat. El llibre és el testimoniatge d'una experiència límit, a la frontera de l'existència física i espiritual.
JOSÉ CARDOSO PIRES nasceu na em São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, a 2 de Outubro de 1925. Estudante na Faculdade de Ciências de Lisboa, trocou as matemáticas superiores pela marinha mercante. Entre 1969 e 1971, foi docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College, em Londres. Foi director literário de editoras lisboetas e director-adjunto do Diário de Lisboa (1974-75). Estreou-se com Os Caminheiros e Outros Contos (1949) e obteve o Prémio Camilo Castelo Branco com o romance O Hóspede de Job (1964). Dentro do neo-realismo, retoma a tradição satírica setecentista. Entre outros, escreveu os romances O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores), Alexandre Alpha (1987), República dos Corvos (1988). Escreveu para o teatro O Render dos Heróis (1960) e Corpo Delito na Sala de Espelhos (1979). Deu ainda a lume a colectânea de ensaios Cartilha do Marialva (1960) e o volume de crónicas E agora, José? (1978) e A Cavalo no Diabo (1994). Em 1997 publicou De Profundis - Valsa Lenta e Lisboa, Diário de Bordo que lhe valeram o Prémio Pessoa desse ano. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem da Liberdade, em 1985. Faleceu a 26 de Outubro de 1998, em Lisboa.
In De Profundis, Valsa Lenta, the Portuguese writer José Cardoso Pires (1925-1998) recounts his stroke in 1995. That's not like a doctor, not like a survivor. But like someone who split up and looked at himself during his absence. This fact gives us a disturbing story in which the author reclaims both the objects (and usefulness) and the words. That's a tale of life's fragility, all we have acquired over the years that we can lose in seconds. This body's slow waltz is transported elsewhere where memory does not exist, and the slightest reference point is absent. An elsewhere, out of time, out of the body, which lasted two weeks, and from which the writer could have returned, or at least never entirely, as affirmed by his friend João Lobo Antunes, a neurosurgeon in his long preface entitled Letter To a New Friend. A short story (around 70 pages) takes us to the writer's slump who could read and write again, with all the horror that this passage may have provoked in anyone who saw it afterward.
Tenho vontade de ler este livro desde sempre. Não sei porque demorei tanto tempo a fazê-lo, que pecado! Este livro tão pequenino, que se devora num instante, é um testemunho de alguém que viveu a morte em vida. José Cardoso Pires faleceu em 1998 vítima de um acidente vascular cerebral. Escreveu este livro em 1997 descrevendo um outro acidente AVC, que sofreu em 1995. No prefácio o Professor João Lobo Antunes escreveu: "Devo dizer-lhe que é escassa a produção literária sobre a doença vascular cerebral. A razão é simples: é que ela seca fonte de onde brota o pensamento, ou perturba o rio por onde ele se escoa, e assim é difícil, se não impossível, explicar aos outros como se dissolve a memória, se suspende a fala, se embota a sensibilidade, se contém o gesto. E, muitas vezes, a agressão, como aquela que o assaltou, deixa cicatriz definitiva, que impede o retorno ao mundo dos realmente vivos. É por isso que o seu testemunho é singular, como é única a linguagem que usa para o transmitir." Com este AVC de gravidade muito acentuada, José Cardoso Pires, perdeu temporariamente a memória e ficou com o centro da fala e da escrita profundamente afetado, que o podia conduzir a uma sobrevivência em incomunicabilidade total. O que restaria do escritor, no homem que se encontrava ali, estendido à espera de coisa nenhuma? Acompanhar a viagem da sua recuperação da “desmemória”, percorrer o caminho das estradas tortuosas do cérebro de José Cardoso Pires, foi um prazer. A propósito deste livro, Rui Zink escreveu: “Dizem que foi necessária uma grande coragem para José Cardoso Pires escrever aquele livro. Qual coragem, qual carapuça! Um escritor, como uma criança angolana, usa os materiais que lhe chegam à mão para fazer o seu brinquedo terrível - o livro. José Cardoso Pires não seria um escritor digno desse atributo socioprofissional se não escrevesse sobre o seu coma.”
Li duma assentada numa tarde de chuva. (São só 70 páginas ). Um prefácio lindo de João Lobo Antunes (só por isso já vale a pena) O livro é a descrição possível dum AVC que JCP sofreu em 1985 e do qual recuperou totalmente. Uma escrita espantosa e uma descrição impressionante daquilo a que ele chama “morte branca”.
Nesta crónica de 1997, José Cardoso Pires relata a sua experiência de ter sobrevivido a um AVC. Este género de relatos é raro, especialmente da década em que foi escrita, pois muitos dos doentes ficam com graves sequelas motoras que limitam as actividades. Assim, para mim foi excepcional poder perceber o que pode pensar alguem naqueles momentos, o que sente alguem que não consegue ter um discurso articulado e cuja memória se transforma numa incógnica. Convivi com vários idosos que passaram por esta situação, muitios deles conheci-os nos quartos e corredores do Hospital de Santa Maria; estava sempre do outro lado. Eu era uma das que me sentava a fazer perguntas e a repetir infindávelmente do testes estupidos. Sempre me questionei o que iriam por trás da maioria dos olhares apáticos e da colaboração sofrida daqueles doentes. Com este livro tive um vislumbre.
Escrita de uma maneira simples e acessivel. Uma crónica a não perder. Sobre uma das doenças mais comuns nos idosos em Portugal.
Um lúcido e calmo relato da experiência do que o próprio chamou ser uma morte branca.
José Cardoso Pires sofreu, em Janeiro de 1995 um acidente vascular cerebral que veio alterar o seu eu, a maneira como vivia o universo que o rodeava (objectos, memórias, pessoas e afinidades), e que lhe tirou, felizmente temporariamente, a capacidade de falar e de escrever.
Assim tem-se um profundo registo do que é a mente de um eu afásico e sem memória: a despersonalização do que é sentir-se Outro; a angustiante brancura e o silencioso deserto da perda da memória; a importância que esta última tem em toda a concepção do tempo, desde a sua medição em passado, presente e futuro, até à maneira como se sente o tempo, perdidas essas conotações fotográficas que dão o calor cúmplice à cara da mulher, e a rotulação trivial à função de uma escova de dentes; a prisão apática de quem se fecha em si mesmo, ou de quem se fecha em si "outro", assim desprovido de comunicação e de identidade; a queda no desinteresse,"o constante e desinteressado desinteresse do homem desabitado de pessoas e de lugares, de tempo e de sentimentos."
Além disso, distanciada a particularidade da situação, é-nos oferecida também uma imagem da psicologia e da mente do doente em geral. Um retrato dos seus medos, do seu sentimento de inferioridade, dessa humilhação a que a doença o diminui e dos artifícios a que acorre para dessa pele se largar. E nessa particular sensação de impotência e susceptibilidade obtemos também o relato da sua relação com os médicos deste e doutro tipo, e também com os outros doentes, seus colegas de condição.
*** Sobre o drama da morte em vida... *** José Cardoso Pires morreu em 1998 (AVC).... Escreveu este livro em 1997 descrevendo um acidente vascular cerebral, que tinha sofrido em 1996! *** Como quando nos procuramos a nós próprios... Sensibilidade humana*
No início de 2023, eu estava a viver na costa alentejana e, na casa onde habitava, por entre estantes e prateleiras, encontrei um livro, e provavelmente não devia ter mexido no que não era meu, mas era tão fininho que decidi que o podia ler num dia e ninguém ia notar que eu o tinha tirado do lugar.
Foi assim que li De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires, onde o autor descreve a sua "morte branca" e a sua "viagem à desmemória" após sofrer um AVC, perder a memória de si e dos outros e a capacidade de ler e escrever e, apesar da gravidade do assunto, é marcado principalmente pelo bom humor e optimismo e torna-se uma leitura bastante enternecedora.
E foi também um livro rodeado de coincidências. Após devolvê-lo à estante, encontrei lá também o Jardim do Paraíso de Hemingway, que Cardoso Pires menciona: um livro onde "os nomes penetram-nos até aos ossos". E em seguida, Lisbon Story, que surpreendi a dar na RTP numa noite desse Verão e que me fez ter saudades de uma cidade que nunca conheci: "José? Que nome tão feio". Ou o filme português baseado nesta obra (Sombras Brancas) que estreou escassas semanas depois no cinema? Coincidências!
Este livro é um recomeçar! Cada livro é em si mesmo um ponto de partida. "E agora, José? [...] você marcha, José! José, para onde?"
A recuperação da escrita depois de um acidente vascular cerebral que nos remete para o cerne da situação da perda da identidade, memória e visão do mundo transformado pela modificação da função do cérebro. JCP escreve dois anos depois sobre o núcelo desta experiência.
Um livro onde o escritor relembra as repercussões de um AVC. Uma espécie de memória da desmemória. Mais uma razão para continuar a gostar de José Cardoso Pires.
É muito ingrato exprimir uma opinião acerca deste livro, nascido de uma experiência tão pessoal e marcante como um AVC. Sinto que não sou nada perante o que o autor experienciou, nem me aproximo da compreensão do que é vivenciar a morte branca que descreve, para depois voltar à vida, regressar personalizado de tamanha despersonalização. Resta-me afirmar que é um relato comovente da experiência de alguém de grande valor intelectual que se vê repentinamente desprovido de referências por uma partida do corpo, e da sua recuperação contra todas as expectativas, escrita sem apelo a sentimentalismos, mas entregando-se a uma reflexão sobre a ironia e peculiaridade de certas situações que marcaram o seu processo de recuperação.
Testemunho pessoal de José Cardoso Pires relativo ao período que sucedeu ao AVC que sofreu em 1995. Uma análise calma e intimista dos farrapos que a memória preservou desde os dias mais críticos até à surpreendente recuperação.
Assustadoramente revelador da fragilidade a que estamos sujeitos quando o corpo nos trai e a saúde falha.
Dos livros mais tocantes que alguma vez li. De um grande senhor escritor. :-) que saudades dele. :-) A forma lúcida como descreve a sua experiência é incrível.
A viagem de um escritor pela “morte branca”, a “passear de alma ausente pelo anoitecer da memória”. Com prefácio do genial João Lobo Antunes.
“Devo dizer-lhe que é escassa a produção literária sobre a doença vascular cerebral. A razão é simples: é que ela seca a fonte de onde brota o pensamento ou perturba o rio por onde ele se escoa, e assim é difícil, se não impossível, explicar aos outros como se dissolve a memória, se suspende a fala, se embota a sensibilidade, se contém o gesto. E, muitas vezes, a agressão, como aquela que o assaltou, deixa cicatriz definitiva, que impede o retorno ao mundo dos realmente vivos. É por isso que o seu testemunho é singular, como é única a linguagem que usa para o transmitir.”
É um livro bastante interessante, especialmente pelo tema central ser algo inaudito na literatura portuguesa (pelo menos da que conheço) - uma experiência pessoal e íntima do processo de perda e recuperação da memória e da identidade por efeito da doença. Acho que o relato peca por não se focar o suficiente nos sentimentos do autor nos momentos finais da obra e nas pessoas que o rodearam ao longo do período que o livro descreve. Contudo, apreciei muito o facto de não ter tentado criar uma história ou uma narrativa através da deturpação da sua experiência da "morte branca".
O prefácio em particular é de uma escrita muito polida, sendo que foi a parte do livro que a mim mais me agradou. Achei que em relação à Balada da Praia dos Cães (o único livro que li de José Cardoso Pires) este é um ensaio muito mais trabalhado conceptual e linguisticamente.
Este livro foi-me recomendado por uma professora, avó, artista: Eugénia Penteado. Tenho um grande carinho e respeito pois é avó de 3 pessoas pelas quais tenho um grande carinho. E será escusado dizer o quão especial e único é este livro. Um autor de renome que sofre um derrame cerebral que o deixa com a memória dissolvida e com uma anatomia sem utilidade. Esta infelicidade cria uma nova persona em si, o Outro, que se desconhece a si próprio e os que o rodeiam. Este livro é uma carta de gratidão aos médicos que “operam memórias” e salvam vidas da morte branca.
JCP (1925-1998) traz-nos com “De Profundis, Valsa Lenta” o relato da sua precocemente anunciada morte cerebral ou morte branca. Vedado das suas funções de escritor e leitor mostra-nos o que é um cérebro arredado do pensamento e apenas com “luz branca” ou “white noise” como se outra pessoa se ocupasse do seu Eu como refere ao longo do livro. No prefácio fica tudo dito por João Lobo Antunes, reconhecido neurocirurgião,irmão de ALA, amigo íntimo de JCP quando este sublinha que o resultado final deste livro e da recuperação do escritor se ficou “(…)a dever simplesmente ao triunfo de um cérebro optimista.”
"Um tanto ao acaso, avancei para o lavatório e ao aproximar-me reconheci-me no espelho: Eu. Eu, saído da névoa, a ir ao encontro de mim na superfície dum vidro emoldurado e com a sensação ou com a certeza (ah sim, com a certeza, a mais que certeza) de que encontrara a memória. Incrível, a memória tinha reaparecido, o coágulo de sangue, esse selo que me estrangulara o cérebro, diluíra-se no segredo do corpo e eis-me livre, renascido, diante de dois estranhos que não paravam de improvisar malícias entre si."
É um livro breve, sobre uma experiência incrível que o autor sofreu. O evento e o que impactou nele tornam a obra particularmente desafiante de escrever e o JCP consegue transpor essa dificuldade perfeitamente. Fiquei muito curioso de ler outra obra dele.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Primeiramente resisti a lê-lo. Este tipo de livro sempre pertenceu a um grupo que em meu crer não deveria ser publicado. Por ser excessivamente íntimo, pela fragilidade necessariamente presente num relato de quase morte, talvez até por me parecer desinteressante tudo o que é breve e autobiográfico. O autor fez-me aperceber do quão tacanho era o meu preconceito. A lucidez da descrição da alienação, de como é ser um expetador passivo da nossa força motora a agir sem a nossa habitual consciência, ver quem amamos como se através de um vidro baço, da repentina expropriação da nossa memória e do nosso eu... Nada me parece mais merecedor de se intitular literatura. E se o relato do regresso à vida parece menos intenso, todas as menções à conversa corriqueira dos companheiros de quarto, aos seus hábitos, medos e provocações bem como o sempre presente desejo de acrescentar à vida uma banda sonora, são testemunho do que é para o autor relacionar-se e viver. O livro cativa na medida em que perturba e sara feridas na medida em que as expõe.
(PT) Um dia, em janeiro de 1995, José Cardoso Pires sofre um AVC. É dado como morto, mas ele acaba por recuperar. E em casa, conta o seu sentiu quando o seu cérebro se "apagou" e começou a ver coisas que, para ele, pareciam ser surreais.
"De Profundis, Valsa Lenta" é algo raro: uma autobiografia da doença de alguém. Um momento que, para ele, se tornou uma fronteira entre o inteligível e o desconhecido, um velho eu que se desintegrava à sua frente, sem ele poder fazer alguma coisa. Felizmente, acabou por recuperar, e achou por bem descrever o seu sentiu nessa sua perdição até regressar dos vivos. Uma narrativa pequena, mas impressionante, que aconteceu ano e meio antes da sua partida definitiva, em outubro de 1998.
Não sendo uma peça literária, é mais a descrição da sua própria fragilidade e mortalidade, bem como o que fazer com ela.
“Por lo demás, la desmemoria no sólo lo asiló de la realidad objetiva, sino que, además, lo privó, podríamos decir, de sentimientos.”
“Con un golpe repentino había perdido la integridad del habla y con el mismo golpe había perdido los valores de la grafía y había quedado analfabeto de mí y de la vida.”. #bookquotes
El autor portugués hace un relato autobiográfico de lo que recuerda sobre su experiencia con un hecho fortuito y totalmente desafortunado: un accidente vascular, un pequeño coágulo que desvió su camino y le llegó al cerebro acercándolo a la muerte y dejándolo en sus propias palabras: analfabeto de mí y de la vida. En este breve relato, abre sus puertas y cuenta cómo fue esa etapa en dónde no era capaz de reconocerle ni él mismo y mucho menos a sus seres queridos y más cercanos.
Un ejercicio admirable que sin duda transmite el desespero de las vivencias del autor. Es este quizás uno de los mayores miedos de cualquier persona: quedarse encerrado dentro de su propio cuerpo sin capacidad de comunicación alguna. Con este tipo de libros resulta imposible emitir ningún tipo de juicio; pese a no ser una lectura predilecta, sin duda el nivel de empatía se mantiene en los niveles más elevados de la escala durante toda la lectura. Un relato diferente.