Nos últimos anos do salazarismo, a remota aldeia de Glória do Ribatejo acolhe o posto de retransmissão da Radio Free Europe e torna-se um palco improvável da Guerra Fria. Através das ondas hertzianas, norte-americanos e soviéticos travam uma luta de propaganda que depressa resvala para perigosas manobras de sabotagem, às quais os cúmplices portugueses das duas partes em conflito não são de todo alheios. João Vidal, filho de um político da ditadura, trabalha como engenheiro na rádio controlada pelos americanos, mas o que nem a família nem os patrões sabem é que o jovem de aparência imperturbável, embora profundamente traumatizado pela Guerra Colonial, é um agente ao serviço do KGB. Envolto numa teia de traições, mentiras e morte, João vai questionar as suas lealdades e pôr em risco a própria vida…
O final é confuso, não se sabe bem a orientação dele e da Mia. Mas em geral retrata muito bem as vivências e políticas da época, com um olhar crítico, mas discreto.
É impressionante a forma de como uma tese universitária dá origem a uma série portuguesa tão boa e a um livro ainda mais espetacular! Tal como Pedro Lopes refere na nota final da obra, "Mesmo partindo do pressuposto que História e Ficção são duas formas diferentes de contar histórias, torna-se possível afirmar que a ficção tem a capacidade de oferecer verdades metafóricas." Conseguimos chegar ao terror experienciado pelos militares em África, às vivências do povo português que tenta fugir à miséria e à PIDE, bem como aos políticos que dirigem um Portugal a fragmentar-se, ou ter acesso à luta em segredo do comunismo contra os americanos e vice-versa. Entramos no seio do regime salazarista e da Guerra Fria e é incrível como tudo se encaixa, como se fosse uma viagem no tempo em que conseguimos ver todas as perspetivas de personagens e realidades distintas.