O ensaio O Partido com Paredes de Vidro teve a sua primeira edição em Agosto de 1985 com um objectivo declarado: dar a conhecer como nós, os comunistas portugueses, concebíamos, explicávamos e desejávamos o nosso próprio partido.
Desmentiam-se assim as caluniosas acusações que apresentavam o PCP como um partido aferrolhado num bunker de grossas paredes de cimento, ocultando os seus verdadeiros objectivos e a realidade da sua vida interna.
Através do ensaio, podiam os leitores observar e conhecer por dentro o PCP, como se o fizessem «através de paredes de vidro». Daí o título do ensaio.
Não se limitou porém este à realidade do partido nesses anos.
Incluíram-se numerosas anotações de carácter histórico. Explicaram-se as raízes e as características essenciais do partido. Examinaram-se passo a passo ideias divergentes. Apontaram-se erros e tendências negativas.
Nos anos desde então decorridos, verificaram-se, tanto em Portugal e no mundo, profundas transformações. Entretanto, os princípios fundamentais, vasta e pormenorizadamente desenvolvidos no ensaio, mantêm, a nosso ver, significativa actualidade.
Justifica-se assim a iniciativa da presente reedição e da sua apresentação neste Prefácio.
ÁLVARO BARREIRINHAS CUNHAL nasceu em Coimbra, a 10 de Novembro de 1913. Estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, filiou-se no Partido Comunista Português (1931) e foi eleito secretário-geral das Juventudes Comunistas. Em 1936 passou à clandestinidade e em 1937 entrou para ao comité central do partido. Após várias prisões temporárias, foi preso no Forte de Peniche, de onde se conseguiu evadir em 1960. Foi Secretário-Geral do partido de 1961 até 1992. Regressado a Portugal em 1974, fez parte, como Ministro sem pasta, dos I, II, III e IV Governos Provisórios (1974-1975). Deputado entre 1974 e 1992, raramente ocupou o lugar na Assembleia da República. Foi ainda membro do Conselho de Estado de 1982 a 1992. Publicou vários livros, sob o pseudónimo de Manuel Tiago: Até Amanhã, Camaradas (1974), Cinco Dias, Cinco Noites (1975), A Estrela de Seis Pontas (1994), A Casa de Eulália (1997), Fronteiras (1998), Um Risco na Areia (2000), Sala 3 e Outros Contos (2001) e Os Corrécios e Outros Contos (2002). Faleceu em Lisboa, a 13 de Julho de 2005.
O Partido com Paredes de Vidro , livro publicado em 1985 pelo histórico líder comunista e então secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, funciona como um guia de apresentação do Partido Comunista Português àqueles que, de fora, o querem entender; e, simultaneamente, como uma declaração de interesses, objectivos, prioridades e conduta moral, ideológica e política dos comunistas portugueses militantes no PCP.
Neste livro, escrito e editado 11 anos depois da Revolução, numa época caracterizada pelo esmorecimento da chama transformadora de Abril e de uma certa recuperação reaccionária, saudosista e monopolista, explicada pelos recuos nas conquistas de Abril possibilitados pelas revisões constitucionais e por uma progressiva desvalorização do projecto ideológico vertido no programa do MFA - projecto de construção do socialismo, Cunhal reafirma a natureza de classe do PCP, a sua profunda identificação com a causa operária e os seus princípios proletários, antimonopolistas e de redistribuição da riqueza e dos meios de produção. Afasta, assim, aquilo que define como "um desvio social-democrata e reformista" perigoso aos partidos de esquerda, operários, socialistas ou comunistas. A ligação com as massas, a participação nos sindicatos e nas organizações de trabalhadores e a orientação da classe operária na persecução das suas mais profundas aspirações afirmam, desta forma, o PCP como a vanguarda da luta operária e socialista.
Quando, nas concepções, na relação com a classe operária e as massas, na ideologia, um partido se afasta da sua natureza e independência de classe, entra num caminho que o leva ao abandono dos objectivos característicos da sua identidade e à conversão num defensor de uma política reformista e de uma ideologia social-democrata ou social-democratizante.
O histórico dirigente comunista, eleito na clandestinidade e mantido preso durante mais de uma década pelo regime fascista do Estado Novo, faz, também, uma análise muito lúcida e justa daquilo que foi a defesa intransigente e heróica da paz e independência dos povos africanos, da liquidação irrevogável do fascismo, da resistência inabalável aos ataques contra-revolucionários no pós-25 de Abril e na representação e mobilização das classes exploradas e oprimidas por parte do PCP.
Mas há muito mais nestas páginas: a recusa firme do culto de personalidade, que Cunhal considera um perigo com prejuízos incalculáveis; o discurso que serve para afastar dogmas de actuação e doutrinas de comportamento por parte do Partido; a negação da sujeição ortodoxa às directrizes da Internacional Comunista, que o Partido abandonou mesmo antes da sua dissolução; a questão do trabalho colectivo e da democracia interna, questão que é cara a Cunhal; a importância da disciplina e da unidade - nunca no sentido militarista do termo - para cumprir os objectivos políticos do Partido; a necessidade de tomar referências políticas não como deuses mas como mestres; a rejeição do conflito de gerações no Partido; a dedicação e militância profunda dos comunistas, a par de uma simultânea rejeição do sacrifício pessoal como regra; entre muitas outras discussões levantadas.
A prática do elogio, da lisonja, do aplauso sistemático e quase obrigatório converte-se facilmente num processo perigoso na vida interna do Partido. Mal vão as coisas quando o nome do mais responsável não pode ser pronunciado sem que uma salva de palmas o acolha.
Concordo com muito, não concordo com tudo. Duvido da importância sacramental dada à disciplina, por muito não-militarista que seja, ou da afirmação de que "Marx e Lénin são objectivamente inseparáveis [...], é impossível ser-se marxista e não se ser leninista." Ainda assim, admiro o percurso ímpar do PCP na resistência antifascista, na consolidação da Revolução e na defesa intransigente das conquistas de Abril, algumas desvirtuadas e abandonadas pelas políticas de direita. Sou admirador, também, da figura de Álvaro Cunhal, rebelde disciplinado, dor de cabeça maior para o regime que contrariou.
Enquanto o capitalismo, o imperialismo, o chauvinismo, o colonialismo, o neocolonialismo, o racismo, se traduzem no plano moral por conceitos e sentimentos de egoísmo, rapacidade, domínio ilegítimo, desprezo pelos outros seres — a causa operária inspira conceitos e sentimentos de generosidade, de fraternidade, de solidariedade, de amor pelo ser humano. O ideal político comunista é inspirador de uma moral superior. A prática revolucionária dos comunistas é uma escola de elevada educação moral e de formação do carácter.
Livro obrigatório para todos os simpatizantes do PCP, bem como todas as pessoas que se questionam acerca do porquê de este Partido ser como é. Apesar de ser um livro sobre o PCP, Cunhal acaba por nos trazer grandes lições sobre liderança, postura, ética e honra de trabalho. Seria útil que fosse lido por outras facções partidárias, podia ser que se evitassem tantos fenómenos de vergonha alheia a que a generalidade da política portuguesa nos habituou.
É um livro dos anos 80, logo ainda vive o espírito revolucionário do pós 25 de Abril. Ainda assim, Cunhal conseguiu escrever um ensaio moderno (os capítulos em que fala da necessidade de se rejeitar o "endeusamento" de figuras políticas, por exemplo, ou quando refere que devemos integrar os novos desafios sociais com objectividade e não seguir cegamente as ideologias do passado) e, ao mesmo tempo, um verdadeiro clássico. É impressionante como as coisas que escreve sobre a forma como os meios de comunicação social tratam o PCP continuam actuais, bem como fenómenos da vida política portuguesa que continuam semelhantes. Intemporal.
Un texto que se recomienda mucho para formar a militantes comunistas. Esencialmente explica qué es y cómo funciona un partido comunista (marxista-leninista).
Quizá por eso me ha resultado poco interesante, se me ha quedado un poco “básico” después de unos años militando y formándome.
Lo recomiendo a cualquier persona que tenga ganas de conocer este mundo, o a cualquier militante que necesite un refresco básico de los conceptos de organización del partido. Recomiendo mucho más tomar contacto con un partido marxista-leninista y empezar a militar, porque nada como tener la experiencia personalmente para conocer de verdad como funciona un partido.
Partido Comunista Português, com mais de 100 anos de história, é-nos apresentado por Álvaro Cunhal no meio da década de 1980, 11 anos após a revolução dos cravos, uma obra que esmiúça o tão incompreendido marxismo-leninismo, durante uma fase de ataque do liberalismo e cristalização da social-democracia, e das grandes narrativas anti-comunistas. A maioria conhece mal o PCP, e mal sabe explicar o que é o socialismo e o comunismo e o que vai por dentro por uma organização partidária ao serviço das classes trabalhadoras. O livro aborda a via quotidiana do partido, e do seu coletivo, dos indivíduos que fazem parte dele, faz um sumário cronológico da história do PCP, e a sua inserção no movimento comunista internacional. Houve um PCP antes o fim a II Internacional Comunista em 1943, houve um PCP que sobrevive a mudanças e repressões entre 1943 e 1964, quando se abre a última cisão por grupos maoístas que enfraqueceram a política frentista de um movimento comunista alargado em Portugal. Solução encontrada por muitos partidos comunistas em todo o mundo. De modo que para um partido fundado em 1921, na prática, só nos anos de 1960 se consolidou, como estrutura, nos quadros, na implantação na classe trabalhadora. Encontrei partes mais morosas quando li o livro, demasiado técnicas, encontrei informações novas, apesar de ser um livro com quarenta anos - mais coisa menos coisa, ainda podemos aprender algumas coisas com o PCP. De resto, terei de ler os restantes livros da série especial da autoria de Álvaro Cunhal. PCP um partido com história, virado para o futuro, ao contrário de outros partidos que têm intriga que mais parecem novelas românticas do que partidos políticos.
Una lectura interesante y didáctica. En ocasiones deja un sabor algo agridulce, porque no se ha actualizado desde su edición original en 1985, y es evidente que al menos en Europa el movimiento comunista ha perdido gran parte de su influencia. En todo caso, como parte de una formación de cuadros, o como forma de saciar la curiosidad intelectual de saber cómo funciona un partido marxista-leninista, esta es una buena opción.
Libro divulgativo que sistematiza los aspectos fundamentales de funcionamiento interno del Partido Comunista Portugués y, en general, de cualquier partido M-L. Está bien para asentar conceptos y pensar mejor desde la teoría aspectos relativos a la democracia interna del Partido, pero tampoco aporta gran cosa y está bastante anclado a su contexto y época.
Este é um livro para quem quer conhecer o Partido Comunista por dentro. Mas é também um livro imprescindível para a formação integral de um comunista militante do PCP.
No lo terminé en su momento y lo volví a empezar la semana pasada. Me alegro de haberlo leído en esta fase de mi vida. Creo que es un libro para leerlo cada tanto y volver a recordar lo fundamental.
Básico de la literatura comunista,enfocado a la organización puertas a dentro del partido, te puedes encontrar cosas muy similares en los propios estatutos de los partidos