Neste seu regresso às reflexões do quotidiano, Adília Lopes ensina-nos as vantagens de aprender a escrever com os Pardais: um dizer livre e espontâneo, num redemoinho de memórias de lugares e pessoas, objetos, palavras e certamente de um certo piar desse pássaro encantador:
"Adília Lopes da Silva and Maria José de Oliveira Viana Fidalgo are one and the same person. They are me. As poppy is a poppy. And many other names that I don’t know. Adília Lopes is water in gaseous state, Maria José is the same water in solid form. I'm a woman, I'm Portuguese, I’m from Lisbon, I’m a poet, I'm a linguist (we all are), I'm a physicist, I'm a librarian, I'm an archivist, I'm shortsighted, I was born on 20 April 1960, I'm single, I have no children, I'm catholic, I have brown eyes, I measure 1.56 m, now I weight 80 kg, I use the short hair since 1981, the hair is dark brown with many white hairs. (...) it's clear that the poet is always the idiot of the family, the crazy one".
Gostava que os meus poemas fossem pardos, modestos, pequenos, lisboetas como os pardais e que tivessem o som do piar dos pardais.
Fugaz e singelo como um pardal. É o que este livro que se pode ler num quarto de hora é.
Há o Cemitério dos Prazeres e há a minha casa que é a casa dos prazerzinhos. Levantar-me às 3h da manhã, pôr Lavanda Ach. Brito num lencinho de assoar de pano e cheirar. Nunca me passou pela cabeça drogar-me, isto assim basta-me. Comer um bombom de ginja, reler uma cantiga de amigo, ouvir o sino da igreja bater as horas e contar as badaladas pelos dedos da mão direita, ver a luz da iluminação pública apagar-se no castiçal do piano que tenho na casa de estar, o castiçal é de metal, reflecte a luz, a luz apaga-se agora em Maio pelas 6h30. E acima de tudo ouvir os melros e os pardais nas árvores da rua.
Quem não conhece Adília Lopes não deveria começar por aqui, mas se são fãs empedernidos e incondicionais, talvez achem graça à provocação após somente 37 páginas escritas, às vezes, com uma única frase aforística, às vezes com a mesma ideia repetida em textos diferentes.
Não empolar. Não escarafunchar.
Depois disso, embarquem na irreverência ou peçam o vosso dinheiro de volta.
"Vive e trabalha em Lisboa. Vive em Lisboa, trabalha em Madrid. Hoje em dia usa-se muito a fórmula vive e trabalha nos curricula. Mas assim parece que a pessoa onde trabalha não vive, que quando trabalha não vive. Dá vontade de dizer que um astronauta vive em Nova York e trabalha na Lua."
Exemplar da biblioteca e meu primeiro contato com a escrita de Adília Lopes. E que boa escolha para introdução. Páginas povoadas por uma ou duas frases. Li-o num instante. Só me deixou com vontade de mais.
"Gostava que os meus poemas fossem pardais, modestos, pequenos, lisboetas como os pardais e que tivessem o som do piar dos pardais."pág.36
"Aprendo a escrever como os pardais."pág.37
Uma boa surpresa foi o humor desta poeta portuguesa:
"Samicas de caganeira." - Gil Vicente "É o que digo quando tenho chatices, quando me aparecem pessoas chatas." pág.32
Vou usar esta expressão de hoje em diante. Adorei!
É sempre bom, é sempre Adília. No entanto, a prontidão e leveza a que nos habituou confunde-se aqui com escassez e vazio. Fica aquém da maioria das suas obras.
"Gostava que os meus poemas fossem pardos, modestos, pequenos, lisboetas como os pardais e que tivessem o som do piar dos pardais."
Na minha opinião, este livro cumpre em absoluto esse desejo e foi por isso que me ensinou tanto. Um livro não precisa ser arrebatador, pode ser só modesto e, ainda assim, conter toda a beleza. Até porque esta última nem sempre (leia-se quase nunca) é o elemento mais importante. Quem prefere beleza quando se pode escolher a irreverência?
"Pardais" é ousado e, simultaneamente, encarna os humildes pardais. Não consigo pensar num título melhor para um livro pequeno, com algumas páginas que contém apenas uma frase, e vários rabiscos da autora na parte final. "Pardais" lembra os pardais. O objetivo foi cumprido. Não interessa nada as expectativas que tinha ou a pontuação que atribuo. O livro é o que pretendia ser.
Talvez não seja o mais indicado para uma primeira experiência com a autora, mas para quem já é fã incondicional, penso que se trata de uma leitura obrigatória. Todo o livro grita essência e autenticidade, não se pode exigir mais.
Fica a importante reflexão de que um livro não tem que ser extraordinário, não tem que cumprir determinados objetivos. Acredito que Adília Lopes se reveja em absoluto nestas poucas páginas. Haverá sentimento melhor? A arte tem o valor que lhe atribuímos. ❤️
Encontrei este livro a passear pela Assírio & Alvim da Feira do Livro de Lisboa. A capa chamou-me a atenção, li a algumas páginas e gostei. Nunca tinha lido nada da autora, aliás, nem a conhecia, mas encontrei entre nós algumas parecenças. Acabei por ler o livro todo em cerca de 30 minutos no autocarro (são pequenos poemas), mas gostei bastante.
Li essa semana na livraria, numa tacada só. Um estilo de prosa poética rápido, irônico e até memorialista. Uma ótima escolha para começar a ler Adília. "Na montra de um café de Lisboa está escrito: A vida é Super Também acho."
Neste livro, gosto da frase "Sem liberdade não há felicidade", da frase "Sem democracia não há alegria" e ainda num registo totalmente diferente "Que morra Marta mas que morra farta e que não morra Marta" (coitadas das Martas que andam por aí).
Iniciado e terminado no mesmo dia na biblioteca Antonio Ramos Rosa.
Adília Lopes num mini livro arrojado e com muita classe (algumas passagens presentes no também dela Bandolim), leva-nos a estar de fora de casa mas a olhar para dentro de casa.
Forma de Vida, FLUL - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa "(…) a epígrafe que abre o livro: «Nous n’avons plus d’argent pour enterrer nos morts. Le prêtre est là, marquant le prix des funérailles; Et les corps étendus, troués par les mitrailles, Attendent un linceul, une croix, un remords.». O excerto é da autoria de Marceline Desbordes-Valmore, uma das únicas poetisas inscritas na lista dos Poetas Malditos, elaborada por Paul Verlaine. Isto indica já uma simpatia por um certo modo de vida e de escrita que é particular, que está já à margem, maldita."