Gostava que os meus poemas fossem pardos, modestos, pequenos, lisboetas como os pardais e que tivessem o som do piar dos pardais.
Fugaz e singelo como um pardal. É o que este livro que se pode ler num quarto de hora é.
Há o Cemitério dos Prazeres e há a minha casa que é a casa dos prazerzinhos. Levantar-me às 3h da manhã, pôr Lavanda Ach. Brito num lencinho de assoar de pano e cheirar. Nunca me passou pela cabeça drogar-me, isto assim basta-me. Comer um bombom de ginja, reler uma cantiga de amigo, ouvir o sino da igreja bater as horas e contar as badaladas pelos dedos da mão direita, ver a luz da iluminação pública apagar-se no castiçal do piano que tenho na casa de estar, o castiçal é de metal, reflecte a luz, a luz apaga-se agora em Maio pelas 6h30. E acima de tudo ouvir os melros e os pardais nas árvores da rua.
Quem não conhece Adília Lopes não deveria começar por aqui, mas se são fãs empedernidos e incondicionais, talvez achem graça à provocação após somente 37 páginas escritas, às vezes, com uma única frase aforística, às vezes com a mesma ideia repetida em textos diferentes.
Não empolar.
Não escarafunchar.
Depois disso, embarquem na irreverência ou peçam o vosso dinheiro de volta.