Caninos são os dentes, canina a fidelidade, ou a ferocidade, o ladrar e o morder, e conhecemos o cão negro da melancolia, o cão danado, o cão de guarda e o de companhia. Mas além dos cães, estes e outros, Canina convoca os mais diversos bichos (cavalos, gatos, pavões), sem que se confunda com qualquer cântico das criaturas. Em vez de humanizar os animais, animaliza os humanos, não fazendo disso virtude nem defeito. Podemos pensar em exemplos pictóricos como as mulheres‑cão de Paula Rego, ou, no campo poético, em algumas imagens extremas de Alejandra Pizarnik, ou de Luís Miguel Nava, o corpo como coisa física, instintos, fúrias, ossos, nervos, sangue, matéria que, por estranho que pareça, não se opõe aqui a deus, vocábulo sempre grafado em minúscula. Nenhuma metafísica, no entanto; o objecto de Canina é a condição humana, o que há de animal nessa condição, e talvez o que há de mítico. «Depois da extinção seremos fábula», escreve Andreia C. Faria, mas na verdade já somos, no amor como na doença, na glória como na vida de cão. — Pedro Mexia
Andreia C. Faria nasceu no Porto, em 1984. Publicou em 2008 o seu primeiro livro de poemas, De haver relento (Cosmorama Edições). Seguiram-se Flúor (Textura Edições, 2013), Um pouco acima do lugar onde melhor se escuta o coração (Edições Artefacto, 2015) e Tão Bela Como Qualquer Rapaz (Língua Morta, 2017), que recebeu o Prémio SPA 2017 para Melhor Livro de Poesia.
Alguém disse que a beleza entra em nós por todos os poros, sobretudo quando sofremos. Entra ao mesmo tempo que a raiva com as suas cores e o viço da repulsa. O mundo ferido é mais belo e confere-nos o perigo da santidade.
É bela a mácula que um punhado de pardais deixa no sol do meio-dia. São belas as lajes do sol porque as turbam os pardais - e cantam a manhã tíbia das coisas, e partem cristais nos poços do silêncio.
Um amante é mais belo quando nos deixa. A agulha de uns olhos cruéis cinge todos os detalhes com que o nosso amor se tece."
Os girassóis sustidos pela luz, mas a luz pulverizando tudo. Desenraizando escadas, quintas, muros. Gatos, hortas o ventre de um sofá e mais acima o prédio de um antigo futurismo escalavrado cujo avistamento pardo nos convinha quando queríamos, em palavras cautelosas, (o filtro gasto da sinceridade, a citação) exprimir esta ternura. (...)
Uma autora que não se comove com nada e não se imiscui na experiência humana, não me convence minimamente, seja ou não guindada aos píncaros da clarividência literária. Creio que a poesia portuguesa contemporânea perdeu os caninos e já não morde, corta e rasga a carne da realidade, contra a qual devia estar sempre em guerra.
A poesia deste livro soou-me urgente e com uma certa melancolia, como se estivéssemos sempre a tentar encontrar um sentido, uma justificação para vários cenários do nosso quotidiano. Mas, ao mesmo tempo, dá a sensação de uma não emoção, como se se tivesse erguido um muro que não comove quem observa a vida. Foi a minha estreia na obra da autora e gostei bastante de encontrar esta dicotomia, de a sentir expectante e atenta, mas também vulnerável. Além disso, achei curiosa a tentativa de animalizar os Homens, sem que isso seja um juízo de valor, apenas uma constatação da condição humana, que transita sempre entre amor, receios, perdas, inconstâncias e imprevisibilidade.
“Alguém disse que a beleza entra em nós por todos os poros, sobretudo quando sofremos. Entra ao mesmo tempo que a raiva com as suas cores e o viço da repulsa. O mundo ferido é mais belo e confere-nos o perigo da sanidade.”