todo ano eu penso em voltar a escrever resenha e todo ano eu canso, mas como esse é o primeiro do ano, vou manter minha tradição e falar horrores.
tenho muitas emoções sobre gay de família.
primeiro, ele é surpreendentemente profundo. não é essa a promessa, nem a premissa, mas quando terminei a leitura tive uma sensação tão clara de amadurecimento e uma força de transformação tão bem direcionada nos personagens que eu acharia uma ofensa dizer o contrário.
segundo, como gay, a história fala muito alto comigo, apesar da relação com a minha família não ser exatamente a mesma experiência que o protagonista relata, é fácil me colocar na posição dele, e acho que o livro é muito competente em atribuir um passado carregado à história sem perder o tom da comédia.
agora, falando de humor, farei uso de um ícone para ilustrar um argumento.
com a criação da Dona Hermínia, Paulo Gustavo conseguiu atingir o que parecia impossível para artistas lgbts em geral, ele produziu um material original, sem querer se esconder, e sem medo de tratar sexualidade como um mistério enigmático. e assim, de propósito, ele estabeleceu um diálogo perfeito com um público mais tradicional, permitindo que um pouco do misticismo negativo a respeito do GAY se dissolvesse.
não sinto que esse deva ser o objetivo de nenhuma pessoa que trabalhe com criatividade, mas acho que Gay de Família consegue fazer algo parecido, em diversos momentos, todos eles na relação entre o protagonista e seus sobrinhos.
por falta de hábito ou talvez por uma inabilidade no ato de cuidar de alguém, Diego vê essas crianças como pequenos adultos. por um lado, isso é terrível, porque apesar de terem muita energia e vontade, ainda são seres vulneráveis e precisam de atenção, mas por outro lado, é isso que permite que ele valorize o que nenhum dos outros cuidadores dessas crianças viu até então: a individualidade de cada um.
no equilíbrio entre essas questões, Felipe Fagundes consegue criar várias situações onde o protagonista descobre que a prática do afeto saudável é uma troca, que o que ele entrega, também volta para ele em proporções claras. e na relação com os sobrinhos, ele consegue encontrar a volição para curar feridas antigas e até recriar laços que foram corrompidos, tudo isso sem deixar de lado as cicatrizes que ele acumulou quando esteve sozinho.
é claro que esse é um livro de comédia então nada disso é narrado com tantas palavras ou com tantos arabescos quanto estou usando agora, mas como eu disse no início, esse livro é surpreendentemente profundo. e, pessoalmente, esse é o aspecto que mais me encantou.
dito isso, a única coisa que me deixou sem paciência na história foi o fato dos personagens adultos falarem de sexo quase o tempo todo. longe de mim ser moralista e dizer que o autor não poderia ter colocado desejo e tesão no texto (inclusive, ele é sinalizado pelo conteúdo adulto, então não é um escândalo também), mas a repetição do tema foi se tornando muito tediosa para mim e realmente pareceu que eles não tinham mais nada para fazer além de foder ou querer foder ou reclamar porque não foderam ou pedir para foder ou contar de como foderam...
existem diálogos e ocasiões entre esses adultos que não envolvem sexo, e são situações bem trabalhadas que avançam a complexidade dos personagens, então não é como se faltasse algo, para mim foi só uma questão de equilíbrio mesmo.
felizmente, é minha única ressalva negativa num livro que me surpreendeu bastante.
comecei o ano muito bem.