Publicado pela primeira vez em 1974 com o título «Escrita da Terra e Outros Epitáfios», numa edição muito restrita e de pouca circulação, este livro só se tornou conhecido do grande público em 1977, altura em que foi lançada a segunda edição, aumentada com inéditos. De lá para cá as edições seguintes foram sendo depuradas e transformadas pelo poeta, e enriquecidas com novos poemas, tendo o livro estabilizado com o título com que agora se publica. Como nos diz José Bento, magistralmente, «[…] estes poemas são uma busca de despojamento, uma insistência num ostinato rigore localizado e inserto por vezes no quotidiano, num espaço e num tempo que, brotando da infância, irrompe até um presente errante, para o qual o poeta, para no-lo revelar por inteiro, encontra sempre uma palavra única que prende, fere, ilumina, transfigura.» O prefácio da presente edição está a cargo de Paula Morão, que nos diz que os «poemas de "Escrita da Terra · Homenagens e Outros Epitáfios" formam um todo orgânico, entre si e na obra de Eugénio. Na verdade, cada texto é celebração e monumento, pulsão vital posta diante do leitor.»
The Portuguese poet Eugénio de Andrade, pseudonym of José Fontinhas, is revered as one of the leading names in contemporary Portuguese poetry. His poetry is most striking for the depth of his short poems. One of Eugénio de Andrade's most known poems is his Poem to Mother. In 2001, he received the Portuguese award Prémio Camões.
Provavelmente já te encontrarás à vontade entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância tomava sempre o comboio para as férias grandes, já terás feito amigos, sem saudades dos dias onde passaste quase anónimo e leve como o vento da praia e a rapariga de Cambridge, que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde. A morte como a sede sempre te foi próxima, sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso ela aí estava, um pouco distraída, é certo, mas estava, como estava o mar e a alegria ou a chuva nos versos da tua juventude. Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta página de um jornal trazido pelo vento, nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia, jornal onde em primeira página também vinha a promoção de um militar a general, ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei: isto de militares custa a distingui-los, feitos em forma como os galos de Barcelos, igualmente bravos, igualmente inúteis, passeando de cu melancólico pelas ruas a saudade e a sífilis do império, e tão inimigos todos daquela festa que em ti, em mim, e nas dunas principia. Consola-me ao menos a ideia de te haverem deixado em paz na morte; ninguém na assembleia da república fingiu que te lera os versos, ninguém, cheio de piedade por si próprio, propôs funerais nacionais ou, a título póstumo, te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador, qualquer coisa assim para estrumar os campos. Eles não deram por ti, e a culpa é tua, foste sempre discreto (até mesmo na morte), não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro, não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira, e foste a enterrar numa aldeia que não sei onde fica, mas seja onde for será a tua. Agrada-me que tudo assim fosse, e agora que começaste a fazer corpo com a terra a única evidência é crescer para o sol.