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Escrita da Terra · Homenagens e Outros Epitáfios

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Publicado pela primeira vez em 1974 com o título «Escrita da Terra e Outros Epitáfios», numa edição muito restrita e de pouca circulação, este livro só se tornou conhecido do grande público em 1977, altura em que foi lançada a segunda edição, aumentada com inéditos. De lá para cá as edições seguintes foram sendo depuradas e transformadas pelo poeta, e enriquecidas com novos poemas, tendo o livro estabilizado com o título com que agora se publica. Como nos diz José Bento, magistralmente, «[…] estes poemas são uma busca de despojamento, uma insistência num ostinato rigore localizado e inserto por vezes no quotidiano, num espaço e num tempo que, brotando da infância, irrompe até um presente errante, para o qual o poeta, para no-lo revelar por inteiro, encontra sempre uma palavra única que prende, fere, ilumina, transfigura.» O prefácio da presente edição está a cargo de Paula Morão, que nos diz que os «poemas de "Escrita da Terra · Homenagens e Outros Epitáfios" formam um todo orgânico, entre si e na obra de Eugénio. Na verdade, cada texto é celebração e monumento, pulsão vital posta diante do leitor.»

150 pages, Paperback

Published February 1, 2014

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Eugénio de Andrade

127 books93 followers
The Portuguese poet Eugénio de Andrade, pseudonym of José Fontinhas, is revered as one of the leading names in contemporary Portuguese poetry.
His poetry is most striking for the depth of his short poems. One of Eugénio de Andrade's most known poems is his Poem to Mother.
In 2001, he received the Portuguese award Prémio Camões.

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415 reviews34 followers
August 30, 2024
À Memória de Ruy Belo

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.
Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.
Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.
Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.
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