“Caiu do voo, parece ferida”, dizem. A ave jaz no solo, desfalecida, com as grandes asas desarranjadas. Pergunto: “perdeu as penas?” “Perdeu o dia!” Volto a perguntar: “já não o vê?” E, a minha visão regressa. Acordei! Encontro a noite. Como cintilam as estrelas! O que veem elas? Onze degraus! Subo. Alguém sobe os degraus depois de mim. No entanto, escorrega e cai. Volto a descê-los para lhe curar a ferida. Então, vejo também as minhas feridas, que agravam as dos outros, que, por sua vez, agravam as minhas. Que inferno! Que olhares tão bondosos! Quem disse que esta é uma ferida incurável? Não ficará ninguém para trás! E, não sendo suficiente a luz que chega de fora, luzirá a luz de cada um. “Basta!” É a minha última palavra e a minha última ação para as trevas que me envolvem. O firmamento quer fortemente a luz, as sombras querem-na vagamente. E, assim, puxa-me para si, faz-me voar de novo e deixa-me tocar a abóbada celeste. E, num sussurro, diz: “canta, Acalântis!”
Raquel Loio é Doutorada em Filosofia (Universidade da Beira Interior), tendo desenvolvido uma investigação sobre a capacidade humana para sonhar lucidamente ou para viver lucidamente o sono sem sonhos, articulando a tese da multiplicidade dos tempos vitais da filósofa María Zambrano, com literatura relevante da filosofia da mente e com o pensamento budista. Realiza consultoria filosófica na área da lucidez do sonho e sono. É Investigadora colaboradora no Praxis - Centro de Filosofia, Política e Cultura sediado na Universidade da Beira Interior. É Mestre em Antropologia Médica (Universidade de Coimbra), com uma dissertação acerca da forma como as práticas médicas atribuem significados a determinadas doenças, e Licenciada em Enfermagem (Instituto Politécnico de Viseu), tendo exercido a profissão no período de 2008 a 2015 maioritariamente na área da Toxicodependência.
Autora de oito livros de romance filosófico escritos numa perspetiva atemporal. Através de uma prosa poética, desconstrói ideias para uma aproximação da essência e compreensão profunda de questões existencialistas como o medo, o amor, a meditação, a sabedoria. Seja em intrigantes monólogos interiores ou em inusitados diálogos, a narrativa assume uma qualidade espontânea, intuitiva e onírica.
Desenvolve pinturas de um modo espontâneo e intuitivo, com referências oníricas, sendo que algumas ilustram as capas dos seus livros. A lucidez do sonho e sono tem sido uma componente pessoalmente vivida desde a infância, com uma progressão menos associada à atitude de controlo dos sonhos e mais relacionada com o testemunho. Paradoxalmente, é fortalecida a concretização do desígnio.