"Malda foi diagnosticada com esquizofrenia e logo foi tida como inapta à convivência social. O ostracismo se sustentou sobre o seu diagnóstico, compreendido como incapacitante. Em uma de suas várias internações, passou a ser atendida por Dante Portofino, um psiquiatra de práticas pouco ortodoxas. Recém-chegado ao Instituto Weingarten, Dante percebe que os pesquisadores dali buscam angariar reconhecimento por meio da escavação da psique humana ao invés de remediar as condições dos internos. Inserido em um contexto repleto de pessoas com objetivos egocêntricos, Dante encanta-se por Malda. Ele passa a dar voz e corpo à sua expressividade e encenar os delírios da paciente de forma irregular e contrária aos protocolos. A partir da percepção da sensibilidade e capacidade de Malda, descrevendo suas indignações acerca da realidade que se apresenta, surge uma chama vanguardista em prol da humanização. Eis a "loucura", sintoma da lucidez individual."
Em "O Fardo da Lucidez", o psiquiatra Dante Portofino compartilha suas anotações com o leitor - numa espécie de diário - para mostrar sua saga contra o status quo do tratamento psiquiátrico protocolar ministrado no Instituto Weingarten, onde trabalha. Buscando uma abordagem não-convencional com os seus pacientes, sobretudo com Malda, Dante questiona os diagnósticos irrefutáveis e as prescrições imutáveis para casos de esquizofrenia e loucura, humanizando o tratamento, lembrando que estamos lidando com vidas humanas. Assim, o livro é, ao mesmo tempo, uma crítica aos médicos que são reféns de diagnósticos e prescrições protocolares e uma celebração ao tratamento humanizado.
Pelo idealismo exacerbado, talvez você tenha feito uma associação de Dante ao médico Malcolm Sayer, interpretado por Robin Williams no filme "Tempo de Despertar", mas faz-se mister destacar uma importante diferença: enquanto Malcolm usa uma droga experimental em seus pacientes para tentar trazê-los de volta à normalidade, Dante acredita na reinserção de seus pacientes na sociedade apenas com tratamento terapêutico, respeitando a singularidade de cada um.
O livro tem dois pontos altos: o reencontro de Malda com Liam Fratucci e o "desfecho" de Estela, uma das pacientes, que é um ponto de virada nas condutas do Instituto. Entretanto, Ricardo Zalcberg Angulo é um escritor muito jovem e, na minha opinião, comete alguns equívocos, com vícios de linguagem e escrita (exemplo: excesso do uso de "todavia"), e uma prolixidade que em alguns casos dá a impressão de que o livro dá voltas sobre si mesmo sem grande objetividade. Mas, de forma geral, a leitura é interessante, sobretudo para quem não é da área médica
Avaliação Final: 7,0/10 Leitura Concluída: 21º livro de 2023 Próxima Leitura: "Colega de Quarto" (Victor Bonini)
Do que se trata? O livro é um ensaio literário sobre a loucura e sobre os limites do diagnóstico psiquiátrico. O autor faz ma releitura de ideias de importantes figuras brasileiras, como Nise da Silveira, e de momentos históricos significativos, como O Movimento da Luta Antimanicomial. A obra reflete sobre sujeitos classificados como loucos e os motivos destes não serem tidos como adequados para a convivência cotidiana. A partir do ponto de vista de um médico de práticas pouco ortodoxas, o leitor é convidado tanto a questionar as fronteiras entre o normal e o patológico, quanto as motivações por trás da construçãode conhecimento. O protagonista é avesso à excessiva medicalização da subjetividade e as suas inovações sofrem grande resistência por cientistas consagrados que se beneficiam a partir da escavação da pique humana. A partir desses princípios, surge uma chama revolucionária em prol da humanização dos pacientes do Instituto Weingarten.
Quem participou diretamente? Prefácio e supervisão de escrita por Dante M. Malavazzi (Jornalista e doutor em Psicologia Experimental pela PUC-SP) Leitura crítica por Patrícia Aparecida de Aquino (professora universitária do CEL/Unicamp e doutora em linguística).
Com personagens delicadamente singulares e importantes questionamentos sobre os significados que impomos sobre as palavras, o livro apresenta ao leitor uma história capaz de incitar sua empatia e sua percepção sobre temas comuns e ocultos. Ainda que divida o protagonismo, Malda ganha destaque inegável. Carismática do início ao fim, é dela uma visão de mundo verdadeiramente única e bonita, apresentada com uma delicadeza impressionante. Honesto, o romance é o que se compromete a ser: o início de uma discussão que deve ser constante e cada vez maior. Destaco meu trecho favorito: "Dante, meu querido, a vida é uma constante experiência de poliglota da qual se tira muito pouco; não temos domínio de nada." É preciso buscar a invejável lucidez de Malda.
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Comprei esse livro na expectativa de encontrar um enredo intenso ou quase revolucionário, com base em algumas avaliações que encontrei pela internet e com base no título pretensioso. A temática era promissora, instigante e ainda pouco comum no cenário literário. Pois por isso mesmo foi uma pena perceber que o autor pouco sabe sobre o tema. A sensação é de que falta pesquisa, de que o autor sequer sabe sobre o que fala. Mais do que isso, percebi que esse livro se vale de palavras difíceis para parecer culto ou intelectual. Foi uma decepção, ainda que a história seja bonitinha. Não se enganem pela bela capa que cativa quem vê.
a coisa mais interessante nesse livro foi ler o final escutando taylor swift. lendo o resto do livro fiquei muita entediada e pouco investida na história ou acontecimentos que deveriam causar emoção. me pareceu que o plot do instituto foi usado como desculpa pra apresentar um livro excessivamente poético.
ao invés de termos algo focado no desenvolvimento dos pacientes pra ressocialização, ganhamos uma descrição de 3 páginas de um pôr do sol que eu não estava interessada. não tinha muitas expectativas, mas, por conta da introdução achei que ganharia algo mais tocante.
Acabo terminar a leitura de O Fardo Da Lucidez, de Ricardo Zalcberg Angulo. Ainda que tema demostrar demasiada comoção, optarei por começar minha análise pela conclusão; de que este livro é um relato cru e irremediavelmente singular da dita loucura, pelos olhos de uma lucidez simbolista, capaz de transformar as mais variadas condições da psique humana, em pura altivez. A loucura apresentada no livro pela visão de Dante, personagem principal da obra, é analisada e trabalhada com valores que diferem o modus operandi, não com a intenção de torná-lo menos valido, porém mais humanizado. Ao adentramos na realidade de Dante, logo somos apesentados a um plano de total equalização, posto que o mesmo contesta a crença acadêmica de pôr títulos a frente de pessoas. Somos também apesentados a diversos personagens que tiveram suas vidas de alguma maneira “tomadas” pelo ostracismo proveniente de diagnósticos crus. Em especial Malda, uma ex-professora obrigada a renunciar seu cargo devido ao preconceito associado a sua patologia. Porém, ao longo da narrativa testemunhamos a verdade de Malda, uma dita louca capaz de dar voz aos mais variados sentimentos daqueles aquém a seus direitos. Evidenciando assim o peso de uma lucidez ligada ao alívio de uma consciência dita “louca”.
Uma nova review após uma releitura: O livro "O Fardo da Lucidez" é uma obra emocionante e instigante que nos faz questionar a nossa própria percepção da realidade. A história de Malda e Dr. Dante Portofino desafia os conceitos tradicionais de loucura e sanidade, apresentando uma narrativa polifônica que dá vozes não apenas aos personagens principais, mas a todos aqueles marginalizados pela sociedade.
O autor habilmente tece uma trama em que os delírios de Malda, vivenciados por meio das práticas pouco ortodoxas do Dr. Dante, tornam-se uma ferramenta de questionamento sobre a realidade construída ao redor dela. As diferentes vozes e perspectivas dos personagens criam uma polifonia fascinante, fornecendo realismo e profundidade à narrativa.
O Fardo da Lucidez é um livro que estimula o leitor a questionar e explorar os limites entre loucura e lucidez, convidando-nos a reconsiderar nossas próprias verdades e preconceitos. É um romance provocativo e poderoso sobre o eterno debate entre a alienação social e o anseio pela humanização dos "outros" em nossa sociedade.