Como o Estado administra não só a vida como também a morte de determinados cidadãos? De que maneira o desaparecimento de pessoas e corpos se constitui como um mecanismo em contínuo funcionamento? De quem são os cadáveres que o Estado não quer nomear? Essas são algumas das questões que o filósofo e psicanalista Fábio Luís Franco levanta ao desenvolver uma análise do processo de produção, normatização e apagamento sistemáticos da morte, com foco na atuação de forças do Estado.
Tendo como base o conceito do filósofo camaronês Achile Mbembe de necropolítica, Franco recupera nas guerras coloniais os mecanismos de contrainsurreição que foram legados aos generais das ditaduras latinoamericanas e fizeram do desaparecimento um método de repressão. Mas esse não é um fenômeno de "exceção" durante a ditadura, ao contrário, como mostra Franco, ele está entranhado na estrutura governamental do Brasil, presente nas mais diversas estratégias que tornam o desaparecimento um modo de governar. Não é preciso que o Estado mate; basta que ele deixe morrer ou deixe matar. Ou que deixe que se matem uns aos outros. Não é preciso que o Estado suma com os corpos; é suficiente que não procure os desaparecidos nem quem os fez desaparecer. O mesmo se estende às mortes por epidemias, ignoradas ou camufladas pelos poderes públicos.
No momento em que o Brasil está entre os líderes de vítimas da covid-19 no mundo e ocorre uma banalização dessas mortes, uma política sistemática de dessensibilização do corpo social, o livro de Franco é ferramenta valiosa para a compreensão dos mecanismos da necropolítica que nos trouxeram até aqui.
Franco apresenta, a partir da periferia do capitalismo (Brasil), uma tese sobre a gestão da morte, a necrogovernamentalidade, a partir do desaparecimento dos corpos, em especial durante as ditaduras militares latino-americanas. Produz uma genealogia da produção da exceção pelo colonialismo, mostrando a ligação histórica entre a guerra de contra-insurgência na Argélia, os campos de concentração nazistas, e as práticas de desaparecimento das ditaduras. Ao fazê-lo, aponta uma extensão da "necropolítica" de Mbembe, sua dialética com a biopolítica foucaultiana, e a produção de um barramento do luto em quem fica. Apesar de seu foco nos processos da ditadura militar, faz incursões na gestão dos mortos na pandemia, e se refere brevemente aos desaparecimentos produzidos nas favelas e outros rincões de pobreza pelo braço policial-miliciano-narcoestado. Nesse sentido, sua leitura se complementa bem com "Sociedades do desaparecimento", de Jonnefer Barbosa, na compreensão da dimensão política do desaparecimento e da gestão do sofrimento.