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Terrinhas

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Houve um tempo em que a terra era tudo. Ou quase. Hoje, diz-se, vale pouco, quase nada. Muitos são os portugueses com ligações à «terrinha», que de lá saíram mudando o rumo das vidas. E vão regressando, em passagens breves que alimentam memórias, mas pouco adubam raízes. As novas gerações, que não viveram na «terrinha» dos seus ascendentes, terão dela lembranças de superfície.
Este romance, centrado numa mulher tipicamente citadina dessas novas gerações, coloca em confronto o mundo rural e o mundo urbano. E a propósito de batatas, das «nossas», que os pais todos os anos trazem da aldeia de infância, desfia a distância entre o «seu» mundo e esse «outro». Julgando ter a aldeia de Arrô arrumada no passado, uma inesperada herança leva-a a mudar a forma como olha para o pai e a mãe, que lhe pareciam de lá em pequena parcela; a avó, uma quase estranha; o avô, que nunca viu, «morreu cedo». E tanto se altera, por causa de tão poucos metros quadrados!
«A alegria e a comovente ternura na avaliação da vida e da morte, associadas a uma escrita fluida e elegante, dão a este romance um indiscutível alcance literário, que importa valorizar e divulgar», realçou o júri do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís.

256 pages, Paperback

First published August 1, 2022

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About the author

Catarina Gomes

6 books155 followers
Catarina Gomes é autora de quatro livros de não-ficção e do romance «Terrinhas» (Gradiva, 2022), ao qual foi atribuído o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís.
«Coisas de Loucos» (Edições Tinta da China, 2020) tem como fio condutor uma caixa de objectos pessoais de antigos doentes deixada no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda. Em «Furriel não é nome de pai» (Edições Tinta da China, 2018) quebrou um tabu, contando a história dos filhos que os militares tiveram com mulheres africanas e que deixaram para trás. Em «Pai, tiveste medo?» (Matéria-Prima Edições, 2014) aborda a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de filhos de ex-combatentes. As três obras foram incluídas no Plano Nacional de Leitura. Tem contos publicados na revista Granta (Sono/Sonho, 2021) e no livro «Contágios» (editora Visgarolho, 2022). No seu último livro, «Um dedo borrado de tinta» (2024), editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, conta a história de pessoas que nunca puderam aprender a ler.
Jornalista do Público durante quase 20 anos, as suas reportagens receberam alguns dos prémios mais importantes na área, como o Prémio Gazeta (multimédia). Foi duas vezes finalista do Prémio de Jornalismo Gabriel García Márquez e recebeu o Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha.
www.catarina-gomes.com

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2 (1%)
1 star
1 (<1%)
Displaying 1 - 30 of 56 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,681 reviews574 followers
December 24, 2024
3,5*

Se “Coisas de Loucos” se lia como ficção, ou seja, como um conjunto de histórias tão bem contadas que pareciam quase contos subordinados ao mesmo tema, o primeiro livro de ficção de Catarina Gomes lê-se como uma história a precisar da concisão e do foco jornalístico.
“Terrinhas” parte de uma ideia excelente que creio que vai agradar a muita gente, incluindo a citadinos que nunca tiveram terra onde passar as férias, mas sobretudo a leitores cujos pais saíram da terra mas a terra não saiu deles.

Com a chegada da avó foi um sem parar de “vós ides”. “Vós ides lá fora?”, “Vós vindes da rua?, “ai que comeis tão tarde”, “gastais tanto, filhos”, “poupai”, “arrecadai”. Incomodava-me muito aquela sua forma de falar, mas sabia que era por poucos dias e que quase só nós a ouviríamos falar assim. O problema é que a presença da avó convocou o “vós” dos pais, deu-lhe a mão e içou-o cá para cima. Se não o usassem com ela penso que se sentiriam em falta, ou até que a trairiam.

Tudo começa com a divertida saga das batatas que é o que ainda liga os pais de Cláudia Mendes Mendes, primos direitos, à aldeia fictícia de Arrô.

“Este é o único lugar onde as podemos manter, filha, tens de compreender. As batatas querem sítios escuros, secos e frescos”, repetiam-me. Os pais diziam “tens de compreender” como se a compreensão fosse um dever e não algo a pedir explicação. E não diziam “As batatas querem-se” em sítios escuros, secos e frescos, diziam “as batatas querem”, como se elas tivessem querer, vontade, como as pessoas.

A mãe é caracterizada pela arrumação e limpeza, o pai pelo fascínio perante pequenos electrodomésticos.

Para a mãe, a nossa vida devia assemelhar-se à nossa marquise, aparentemente transparente, mas criteriosamente planeada.

Cláudia cresce, forma-se em design de interiores, e torna-se um Pantone andante. Era da protagonista, que conta a história na primeira pessoa, que eu esperava mais. Se em criança lhe falta a chave para compreender a dinâmica familiar, quando chega aos 21 anos, idade em que a sua vida dá uma grande reviravolta, Cláudia é uma tonta mimada, definida não pelo que é mas pelo que tem: um desgosto muito grande, um carrinho “esperto”, um aparador de pinho nórdico, calças de caqui para ir ao campo. Traços mais condizentes com uma caricatura do que com uma pessoa de carne e osso.
Quando pensa que cortou definitivamente laços com uma terra a que nunca sentiu ligação, Cláudia herda de um tio-avô emigrado uns terrenos diminutos, uma imagem fiel dos minúsculos minifúndios que tantas vezes vi na Beira Baixa, com terrenos divididos por marcos incompreensíveis a estranhos e a rega coordenada entre vizinhos, atividade que é fulcral nesta obra.

Raciocinei profissionalmente porque não conseguia pensar em terrenos de forma diversa. O que raio é uma bouça? Um lameiro? Um corgo? Quantos nomes pode ter uma terra, além de terreno ou lote de terreno?

Há vários momentos divertidos neste livro, mas até uma piada tem limites e se se estender a uma página, perde o viço. E esse é um dos problemas de “Terrinhas”: tem capítulos que se arrastam, tem ideias repetidas e espremidas até secarem, além de diálogos copiados do início para o fim, não sei se com o intuito de encher ou se por a autora duvidar da capacidade dos leitores em estabelecerem eles mesmos as conexões.
“Terrinhas”, no entanto, tem vários aspectos positivos, como reflexões sobre a interioridade, a desertificação, o aproveitamento de espaços para o turismo bem como um final extremamente bonito e até comovente, em que Cláudia se apazigua com o passado, não tanto pelos pais, mas sobretudo no que toca à avó que ela sempre tivera tanta dificuldade em compreender.

Toma conta de mim uma necessidade bizarra de proteger a terrinha, de a murar, de defender a parcela de chão que me calhou, como faria com uma casa. Sinto vontade de a fechar com uma porta forte, dando várias voltas à chave. Só assim posso impedir outros de aqui entrarem e de a pisarem sem saberem que ela agora é minha mas que dantes era nossa, lugar calmo, ao mesmo tempo palco de tanto desassossego familiar.
Profile Image for Margarida Galante.
469 reviews42 followers
March 3, 2023
Em busca de melhores condições de vida, muitos foram os que, ao longo dos anos, deixaram as pequenas vilas e aldeias do interior de Portugal e rumaram às cidades do litoral.

Cláudia, a personagem central deste romance, é filha de um casal que saiu da aldeia onde ambos nasceram e que se fixou em Lisboa. Enquanto a sua avó lá viveu, todos os anos, nas férias, voltavam à aldeia. E todos os anos traziam batatas, das "nossas", muito melhores que as que se vendiam nos supermercados.
Já adulta, como muitos outros da geração nascida na cidade, Cláudia deixou de ter  qualquer ligação à aldeia dos seus avós e dos seus pais. No seu caso, a aldeia significava dor e perda, pelo que, tinha decidido nunca mais lá voltar.

Inesperadamente, a herança de um tio-avô que nunca conheceu, vai obrigá-la a regressar e, nesse regresso, vai descobrir a história da sua família e perceber a importância dessas batatas, que a avó tanto se esforçava para que não faltassem.

Eu também tenho "terra", que é a aldeia dos meus pais e avós, onde ainda adoro regressar. E identifiquei-me com algumas das situações descritas pois, apesar de ter muitas recordações boas dos verões que lá passava, não deixava de ver a aldeia e os hábitos de quem lá morava, com os olhos da cidade.

Uma história muito bem escrita, bem contada e sensível, por vezes poética, com uma grande atenção aos pormenores. Um livro sobre perda sobre identidade, a própria e a daqueles que nos deram origem, que me comoveu.
Profile Image for Ricardo Silvestre.
208 reviews36 followers
December 26, 2024
A premissa deste livro parecia propicia a uma viagem ao meu próprio passado, onde ir à terra era sinónimo de alegria quando era miúdo e da qual fugia, como o diabo da cruz, a partir do momento em que as hormonas passaram a falar mais alto.

Revi-me em alguns momentos do livro ainda que a minha relação com a terra dos meus avós e dos meus pais fosse diferente da da protagonista. Achei muito curiosa a questão das palavras que existiam no seio familiar mas que mais ninguém dizia. Aconteceu-me o mesmo com o simples acto de cortar o cabelo. Eu sempre disse “cabelo corto” porque era assim que ouvia dizerem em casa até que um dia, na escola, alguém reparou e fui gozado por não dizer da forma correcta. “Diz-se cabelo cortado!!!”.
Nunca mais usei o “corto” à frente de “cabelo” e aboli a palavra do meu dicionário.

“Acontecia-me, imersa nas minhas experiências, virem-me à mente frases feitas: o «nariz de batata», que é o contrário do tido como belo, do afilado; o «andar à batatada», que é o lutar grosseiro e sem critério, sugere murros atirados, não desferidos, se acertar, acertou, para sobreviver; o «passar a batata quente», que é coisa que ninguém quer receber.
E, claro, «a lógica da batata», que é a ausência dela. Como é que uma coisa tão insignificante na vida dos outros podia fazer parte de algo tão definitivo na minha?"

Também tenho memória das batatas que o meu avô paterno plantava, mais exactamente do local onde ele as guardava e especialmente do cheio característico do espaço. Marcou-me de tal forma que sempre que sinto aquele aroma, sou automaticamente transportado para aquela cocheira.
Batatas, ameixas, maçãs… e de facto não se encontravam melhores que as nossas. As maçãs então, eram maravilhosas. Daquelas que se apanhavam directamente da árvore e que quando trincadas, o suco escorria pela mão abaixo...
Agora parecem todas sem sabor, secas e artificiais. Não, não são das nossas.

Por outro lado, senti alguma repetição no desenvolvimento da história. A escrita da autora é bonita, e está bem articulada, mas senti que a narrativa voltava sempre aos mesmos pontos e isso aborreceu-me um pouco no decorrer da leitura.

No final, agradou-me a forma como a protagonista sentiu-se apaziguada com a sua história familiar. Um fecho bonito.

Gostei mais do ‘Coisas de Loucos’ da autora ainda que se tratasse de um livro de não-ficção, ao contrário deste ‘Terrinhas’. Continuo, contudo, muito interessado em conhecer o seu restante trabalho e super curioso com aquilo que ainda está para vir.
Profile Image for Célia | Estante de Livros.
1,188 reviews279 followers
November 8, 2024
Quem é filho de pais oriundos de "terrinhas" certamente irá rever-se em muitas das experiências da narradora desta história. Gostei muito, apesar de ter achado que a história teria ganho com um final menos aberto.
Profile Image for Sónia Carvalho.
196 reviews17 followers
March 12, 2023
Comecei por conhecer a bela escrita de Catarina Gomes através dos seus livros de não ficção. Na última Feira do Livro de Lisboa, descobri que a escritora se tinha aventurado num romance e fui ao lançamento deste "Terrinhas". Na altura, Catarina Gomes, pediu-nos que levássemos batatas de todas as formas e feitios: "Nada me fazia mais feliz do que receber uma batata de quem aparecer para o lançamento. Tragam-me as vossas melhores piores batatas." Fiquei intrigada com este pedido, mas finalmente percebi a importância que as batatas representam neste primeiro romance da escritora e jornalista.

Gostei mesmo muito deste livro. A história da Cláudia e das suas viagens à terra dos pais, despertou em mim lembranças das minhas férias passadas na aldeia do meu pai em Vila Real. Saímos muito cedo, ainda o sol não tinha nascido, porque era uma viagem muito longa, por curvas e contra-curvas e na vinda trazíamos sempre uma saca de batatas das "nossas", que os meus pais sempre disseram que eram melhores do que as daqui, bem mais saborosas. No livro, as batatas fazem Cláudia lembrar-se dos pais e da infância e é por isso que têm tanta importância. As batatas são carinho e amor. Esta é a história da vivência de um duplo luto precoce e das batalhas travadas pela protagonista para se reconciliar com Arrô, a terra dos pais.

Aqui encontramos a importância dada ao "parecer bem", a monotonia e a rotina das férias sempre passadas na terra e nunca na praia, o testamento de um tio-avô brasileiro que faz a protagonista voltar a pensar na aldeia que tanto detestava, a ausência de grandes gestos de afecto e de palavras de amor, mesmo quando percebemos que esse amor está presente. A avó manifestava o seu amor através das batatas, que não permitiriam que passassem necessidades, mas não sabia muito bem como abraçar.

"Dizer 'terrinha" significava também colocarem-se de fora sendo ainda profundamente de dentro. Só que no 'terrinha' do pai e da mãe pressentia algo mais. Aquele 'terrinha' era amargura mas também algo que se parecia com alívio, como se os pais lá tivessem deixado qualquer coisa que não queriam que andasse com eles."

"A mãe não era nem de festas nem de beijos. Usava tecidos, as camadas que assentavam em mim. À noite não me afagava o cabelo ou o rosto, alisava-me as roupas da cama. Era a sua maneira de gostar de mim. Cada um arranja a sua. A avó talvez o fizesse com as batatas."
Profile Image for Maluquinha dos livros.
321 reviews138 followers
March 31, 2023
Quero ler o “Coisas de Loucos há muito tempo, mas estava esgotado. Finalmente, já o tenho. Iniciei-me com este “Terrinhas” e que surpresa tão boa!
Um livro que tem a marca de Portugal: do interior abandonado, das famílias que vivem na grande cidade e que vão à “terrinha” para visitar os que lá deixaram.
Foi impossível ler este livro e não sentir o aconchego que era voltar à “terrinha” da minha infância, das sopas saborosas comidas ao lado do lume com uma avó que não era minha mas me adotou como neta. Do carro que vinha carregado de batatas ( as tais batatas que são carinho, dedicação e amor…) e couves e fruta, porque a “terrinha” dava muito e as boas gentes da aldeia gostavam de partilhar. Da forma como eu, menina da cidade, sentia que não pertencia ali, mas me sentia aconchegada.
Tal como eu, também a protagonista sente que não pertence à “terrinha”, apesar de ter lá as suas raízes. Uma grande perda acaba por a fazer cortar de vez com a relação com a aldeia dos pais. Até ser surpreendida com a vida e com uma surpresa que a faz voltar e confrontar-se com os seus fantasmas, a sua identidade e com o passado.
Esta é uma história de amor, de carinho… mas também é uma história de perda, de luto e de superação. É uma história sobre reencontrar-se, sobre (re)conhecer-se. A autora escreve de forma irrepreensível, nota-se bem o cuidado e a sensibilidade que deposita na sua escrita, os pormenores pensados cuidadosamente
Profile Image for Marta Clemente.
758 reviews19 followers
June 27, 2023
Em "Terrinhas" Catarina Gomes apresenta-nos Cláudia Mendes Mendes filha única porque os pais assim o quiseram. "Não queremos que lhe falte nada". Cláudia ficou órfã no início da adultez e revisita a história da sua infância e a história da sua família. Reflete e leva-nos a reflectir acerca da importância que a terra teve para os nossos antepassados e para a falta de importância que tem para a nossa geração. Mais do que falta de importância, o peso em que se tornou, agora que não precisamos dela para sobreviver. Gostei tanto de o ler! Fez-me reviver tanto de mim, também eu descendente de uma avó toda de preto, que tanto trabalhava na terra e para quem a terra tinha tanta importância!
E o final? Gostei tanto! O voltar às origens e aos valores transmitidos...
Foi o segundo livro que li desta autora e é o segundo a que dou 5 ⭐⭐⭐⭐⭐!
Muito bom!
Profile Image for Rita Costa (Lusitania Geek) .
547 reviews59 followers
August 20, 2025
Depois de ter lido o livro “Coisas de Loucos” (que adorei), resolvi continuar ler o próximo livro da Catarina Gomes, neste caso: “Terrinhas”, é um romance que me conquistou desde as primeiras páginas. Ao acompanhar a história de Cláudia, filha de emigrantes internos que trocaram a aldeia pela confusão de Lisboa, revemos um retrato fiel de tantas famílias portuguesas que, em busca de melhores condições de vida, deixaram para trás a sua terra natal, mas nunca verdadeiramente a perderam.

Através da herança inesperada de um tio-avô, Cláudia é forçada a regressar às origens que tanto evitara. Nesse regresso, encontra memórias, ausências e uma identidade familiar que a ajudam a compreender o peso simbólico da terra, das tradições e até de algo tão simples e significativo como as batatas que a avó fazia questão de cultivar e partilhar.

Também eu tenho “terra”, a aldeia dos meu pai e avós, no no meu caso Cinfães do Douro, que guardo com carinho e para onde gosto de voltar. Tal como Cláudia, olhava a aldeia com os olhos da cidade, entre o encanto das recordações e a estranheza perante alguns costumes. Catarina Gomes capta essa dualidade com uma sensibilidade notável.

A escrita é muito boa e sem qualquer dificuldade, sempre atenta ao detalhe e profundamente humana. Este é um livro sobre perda, mas também sobre identidade, a nossa e a dos que vieram antes de nós. Uma obra comovente, que recomendo sem reservas e que merece, sem dúvida, cinco estrelas.

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
Profile Image for Ana Rodrigues.
185 reviews12 followers
May 9, 2023
Um livro há muito esperado...
Foi com bastante expectativa que comecei esta leitura, talvez por também eu saber a importância de ter uma terrinha, por ter memórias de infância, por também ter sempre batatas por perto, por ainda hoje ser a terrinha o meu refúgio.

Aqui encontrei o confronto entre o mundo rural e o mundo urbano, através da Cláudia. Esta mulher arrumou a aldeia de Arrô no seu passado e pouco interesse tem em lá voltar. Memórias poucas. A avó quase estranha, o avô que morreu cedo. E batatas, as “nossas” batatas, sempre presentes.

Um romance de vida e morte, de ternura, de auto conhecimento e superação.

Recomendo esta leitura, e sempre que olharem para as batatas, lembrem-se que muito pode estar associado a elas, principalmente se vieram da terrinha.
Profile Image for Luís Queijo.
322 reviews29 followers
April 13, 2023
Terrinhas é um livro morno que nos apresenta as reflexões, da protagonista, acerca (supostamente) daquelas pessoas (na figura dos pais) que saíram da “terra” mas cuja “terra” nunca saiu deles, acompanhadas por um processo de luto contínuo e uma obsessão por batatas. Pode parecer confuso? E é.
A mistura dos elementos acima mencionados não funciona e tão depressa se está a descrever sentimentos de perda como a discutir batatas.
De tudo o que poderia ser dito, cinjo-me a tecer como comentários que acredito que este livro tenha uma base autobiográfica e que Catarina Gomes nunca tenha percebido a questão das batatas assim como nunca tenha percebido a questão de “deixar a terra”. Talvez alguém lhe devesse explicar porque é que os nossos emigrantes levam no regresso produtos Portugueses. Não é que nos países onde residem não os haja. Os que levam e que “são dos nossos”. E são melhores por todos os motivos. Também acredito (correndo o risco de me enganar redondamente porque não conheço e não pretendo conhecer a biografia da autora) que Catarina Gomes seja um “bichinho do betão” (como refere outro autor), pelas descrições que faz do ambiente rural, a escrever para um público alvo muito específico - leitores cosmopolitas e da zona metropolitana da Capital já que na maior parte do território ninguém vai “à terra”, seja porque já lá estão ou, não estando, vão à aldeia, vila, cidade ou o que seja que os viu nascer e que tem um nome, mencionado, na maior parte dos casos, com orgulho.
Podia ter corrido bem? Podia. Mas seguramente não seria com esta postura.
Mais uma vez os prémios valem o que valem.
Passem, que há muita coisa boa para ler, na minha opinião, e acerca da mesma temática.
Profile Image for Pedro Gomes.
Author 2 books18 followers
February 19, 2023
TERRINHAS, CATARINA GOMES

Algures na Biblioteca infinita de Borges (a de Babel) estaria também este livro, tão improvável quanto real. Um livro de afetos urdidos em torno de comezinhas e reverenciadas batatas, um plantio de memórias de um mundo em vias de extinção. A probabilidade de me ter chegado as mãos é resultado não tanto do acaso, mas da inteligência com que se teima escavar e indexar essa biblioteca infinita.

Catarina Gomes fez neste livro uma arqueologia magistral da linguagem de um país à beira do esquecimento, desenhando um mapa de afetos polvilhado por um fino e contagiante sentido de humor. As expressões que a narradora desenterra da sua memória (tal qual batatas) e com as quais brinca, polindo-as entre os dedos, são tão corriqueiras como reveladoras de algo mais profundo. É uma caracterização fractal, em que no menor dos detalhes reflete a totalidade. E é nesse jogo de menor e maior, entrelaçado por um irónico bem-querer, que se cose uma belíssima metáfora literária. As batatas, “das nossas”, são um veículo de amor, um símbolo da renovação (da batata se faz batata), da invisibilidade (crescem debaixo de terra, tão invisíveis como tantas outras coisas; conservam-se no escuro). É através delas (das batatas), seguindo os filamentos que brotam dos seus tubérculos, antecipando o renascimento, que se percorre o carreiro da memória e da descoberta da nossa história individual e coletiva, porque se não sabemos de onde viemos, dificilmente sabemos quem somos.
Profile Image for Ana Catarina.
43 reviews2 followers
September 7, 2023
A Catarina consegue descrever a vida dos outros com tanto carinho... Mesmo quando é ficção. Só que este romance ficcionado poderia ser a vida de muita gente. É o relembrar da terrinha, das raízes, das memórias, do passado, dos antigos, dos dantes, do tempo quando o rural não era "turismo rural" mas rural da sachola, mesmo para quem desdenhava a terra. A nossa personagem principal, Cláudia Mendes Mendes, citadina, que nunca percebeu a ligação à terra, leva-nos nessa viagem às terrinhas, enquanto se descobre a si própria.
Profile Image for Fátima Andreia.
556 reviews8 followers
February 7, 2023
Com este livro vamos voltar há infância! É é como sentirmos os cheiros e os gestos dos nosso ante passados!
Profile Image for Célia Rodrigues.
89 reviews
May 30, 2025
Já li outros livros desta autora e nenhum me desiludiu. A forma detalhada como escreve, como caracteriza personagens e ambientes, é formidável.
Ao longo da leitura deste livro, fiz uma viagem à minha infância e adolescência , não como visitante da "terrinha", mas vivendo lá, numa pequena aldeia, com a minha irmã, mãe e avó. Só mulheres, que cuidavam da casa e do campo, e claro... Cultivo das batatas. Para consumo próprio e para dar.
Agora que vivo na cidade, com outras comodidades, que não tinha, as saudades que tenho desses tempos... do cultivo dos campos, do cuidado aos animais, das pessoas, que infelizmente, já não existem...
Podemos mudar de local, mas nunca esquecemos as nossas origens, a nossa "terrinha", nem as pessoas que nos criaram, que cuidaram de nós e nos ensinaram tudo, se sacrificaram para termos uma vida melhor.
Adorei este livro, a forma como retrata a importância de conhecermos as nossas origens para nos compreendermos melhor a nós próprios e aos outros, nomeadamente, a nossa família e as suas escolhas . Recomendo muito esta leitura! 🤗
Profile Image for Diogo.
22 reviews
May 15, 2024
Muito provavelmente a minha leitura favorita do ano até agora. O explorar das disparidades entre o mundo urbano e rural, as memórias de infância calorosas, o conflito entre aquilo que os nossos pais são e o que a nossa vida acaba por ser.

Tanta coisa encapsulada em pouco mais de 200 páginas, de forma orgânica, sem levantar ondas. Quando dei por mim estava a torcer para que Arrô fosse real e eu nem terra tenho.

“<“Tudo se resolve, filha”>, repetia. Talvez porque soubesse que houve um dia em que tudo se resolveu a mal.”

Que maravilha de livro.
Profile Image for Patrícia Noronha.
Author 5 books23 followers
December 19, 2022
Muito comovente e delicado. Uma leitura que nos agarra desde o início e deixa saudades quanto termina. Imagino até a continuação da aventura desta filha, na terra (e nas memórias) perdida(s) da família.
Profile Image for António Esteves.
197 reviews10 followers
May 2, 2023
Representativo de um Portugal do passado e já não existente.
O caminho é feito do interior para as grandes cidades em busca de outras condições de vida.
É um reviver de memórias, reviver a forma de vida das expressões utilizadas.
É preciso tê-las vivido para as sentir.
Profile Image for António.
121 reviews6 followers
December 2, 2023
Sinto um carinho especial por este livro. Conta uma história que também é minha, memória que gosto de recordar e parte do que sou. O meu pai é "da aldeia" e portanto, tinha alguma expectativa quanto a este "Terrinhas" de Catarina Gomes, um romance sobre a dualidade urbano - rural, sobre memória, raízes e identidade.

Cláudia Mendes é uma designer de interiores, com pais originários de uma aldeia do interior. Jovem citadina não sente o campo, não o compreende. É outro mundo que não o seu, é um estranho que não entranha porque não cola com a sua personalidade. As viagens de meio dia, a natureza, o cultivo, as batatas... um quebra cabeças que não encaixa no puzzle da sua existência controlada, confortável e esteticamente harmoniosa. Se a vida fosse assim tão simples, mansa e compartimentada... Mas por causa da família, Cláudia é obrigada a enfrentar as raízes que tanto quer evitar.

A escrita é irrepreensivel e transporta-nos nesse vaivém entre a cidade e o campo, entre a dúvida e a certeza, que volta a ser dúvida. Há espaço para reflexão e recordações, que para Cláudia são principalmente más. A. única divergência que tenho com a protagonista, porque as minhas memórias são boas. As viagens de três horas para fazer 100km, a comida cozinhada em panelas de três pernas, pretas de tanto uso na lareira, as mantas de lã que arranha, mas com cheiro que aquece a alma, enfim... Recordações que não são sinónimo de conforto a não ser aquele que só a saudade é capaz de proporcionar.

Nota-se que não é o primeiro livro de Catarina Gomes, embora seja o seu romance de estreia e logo premiado. Para além da qualidade literária, é uma leitura muito interessante, especialmente se estes temas vos interessam. "Terrinhas" proporcionou-me uma viagem à infância e isso não tem preço. Podemos tirar a pessoa da terrinha mas não a terrinha da pessoa.
Profile Image for Ines Norton.
544 reviews12 followers
October 13, 2023
#RunAwayTBROutubro#7#N.E.W.T.S #6#Nota E de Aritmancy

Eu já tinha gostado muito do coisas de loucos, mas este romance que quase senti como autobiográfico, foi um livro que despertou emoções e me fez em muitos momentos emocionar, e rir até em momentos que poderiam ser considerados mórbidos. Recomendo
Displaying 1 - 30 of 56 reviews

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