3,5*
Se “Coisas de Loucos” se lia como ficção, ou seja, como um conjunto de histórias tão bem contadas que pareciam quase contos subordinados ao mesmo tema, o primeiro livro de ficção de Catarina Gomes lê-se como uma história a precisar da concisão e do foco jornalístico.
“Terrinhas” parte de uma ideia excelente que creio que vai agradar a muita gente, incluindo a citadinos que nunca tiveram terra onde passar as férias, mas sobretudo a leitores cujos pais saíram da terra mas a terra não saiu deles.
Com a chegada da avó foi um sem parar de “vós ides”. “Vós ides lá fora?”, “Vós vindes da rua?, “ai que comeis tão tarde”, “gastais tanto, filhos”, “poupai”, “arrecadai”. Incomodava-me muito aquela sua forma de falar, mas sabia que era por poucos dias e que quase só nós a ouviríamos falar assim. O problema é que a presença da avó convocou o “vós” dos pais, deu-lhe a mão e içou-o cá para cima. Se não o usassem com ela penso que se sentiriam em falta, ou até que a trairiam.
Tudo começa com a divertida saga das batatas que é o que ainda liga os pais de Cláudia Mendes Mendes, primos direitos, à aldeia fictícia de Arrô.
“Este é o único lugar onde as podemos manter, filha, tens de compreender. As batatas querem sítios escuros, secos e frescos”, repetiam-me. Os pais diziam “tens de compreender” como se a compreensão fosse um dever e não algo a pedir explicação. E não diziam “As batatas querem-se” em sítios escuros, secos e frescos, diziam “as batatas querem”, como se elas tivessem querer, vontade, como as pessoas.
A mãe é caracterizada pela arrumação e limpeza, o pai pelo fascínio perante pequenos electrodomésticos.
Para a mãe, a nossa vida devia assemelhar-se à nossa marquise, aparentemente transparente, mas criteriosamente planeada.
Cláudia cresce, forma-se em design de interiores, e torna-se um Pantone andante. Era da protagonista, que conta a história na primeira pessoa, que eu esperava mais. Se em criança lhe falta a chave para compreender a dinâmica familiar, quando chega aos 21 anos, idade em que a sua vida dá uma grande reviravolta, Cláudia é uma tonta mimada, definida não pelo que é mas pelo que tem: um desgosto muito grande, um carrinho “esperto”, um aparador de pinho nórdico, calças de caqui para ir ao campo. Traços mais condizentes com uma caricatura do que com uma pessoa de carne e osso.
Quando pensa que cortou definitivamente laços com uma terra a que nunca sentiu ligação, Cláudia herda de um tio-avô emigrado uns terrenos diminutos, uma imagem fiel dos minúsculos minifúndios que tantas vezes vi na Beira Baixa, com terrenos divididos por marcos incompreensíveis a estranhos e a rega coordenada entre vizinhos, atividade que é fulcral nesta obra.
Raciocinei profissionalmente porque não conseguia pensar em terrenos de forma diversa. O que raio é uma bouça? Um lameiro? Um corgo? Quantos nomes pode ter uma terra, além de terreno ou lote de terreno?
Há vários momentos divertidos neste livro, mas até uma piada tem limites e se se estender a uma página, perde o viço. E esse é um dos problemas de “Terrinhas”: tem capítulos que se arrastam, tem ideias repetidas e espremidas até secarem, além de diálogos copiados do início para o fim, não sei se com o intuito de encher ou se por a autora duvidar da capacidade dos leitores em estabelecerem eles mesmos as conexões.
“Terrinhas”, no entanto, tem vários aspectos positivos, como reflexões sobre a interioridade, a desertificação, o aproveitamento de espaços para o turismo bem como um final extremamente bonito e até comovente, em que Cláudia se apazigua com o passado, não tanto pelos pais, mas sobretudo no que toca à avó que ela sempre tivera tanta dificuldade em compreender.
Toma conta de mim uma necessidade bizarra de proteger a terrinha, de a murar, de defender a parcela de chão que me calhou, como faria com uma casa. Sinto vontade de a fechar com uma porta forte, dando várias voltas à chave. Só assim posso impedir outros de aqui entrarem e de a pisarem sem saberem que ela agora é minha mas que dantes era nossa, lugar calmo, ao mesmo tempo palco de tanto desassossego familiar.