Um romance bucólico do virar do século, alimentado pelos tons quentes da terra e em cujas páginas se sente ainda o toque fresco e quebradiço da urze sob o orvalho, o aroma adocicado do campo em manhãs de primavera. Júlio Dinis acolhe sem pretensão os ensinamentos da escola romântica que antecede a sua geração, assim como toda a boa influência dos clássicos da literatura inglesa, sem no entanto se demarcar daquela em que temática e estilisticamente se inscreve. Não é, e desenganem-se os cépticos, um livro de ritmo lento, como, de resto, talvez se adivinhasse. A sua preocupação não está no aprimoramento da linguagem, aspecto que considerei positivo tendo em viva conta outros grandes nomes do panorama literário da época, mas sim na pintura e, nesse aspecto, o autor atinge os seus objectivos de maneira despretensiosa, não sem brio e até com certo mimo. Na realidade, não é inteiramente fiel o retrato que nos é oferecido da sociedade rural portuguesa, em particular da região norte, naqueles tempos de moribunda fidalguia; no entanto, e já o querido Oscar dizia, uma obra não é tanto um espelho da sociedade que a desponta e nutre como o é do seu consciencioso público. E o conceito de que o povo português, principalmente nas zonas rurais, é mais estúpido, escrupuloso e complacente do que em qualquer outro beco encardido noutra capital europeia qualquer é válido até hoje, conceito que nós, que o somos, mais alimentamos.
Em Os Fidalgos da Casa Mourisca, o quadro socioeconómico do país, pelo menos na medida em que este se torna útil para o desenrolar da acção, é introduzido com a maior modéstia e minuciosa atenção aos aspectos mais gerais da coisa. Na boca de Jorge, jovem fidalgo de salutar complexão, Júlio Dinis assume as inclinações liberais que o aconchegam, o que não obsta a que, durante todo o romance, o chamado “conflito de classes” seja de tal forma relativizado, sentimentalizado e de todas as maneiras popularizado que nunca chega a ser um conflito real, só no plano das relações pessoais entre os jovens enamorados e respectivas famílias. A ideia de que o “trabalho consola, o trabalho enobrece”, cristalizando uma falsa percepção de igualdade entre a classe dominante e seus vassalos, é hoje um entrave ao que quer de revolucionário que, por fim, se encontre na obra. O bom do Tomé que me perdoe, mas o tempo das vacas gordas já lá vai.