Primeira leitura do ano condizente com o momento pessoal que vivo. Em “Tramas de meninos”, Carrascoza recorre à mesma fórmula da linda “trilogia do Adeus” (sobre a qual já falei por aqui): as palavras poeticamente articuladas em orações e aforismos improváveis compõem contos e epístolas que buscam sintetizar finos sentimentos que compõem a experiência humana e especialmente as relações familiares.
Somam-se aos temas da ausência (“dois seres, uma vez juntos lá nas suas fundações, por maior a quilometragem que os separasse, jamais estariam, de fato, distantes”) e da morte (“sim, filho, morrer é isso, a gente vai um pouco embora com quem morre”), infância, medo, relações abusivas (“a lógica dos afetos era maior que o meu entendimento”), memória (“a memória vive de falhar, a memória se engana, primeiro sem querer e, depois, por sobrevivência”), violência doméstica, separação (“nossa harmonia familiar desabava lá atrás, como uma árvore que, fingindo fortaleza, é arrancada com facilidade pelo vendaval”) e outras tramas da coabitação.
Li algumas críticas negativas, algumas das quais usam a própria “trilogia do adeus” como parâmetro da competência do autor em depurar e traduzir truncadas relações entre pais e filhos, esposos e esposas, irmãos e irmãs. Penso no entanto que, para além das “tramas de meninos” narradas, a obra de Carrascoza é para contemplar os múltiplos usos da língua portuguesa, cujos limites da denotação precisam ser constantemente alargados para verbalizar temas e sentimentos tão complexos quanto os escolhidos pelo autor para alinhavar sua obra. Nisto, temos aqui uma aula que nos leva do riso ao choro, passando invariavelmente pela identificação com os encontros familiares dominicais, as visitas espaçadas e as contingências cotidianas que recorrentemente são obstáculos dolorosos às presenças: “viver era aquilo, aceitar o que me acontecia, fosse dor ou contentamento”.