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Sob os tempos do equinócio – Oito mil anos de história na Amazônia central

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O arqueólogo Eduardo Neves realiza aqui, com base em décadas de pesquisa, uma reconstituição de oito mil anos de história da ocupação humana da Amazônia central – de 10 mil anos atrás até os primeiros momentos da colonização europeia, no século XVI. Escrito para um público geral interessado em história, ciência e antropologia, o livro oferece ao mesmo tempo uma apresentação do ofício da arqueologia, seus métodos, parâmetros, medições, e os resultados reveladores das pesquisas recentes, que comprovam, com a descoberta de cerâmicas datadas de 10 mil anos em áreas de grande dispersão, a ocupação da Amazônia central, no encontro dos rios Negro e Solimões, que contraria o senso comum de que a região teria sempre sido ocupada por populações nômades isoladas. Os achados arqueológicos de Neves e seus colaboradores mostram ao contrário que é possível supor agrupamentos grandes e de duração e extensão considerável, com objetos que sugerem troca com outras populações do continente, inclusive com povos das terras altas, nas montanhas dos Andes.

Com precisão científica, repertório histórico e imaginação antropológica, Eduardo Neves traz ao presente a vida de mulheres e homens que viveram na Amazônia há milhares de anos, sugerindo ainda que a própria floresta teria como um de seus principais agentes o ser humano, produzindo lixo orgânico, realizando manejo de espécies e plantações. Uma hipótese que reforça ainda mais a importância da manutenção de Terras Indígenas no presente.

224 pages, Paperback

Published January 1, 2022

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Eduardo Góes Neves

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Profile Image for Paola D..
23 reviews2 followers
March 31, 2024
A promessa de Eduardo Góes Neves nesse livro era falar de arqueologia com uma linguagem simples e acessível para o público leigo. De modo geral, pode-se dizer que essa promessa é cumprida. Neves fez um bom trabalho ao adaptar seu conhecimento para uma linguagem acessível. Antes de mais nada, eu preciso comentar que o livro já me ganhou na primeira página, quando Neves opta pela datação laica “Era Comum (EC) e Antes da Era Comum (AEC)”, em vez de “antes e depois de Cristo”. Isso para “evitar a referência cristã, alheia ao contexto estudado” (p. 13). Com isso, Neves mostra um posicionamento claro, uma não pretensão de neutralidade, um reconhecimento de que a forma de escrever, contar e construir História (e de marcar o tempo) está, já há muito tempo, dominada e colonizada por uma única maneira de pensar. Ao abordar temas de um campo de conhecimento como o da arqueologia, no qual o tempo é um elemento fundamental, prestar atenção em como esse tempo é marcado é uma escolha que não passa despercebida.

Ao longo do livro, fica claro como Neves se posiciona também em relação a temas bastante importantes que permeiam diversas áreas do conhecimento e que precisam ser discutidos. Ao falar contra o pensamento positivista no fazer arqueológico, por exemplo, ele aponta como “a pretensão de conhecimento objetivo sobre o passado é ilusória” (p. 16). De maneira igualmente assertiva, Neves critica também o pensamento evolucionista na arqueologia. Acho que posso expressar aqui minha insatisfação ao inferir que, aparentemente, o evolucionismo é uma praga cheia de tentáculos que influenciou diversos campos do conhecimento nos últimos séculos. Felizmente, Neves descreve uma aproximação contemporânea da arqueologia com a história e “um distanciamento da antropologia evolucionista que tanto influenciou a arqueologia na segunda metade do século XX” (p. 45). Com isso, ele se refere a esse evolucionismo como uma “perspectiva equivocada”, a partir da qual “o foco principal da arqueologia deveria ser o estudo de regularidades subjacentes a processos de caráter universal, como o surgimento do Estado ou as origens da agricultura” (p. 45). Nessa perspectiva, o estudo da história “teria um caráter descritivo, associado mais a particularidades e ao conhecimento de eventos específicos, tais como, por exemplo, a independência do Brasil ou a Proclamação da República” (p. 45). Ele se refere aqui à Grande História, e a proposta de recusa a essa ideia é clara.

Acho que a crítica me agrada tanto porque, para mim, não tem jeito: seja lá onde eu veja evolucionismo, positivismo ou darwinismo social, eu vou querer bater, e vou querer bater com força. Para minha felicidade, mais adiante, ao se referir a uma formulação de Lathrap, Neves bate de novo — e aqui ele começa a entrar em um ponto que vai ser um dos principais argumentos do livro: “(…) o pensamento evolucionista social típico da arqueologia norte-americana do período (…) trabalhava com a premissa de que sociedades agricultoras deveriam sempre suceder sociedades caçadoras-coletoras na cadeia evolutiva, e não vice-versa” (p. 56). Não é difícil identificar que a esse tipo de abordagem subjaz a ideia de um modelo rígido e linear, que pressupõe um progresso ascendente, partindo de “grupos caçadores coletores” (os primitivos, atrasados, inferiores) em direção às “sociedades agricultoras e sedentárias” (mais avançadas, nas quais existem mais chances de surgimento de um Estado — e, portanto, civilização?). E dá-lhe pensamento civilizador! Mas, pouco a pouco, Neves desmonta essa ideia, apontando-a como típica do pensamento evolucionista, já — ufa! — ultrapassado.

Ao se referir a “trabalhos etnográficos entre caçadores-coletores” (p. 57), que mostram que uma “alternância entre modos de vida caçadores-coletores e agricultores seja talvez mais comum que o normalmente considerado” (p. 57), o livro indica que sociedades amazônicas parecem ter alternado entre esses modos de vida diversas vezes, ao contrário de seguir uma trajetória linear que pressupõe um progresso (com o nômade evoluindo em direção ao sedentário). Ele cita inclusive alguns exemplos de grupos (Parakanã, Awá, Sirionó, Xetá, Guayakí) que “atualmente têm modos de vida caçadores-coletores”, mas que “no passado tinham economias mais agricultoras” (p. 57), indicando uma ordem inversa do que seria esperado em um pensamento evolucionista linear: “Esses processos de mudança são às vezes tratados na literatura como regressões (Balée 1994), mas seria mais preciso vê-los como alternâncias baseadas em tomadas de decisão entre diferentes estratégias econômicas” (p. 57). Pois bem, achar isso uma “regressão” pressupõe um ponto de referência, certo? Isso seria uma regressão em relação a que? O parâmetro, mesmo se não dito explicitamente, sempre aparece em algum lugar: a civilização aos moldes ocidentais, europeus, com sedentarismo, agricultura, Estado…

Em uma entrevista recente de Neves (esta e outras), ele fala como o engajamento nas atividades de cultivo de diversas plantas na Amazônia por parte dos povos indígenas ao longo da história contribuiu para o padrão ecológico da Amazônia do presente. Isso tudo leva à maravilhosa conclusão de que os povos indígenas não só preservaram e cuidaram da floresta, mas ampliaram sua área. No entanto, confesso que senti um pouco de falta dessa parte específica no livro. Acho que o mais perto desse aspecto específico que o livro chegou foi constatar que a arqueologia tem mostrado “como os ambientes amazônicos foram extensamente modificados por atividades humanas no passado” (p. 83). Isso, por si só, já serve para desmontar muitas ideias ainda arraigadas no nosso senso comum sobre a Amazônia: a de que a floresta era quase vazia e intocada até o contato europeu, de que as condições de floresta densa do ambiente amazônico não são favoráveis à habitabilidade etc. Pois bem, aparentemente, a Amazônia não só é um ambiente possível para diferentes maneiras de habitar, como ela foi construída também pelos povos indígenas! Lembro-me de participar de uma conferência na ocasião da visita de Philippe Descola à UFRJ no ano passado e, durante a fala de abertura, ele se referiu à Amazônia como “o pomar dos povos indígenas”. O que Neves parece fazer nesse livro é ratificar essa visão com fatos arqueológicos e resultados de suas pesquisas de décadas.

Praticamente em qualquer área da Amazônia onde há pesquisas, a arqueologia vem encontrando evidências de ocupações humanas no passado, mesmo em locais hoje cobertos por floresta aparentemente virgem. Atualmente sabemos que a Amazônia é habitada há pelo menos 12 mil anos (…) por diferentes povos, com distintas formas de organização social e política, desde bandos nômades de caçadores-coletores até sociedades sedentárias hierarquizadas que produziram objetos de pedra e cerâmica extremamente refinados” (p. 184-185).


Outro aspecto muito interessante enfatizado no argumento de Neves é a abundância, em oposição à ideia de escassez que se costuma associar à Amazônia. Ele critica o que chama de “princípio da incompletude”, ou seja, “uma forma persistente de anacronismo no tratamento da história da ocupação humana na Amazônia. Tal concepção subjaz não apenas à postura com relação ao passado mas também à maneira como são tratados a Amazônia e seus povos na discussão contemporânea” (p. 181). É a ideia de que “algo sempre faltou à Amazônia e seus povos: a agricultura, o Estado, a história, as cidades, a escrita, a ordem e o progresso” (p. 182). Ou seja, falta o modo de vida visto como o “avançado”. Mas os modos de vida amazônicos precisam ser compreendidos em seus próprios termos, e essa é a brilhante proposta de Neves. “Normalmente, os textos produzidos com base no princípio da incompletude vêm recheados com argumentos de ausência, de escassez, de falta (…). Assim, é notável como, desde o século XVI, o uso da preposição ‘sem’ tem sido utilizado com frequência para designar os povos e a natureza aqui encontrados pelos europeus, como na clássica formulação de Pero de Magalhaes Gândavo sobre os Tupinambá: povos ‘sem fé, sem lei, rem rei’” (p. 182).

Um dos argumentos utilizados por Neves para suportar o enfoque na abundância é a discussão sobre as chamadas “terras pretas de índio”. Esse tipo de solo, incrivelmente rico em matéria orgânica e nutrientes, se formou “pelo acúmulo de refugo orgânico doméstico” (p. 126, grifo meu). Aqui, Neves contrapõe interpretações sobre o surgimento intencional ou não desse tipo de solo. Para ele, os autores que “propõem uma origem deliberada da terra preta como solução para problemas de escassez trabalham com uma premissa no fundo muito parecida com a do determinismo ambiental: a de que as condições naturais amazônicas não seriam propícias à formação de assentamentos estáveis e ao adensamento demográfico. Nessa perspectiva, ao gerar o aprimoramento do solo, a formação de terras pretas permitiria o estabelecimento de assentamentos sedentários e permanentes com economias baseadas na exploração agrícola dos solos antropizados” (p. 124-125). Ou seja, tais autores sugerem que a formação de terra preta era um processo intencional que se deu devido à pobreza do solo, ou seja, à escassez. Neves aponta, entretanto, que “o problema com essas perspectiva é que, ao menos na Amazônia central, terras pretas se formaram em locais de habitação, nas aldeias, e não em locais destinados à agriculturas” (p. 125). Ou seja, as terras pretas, tão incrivelmente ricas, eram resultados dos MODOS DE HABITAR dos povos amazônicos. Em vez de gerar lixo, poluição e morte, como em nossos modos de vida urbanos e modernos na cidade capitalista, os modos de habitar dos indígenas amazônicos geravam terras ricas, com potencial de gerar mais vida. Esse é mais um ponto importante que me interessa muito nesse tema. O que diferentes modos de vida/ modos de habitar o território podem produzir? Se “esses solos estão entre os testemunhos mais permanentes e duradouros da presença humana na região” (p. 127), é possível inferir essa presença humana como uma que deixa rastros construtivos e ricos, cheios de vida, e não rastros de devastação, destruição e morte. Isso me leva a pensar que a frase da Elaine Brum na orelha do livro pode fazer sentido: outros modos de vida são possíveis, porque outros modos de vida já foram possíveis!

Esse ponto é importante porque o princípio de incompletude (também chamo de “perspectiva do atraso”) parece se manifestar até mesmo em algumas pesquisas e discussões, principalmente quando surge o assunto “Estado”. Como mencionado anteriormente, ao contrário da ideia de uma “evolução” linear, com nômades evoluindo em direção a uma sociedade sedentária e agricultora (em última instância organizada pelo Estado), Neves aponta como, ao longo dos séculos na Amazônia central, “a arqueologia mostra uma longa historia de alternância entre formas de vida bastante distintas, mas nunca, necessariamente, em direção ao Estado, mesmo nos contextos de densidade demográfica maior” (p. 189). Aqui chegamos então a uma discussão sobre hipóteses para explicar as diferentes trajetórias políticas entre sociedades antigas da Amazônia. Anteriormente, Neves havia descrito como, com exceção dos sambaquis litorâneos e fluviais do litoral atlântica (etc.), os modos de vida nômades tinham “grande mobilidade e baixa visibilidade arqueológica” (p. 76). Ao mesmo tempo, modos de vida como os dos Andes foram descritos como ricos em “sinais de vida sedentária e de construção de monumentos com grande visibilidade arqueológica” (p. 77). Existe, assim, um contraste geográfico muito bem marcado entre o litoral dos Andes centrais e a bacia Amazônica. No litoral dos Andes centrais, existem grandes “desertos entrecortados por estreitos vales férteis, verdadeiros oásis, formados por rios que nascem na cordilheira, mas com limites geográficos bem definidos” (p.77). É, portanto, um contexto de recursos “produtivos e abundantes, mas com distribuição relativamente limitada, restrita aos vales irrigáveis e ao oceano, e limitados pelo deserto e pela cordilheira” (p. 77). Na Amazônia, por outro lado, “abundam recursos (…), mas sua distribuição é muito mais abrangente que no litoral do Peru” (p. 77). A partir disso, Neves aponta como mais interessante a formulação de Carneiro (1970), que “correlaciona a emergência do Estado à circunscrição geográfica” (p. 77), chegando à conclusão de que, antes, “muitas hipóteses apresentadas para explicar comparativamente as diferentes trajetórias políticas dos povos amazônicos e andinos tenham se valido de argumentos baseados na escassez de recursos na Amazônia - supostamente os solos pobres ou a parca proteína animal -, que impediria o estabelecimento de modos de vida sedentários, a divisão social do trabalho, a desigualdade institucionalizada e a emergência de Estado (Roosevelt 1980)” (p. 77-78).

Nesse ponto do livro, já estava claro que a Amazônia “ao longo do Holoceno Média, entre 7 mil e 3 mil anos atrás” (p. 75), longe de não possibilitar a agricultura por conta de uma suposta escassez, estava situada em um contexto de “poucas pressões evolutivas para que a agricultura se estabelecesse.” (p. 75). Nesse sentido, Neves descreve como “convincente” o argumento de ter havido recursos alimentares fartos e amplamente distribuídos pela Amazônia “a ponto de não haver uma demanda para o investimento no cultivo, característico dos contextos em que a agricultura é a principal atividade produtiva” (p. 76). Além disso,

Há meio século, Marshall Sahlins, em Stone Age Economics (1972), contribuiu para desmontar a ideia de que a transição de modos de vida caçadores-coletores para agricultores implicou necessariamente melhoras na qualidade de vida das populações. Se considerarmos, por exemplo, o tempo dedicado ao lazer, caçadores-coletores dispensam na média menos horas para produção de alimentos, tendo o restante dos dias para dedicar-se a atvidades não ligadas à subsistência. Do mesmo modo, dados extraídos de centenas de esqueletos escavados em Çatalhüyük, um importante sítio neolítico da Anatólia, na Turquia, mostram uma piora no estado de saúde decorrente da adoção da agricultura e da criação de animais (Larsen et al. 2019) (p. 76).


Neves aponta ainda o estudo de Carneiro (1950) sobre a suposta subutilização do potencial agrícola dos locais que as populações indígenas ocupavam na Amazônia, que teria derrubado “argumentos baseados em princípios de escassez” (p. 78). Existe aí uma crítica á ideia de que “a emergência do Estado seria o caminho natural da história humana e que as sociedades que não tivessem alcançado tal estágio seriam relíquias, no presente, de formas rudimentares de organização política, ou, pior, manifestações de processos adaptativos resultantes de limitações ambientais” (p. 78). E, assim, voltamos novamente ao tema da escassez: “há assim amplas evidências etnográficas e arqueológicas (…) que contribuem para uma crítica à noção de que a história antiga da Amazônia teria ocorrido dentro de um quadro de escassez de recursos” (p. 79). Se eu tivesse que resumir esse livro em um parágrafo, portanto, eu acho que diria da seguinte forma: “Os povos antigos da Amazônia não desenvolveram Estado e não basearam maior parte de sua economia na agricultura porque não precisaram, porque havia abundância de recursos, e não escassez, como se costuma pensar. Não consigo deixar de associar essa ideia da escassez com a economia capitalista: o capitalismo parece sempre celebrar (e necessitar da) escassez, colocá-la como padrão, como condição básica e inevitável, é claro, para que se possa justificar o acúmulo”. Mas, na verdade, essa premissa do senso comum de que “algo essencial estará sempre faltando” na Amazônia, essa ideia de incompletude talvez revele que incompleta é a “nossa capacidade de entender a Amazônia, sua historia e sua natureza em seus próprios termos” (p . 189).

Com isso, Neves propõe pensarmos uma História Antiga da Amazônia. Essa ideia, que permeia e se mostra ao longo de diversos momentos no livro, consiste em não centrar a História da Amazônia (ou dos povos indígenas antigos ou contemporâneos) na colonização. Longe de negar o impacto e a relevância desse acontecimento histórico, Neves busca mostrar que há MUITO mais para além disso, que não podemos resumir a história indígena ao contato com os europeus, como se a história indígena tivesse começado ali, ou só fosse relevante a partir daí. Os povos indígenas têm sua própria história, que vai para muito além disso e é, inclusive, MUITO mais antiga. Em diversos momentos no livro ele cita que a ocupação humana na Amazônia data de PELO MENOS 12 mil anos. Já tem um tempo que se discute por aí a noção de história para além da História a partir do “surgimento” da escrita. Não vou entrar com profundidade na discussão sobre historiografia por falta de capacidade, essa não é minha área de estudo. Mas como o livro pretendeu ser para leigos e curiosos, me permiti opinar nesse review: essa proposta parece ser, para muito além de interessante e instigante, também muito necessária e urgente. Não é atoa que o capítulo de conclusão do livro chama “por uma história antiga dos povos indígenas”. Essa parece ser a proposta principal de Neves: pensar a história indígena antiga também em termos de História, em oposição à concepção comum da Amazônia ser uma “Terra sem história” (p. 181), e com uma abordagem permeada por uma visão que enxerga abundância, vida, diversidade, em contraposição (e negando deliberadamente) àquela que vê escassez, atraso, falta.

“Talvez esteja na hora de virar o quadro de cabeça para baixo e trabalhar com a premissa de que a abundância, e não a escassez, é o ponto de partida para uma reflexão sobre a Historia Antiga da Amazônia. Nesse quadro, não faz mesmo o menor sentido pensar em acumulação, obrigação ou compulsoriedade, principalmente no longo prazo” (p. 189).


Neves finaliza então com o que eu considerei uma chave de ouro: ele convoca o filósofo Étienne de la Boétie em seu Discurso da servidão voluntária ([1574] 1982), no qual ele se pergunta: “Como pode ser que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações suportam às vezes um tirano só, que tem apenas o poderio que lhes dão”. Assim, ele finaliza com uma pergunta com potencial de alugar um triplex na cabeça de qualquer um: “Por que, após dezenas de milhares de anos vivendo como caçadores-coletores, as sociedades humanas abriram mão de sua liberdade em prol da agricultura e do Estado?”

Fica aí a questão.
Profile Image for Raquel Bello  Vázquez.
102 reviews1 follower
July 15, 2024
Eduardo Goes Neves, além de um dos arqueólogos mais renomados do Brasil e pesquisador da USP, entre outros méritos acadêmicos, é um excelente divulgador científico. Em Sob os tempos do equinócio, consegue fazer uma síntese do estado da questão sobre arqueologia amazônica e sobre os processos de povoamento da América do Sul, que é compreensível para pessoas leigas na área sem perder o rigor.
A partir de novos e mais aprofundados estudos sobre as terras pretas, as cerâmicas e os lugares de povoamento e de cultos funerários, Neves vai desmontando velhos mitos sobre o suposto "atraso” dos povos indígenas, e traça mapas de conexões e relações entre diversas culturas do continente. Igualmente, em linha ou outros antropólogos e arqueólogos contemporâneos, refuta a ideia rígida de que o desenvolvimento da agricultura levaria em todos os casos a sistemas de governo autoritário e ao abandono das práticas da caça e recolecção, mostrado que nos povos o originários do Brasil modelos híbridos foram possíveis e habituais na virada do primeiro milênio antes da era comum.
Profile Image for Vivian Marques.
321 reviews7 followers
Read
July 23, 2025
descobri que arqueologia não é um tema muito de meu interesse, mas pra quem gosta parece ser um livro bom
Profile Image for Beatriz.
5 reviews
December 27, 2025
Livro muito bem escrito, com um aprofundamento bibliográfico incrível. Contudo, em certa parte torna-se bastante técnico, ao meu ver, gerando certo desinteresse para aqueles que não são ou não flertam com a arqueologia.
Profile Image for Luis Pontes.
20 reviews
December 25, 2025
Preciso voltar pra esse livro sabendo mais de arqueologia MAS MUITO BOM MTO LEGAL O PROJETO E AS INVERÇÕES PROPOSTAS NAS FORMAS DE SE PENSAR A AMAZONIA TOP DMS 💥💥
Profile Image for Mariana Mincarone.
16 reviews1 follower
April 21, 2025
O tema que o livro trata e as informações que ele apresenta: 5 estrelas
A forma como ele é escrito: 3 estrelas. O autor explica, logo no inicio, que o livro é de divulgação científica e faz um esforço pra nao usar linguagem técnica da arqueologia, mas mesmo assim pra mim foi beeeem difícil acompanhar alguns trechos, as explicações técnicas me pareceram meio extensas (e desinteressantes, pra mim) e poderia ter focado mais nas conclusões, descobertas e desdobramentos…
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