Novo romance do autor de O cheiro do ralo, este misto de autobiografia e ficção traz um dos maiores autores brasileiros em sua melhor forma.
Pompeu Porfírio Júnior ganha a vida contando histó as pessoas lhe pagam para que sente ao lado delas e conte o que viveu. Como um intermediário-inventor, Pompeu arquiteta mundos para que elas os habitem. Ali, se apaixonam, se decepcionam, gozam e sofrem. Contudo, Pompeu tem seus demônios particulares e, ao ser denunciado ao tribunal da inquisição, passa a responder por crimes que não conhecia. Sem saber quem o acusara, o contador de histórias relembra sua vida e dela monta um caleidoscópio, revisitando, na companhia do leitor, desde a infância até a maioridade e ao infarto que quase o matou. Misto de autoficção e narrativa insólita, própria de Mutarelli, este livro retoma o estilo que o consagrou em O cheiro do ralo e aprofunda uma das questões mais importantes de sua quais os limites da narrativa (seja ficcional seja histórica) e até onde ela nos constrói.
O livro dos mortos é um livro aberto. Aberto no sentido de que ele pressupõe um fora que é maior que si. Porque ele não tem seu sentido completo fechado em si mesmo, mas sim em um mundo que lhe é externo. Esse externo ou é o externo das citações, dos acontecimentos e romances que surgem como que suscitados pelas momentos da obra, ou é o externo da própria vida do autor, que parece conferir novos sentidos àquilo que aparece na página.
É um livro que pressupõe e retoma tudo que é Mutarelli, desde quadrinhos, livros e até as entrevistas nas quais o próprio autor surge como personagem de si mesmo, figura central de um mundo cultural que gira em torno de sua própria obscuridade, miséria e amor compulsivo por seu próprio ofício. Aqui, retornam os circos de Diomedes, os pais e os Juniors de A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, os Mauros duplicados de O Grifo de Abdera, o tempo onírico de Transubstanciação, além da própria repetição de O Cheiro do Ralo.
O livro dos mortos é um livro de culto. É um livro difícil. É um livro altamente experimental, mas que, ao mesmo tempo, parece ser o mesmo que Mutarelli sempre fez. É o novo junto do velho, e eu, como devoto, não poderia esperar mais.
Comecei a ler Mutarelli aos 17 anos. Hoje tenho 32. Ah não, assim não vai dar, o homenzinho reclama. A ideia de fazer esse texto aqui foi dele, não sei porque quando sento para escrever ele fica hostil, debochado. Comprei O livro dos mortos entre o natal e o ano novo de 2023. Descobri que o Mutarelli tinha lançando livro novo e fui atrás. Fui encontrar na livraria do shopping da Av. Sondra Porfídio. "Tudo o que penso já foi muito mais profundamente pensado. Mas e o que sinto?". Que bom que o Mutarelli não morreu. Que bom que escreveu (e segue escrevendo) o livro eterno.
É um romance do Mutarelli que perpassa por várias de suas referências, trás um olhar mais aprofundado de como a cabeça dele tá funcionando, tá ligando os pontos, tá questionando ter morrido e não estar morto. Por ser uma autobiografia, eu meio que esperava maaais histórias vividas da sua vida. Entendi as histórias ali contadas como momentos formadores, não necessariamente os mais importantes de uma vida, ou uma trajetória de vida, mas aqueles em que ele veio a ser quem ele se tornou. E é muito massa como autobiografia é quase uma auto-bibliografia. Foi uma oportunidade de ter contato com autores que só conhecia de nome e temáticas que nunca olhei com atenção. Enfim, sou fã, curti muito.
Right now, Mutarelli is my favorite author without a doubt. As in his previous novels, this is an excursion that travels along the border of the hilarious reality and the surreal dreamland. I caught myself trapped between laughing out loud and a deep admiration for the surreal vision that Mutarelli has of the human existence. Eminently quotable, intellectually humbling, and ultimately enjoyable as hell, this book was a joy to read. (It disturbed me to no end to learn that we could have lost this incredible author to two just nearly fatal heart attacks.)
um livro difícil e altamente experimental. se for pensar na literatura como uma forma de criar um mundo paralelo, o livro dos mortos é o oposto. não há divisão de universos e muito menos barreiras de linguagem que dividem o externo do interno. pompeu é todos nós no final ao mesmo tempo que não é ninguém. tem uma intimidade e um silêncio que não vi representando em nenhum outro lugar. planejo reler esse texto aberto que aparenta continuar independente do autor.