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Totolino

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"Enorme “conto” fantástico e burlesco, merece ser lido!" — Revista Unamuno


Uma narrativa onírica e assustadora na qual o sonho muitas vezes se torna um pesadelo. Nesse seu quarto romance, Alexandre Soares Silva nos traz mais uma divertidíssima história. Totolino é um serial killer italiano que mata as suas vítimas enquanto canta as mais famosas peças operísticas. A sua sequência de crimes acaba o tornando mundialmente popular e todo um movimento político e cultural se desenvolve em torno dos seus atos. Quando o assassino resolve vir ao Brasil, em busca de mais uma vítima, a sua presença se torna motivo de controvérsia nacional. Mais que uma sátira, Totolino é uma impressionante alegoria dos tempos loucos em que vivemos.


Alexandre Soares Silva nasceu em 1968. Publicou três romances, A Coisa Não-Deus, Morte e Vida Celestina e A Alma da Festa; uma coletânea de ensaios, A Humanidade é uma Gorda Dançando em um Banquinho; e o volume de contos O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos.
Foi roteirista da premiada série "O Negócio", da HBO; é colunista da revista Crusoé. Vive em São Paulo.

243 pages, Kindle Edition

Published August 9, 2022

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About the author

Alexandre Soares Silva

12 books43 followers
Alexandre Soares Silva nasceu em São Paulo em 1968. Publicou dois livros de aventuras para adolescentes (“Na Torre do Tombo” e “A Origem dos Irmãos Coyote”) e três romances para adultos (“A Alma da Festa”, “Morte e Vida Celestina”, e “A Coisa Não-Deus”). É talvez o responsável pela onda de conservadores anglófilos com pretensões a dândi na internet brasileira, embora não saiba dar sozinho um nó decente de gravata. Escreveu vários episódios da série de televisão “O Negócio” (HBO).

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Mauro.
301 reviews22 followers
December 1, 2022
Eu nunca lembrava dos meus sonhos, até que, durante a quarentena, os treinos da manhã começaram a me fazer cochilar em seguida ao almoço. Eram cochilos involuntários, no meio do trabalho, em que eu me forçava para escrever alguma coisa com algum sentido e, naturalmente, não conseguiria fazer isso dormindo.

Nesse cabo-de-guerra entre o cansaço físico e a necessidade de atividade mental, acabava tendo pequenos sonhos, de alguns segundos ou pouco minutos, dos quais eu me lembrava sem esforço.

Esses sonhinhos tinham duas características que me espantaram.

A primeira é como em alguns segundos, ou pouco minutos, você cria uma situação absolutamente verossímil: lembra de pessoas que nunca conheceu e sabe todo o seu histórico; os fatos vêm com justificativas plausíveis (na lógica do sonho). Raramente algum fato é surpreendente ou absurdo. Há uma estrutura lógica do sonho, diferente da real, mas que se contenta em si mesma.

A segunda é que não há, na verdade, sonhos (bons) ou pesadelos (maus): todos os sonhos têm um pouco dos dois.

O livro do Alexandre é, de ponta a ponta, um sonho. E ele consegue, como eu nunca vi ninguém fazer, transportar quem lê para essa atmosfera de verossimilhança interna, de sensações boas e ruins.

Os autores que escrevem sonhos normalmente te dão um antes ou, pelo menos, um depois (ah, ufa, era só um sonho). Não o Alexandre: é como se o Memórias Póstumas fosse, inteiro, um capítulo sete. Ninguém dorme, ninguém acorda.

Isso leva o leitor mais interessado a se perguntar: mas quem está sonhando? E o que raios está acontecendo na vida real para essa pessoa ter esses sonhos?

E está aí o mistério que o Alexandre deixa: te mostra as sombras na parede, mas é você que tem que virar para trás para entender quem, e o quê, as produz.

Só aconselho a ler em poucas e longas doses - a voz autoral do Alexandre é forte, e você tende a ficar numa atmosfera de sonhos por algum tempo, enquanto lê. E seus cochilos da tarde, provavelmente, nunca mais serão os mesmos.
Profile Image for JV.
205 reviews23 followers
December 12, 2022
Um livro diferente de tudo que já li, cada capítulo contendo uma perspectiva e um estilo próprio. Mas de um modo geral a voz de Alexandre, divertida e leve, mantém o fio narrativo intacto. Na verdade, lembro de quando trocam as letras por números e ao final do texto entendemos tudo; a quase ausência de “continuidade” em nada impede que sigamos com interesse o enredo.

Nos dois capítulos onde há um realismo na narração, o primeiro e o último, ambos são dedicados a Totolino. O restante do livro se passa sob sonho. Mas não tem aquele lero-lero de “ah, mas o que é vdd o que é sonho”. O romance não me parece ter uma mensagem, ou uma dicotomia cuja tensão move os personagens. Totolino, Ponza e Bel resolvem seus problemas vivendo, refletindo sob seus próprios termos.

Ri muito, em especial com os diálogos. A diversidade dos temas e das narrativas ressaltam a perícia do autor. É um livro muito visual - acho que como os sonhos - mas que consegue ser reflexivo também.
Profile Image for Roger Prado.
21 reviews12 followers
May 23, 2023
Quem nunca tentou subir um degrau alto demais para o compasso das pernas?
Quem nunca removeu os dentes da boca e viu que eles eram umas coisas estranhas?
Quem nunca perdeu o controle do carro porque estava sentado no banco traseiro tentando alcançar o volante?
Quem nunca chegou ao destino de uma viagem e percebeu que estava calçado apenas com as meias?
Quem nunca abriu uma porta e se transportou para a morada da juventude?
E assim vão Ponza, Bel, Josie e André sendo sonhados ou sonhando, vai saber. Talvez a história toda seja o sonho do Totolino, talvez Totolino seja o sonho de cada uma de suas vítimas. Vai saber.
O que sei é que o leitor dificilmente escapará daquela sensação de que está caindo. Caindo de onde? Caindo aonde? Vai saber.
Como dizia um velho e sábio peixe-boi: ai, fia.

Totolino
Alexandre Soares Silva
Profile Image for Elton Mesquita.
12 reviews11 followers
March 19, 2024
Tipógrafos massacram todos os gatos que encontram, submetendo os felinos sobreviventes a um "julgamento" e enforcando-os. Uma criatura escamosa e purulenta rasteja para fora dos esgotos de Paris e incita a revolução de dentro de uma banheira. Senhorinhas pacatas assistem a pessoas sendo decapitadas enquanto tricotam. Mulheres sofrem abortos espontâneos causados pelo medo e trauma. O clima é de euforia, esperança e bons sentimentos cívicos. Durante quatro dias cidadãos se deliciam inflingindo prolongadas torturas em seus concidadãos que se retorcem em convulsões atrozes e gritos de agonia enquanto são cortados em pedaços. A Deusa Razão é celebrada em procissões e templos. Mulheres dormem abraçadas a lâminas de guilhotinas, a que chamam seus "amantes" ou "noivos". Nos refinados "bailes das vítimas", as damas usam fitas vermelhas no pescoço simbolizando a decapitação, e um passo de dança envolve sacudir a cabeça violentamente na vertical, lembrando o espasmo do enforcamento. A princesa de Lamballe tem sua cabeça enfiada em uma estaca e exibida pelas ruas em uma procissão festiva. Algumas das figuras mais ponderadas e respeitáveis da época, como Thomas Jefferson, Kant e Hegel, emitem opiniões ponderadas e respeitáveis sobre os supostos "excessos excessivos", dizendo que também não é isso tudo também (paráfrase minha). Uma cabeça humana decapitada mexe os lábios e olhos por vários minutos, como se tentasse falar. Vira-latas arrotam, saciados, com retrogosto de sangue humano. Por alguns anos isso se torna normal, é a vida normal. Um biólogo tenta criar um híbrido humano-chimpanzé, o "humanzé". Alguém faz um "X" vermelho numa lista querendo sinalizar "já li" e um erro de interpretação faz dezenas de pessoas levarem tiros na cabeça. Pessoas entram numa fila do pão e morrem congeladas. Após onze minutos de aplausos ininterruptos para o discurso do líder, um homem finalmente pára de aplaudir e é condenado a dez anos na cadeia. Um membro do alto escalão estupra centenas de moças e oferece buquês de lírios brancos para as famílias. Após algum tempo no campo de trabalhos forçados, um engenheiro condenado se desassocia de sua personalidade anterior, a quem se refere na terceira pessoa. Sapatos (cuja fabricação, aquisição, manutenção e posse são extremamente precárias) se tornam um foco de horror neurótico. A ambiguidade dos gestos e sinalizações do líder, expressos com requintes de minimalismo diabólico, condenam seus subalternos a exercícios desesperados de exegese paranóica e contraditória. Essa é a vida rotineira, cotidiana. Está tudo normal.

Os grandes experimentos revolucionários sempre confirmam que a normalidade é uma membrana fina e frágil, que pode ser rompida (e frequentemente o é) por um punhado de pessoas empolgadas, com resultados parecidos aos que se obtêm ao deixar cair uma grande pedra em um formigueiro. Estados de anomia social trazem consigo uma atmosfera de pesadelo onde tudo é impermanência e risco, criando um terreno fértil para a paranóia, a neurose e o absurdo. Está tudo normal. É assim que as coisas são.

Em um comentário que fiz sobre um conto do Alexandre ("O Vigilante Rodoviário contra o Cerrado Infinito"), mencionei a impressão de que ele tinha achado talvez a única maneira de falar sobre o Brasil: sem levar a sério, em um tom superficial, afetando um interesse desinteressado, até um pouco frívolo... como alguém que aos poucos vai se acercando de um lunático perigoso armado de faca para tentar desarmá-lo. Não sabia então que em breve ele publicaria um livro que literaliza a impressão que tive: "Totolino" (que dá seu nome ao livro) é um assassino em série, um italiano sentimental, repleto de bons e piedosos sentimentos, que mata e tortura suas vítimas enquanto canta ópera. Ele se torna vetor de uma estranha doença que se espalha pelo mundo, criando outros totolinos, que começam a promover chacinas entre desconhecidos, amigos e familiares, enquanto cantam, lacrimosos e sentimentais.

"Totolino" é escrito segundo a lógica dos sonhos, em que a única constante é a impermanência: cenários, pessoas, objetos, tudo flutua em um estado precário que muda sem aviso. Os protagonistas são protagonistas de sonho, que ocasionalmente questionam o que vêem e sentem, mas sem veemência ou convicção, se esquecendo do modo como as coisas eram momentos antes, e por fim aceitando a nova configuração de coisas. O que era absurdo há alguns instantes agora é apenas banal.
O texto é engraçado até a desfaçatez ("não mostro colibri pra vagabunda"; os shows de "estupranejo", que são bem isso aí que vocês estão pensando), mas também infuso de nostalgia indefinida, banhado na estranha luz crepuscular dos sonhos; sombrio e vagamente inquietante, como explorar sozinho um museu vazio à noite.

No mundo da arte mediada pelo mercado, é comum que as coisas mais interessantes aconteçam na periferia onde, longe da pressão do dinheiro e do prestígio, o artista pode simplesmente criar (vamos parar um momento para apreciar a ironia bacana de o Alexandre, ao seu modo, ser um artista da "perifa"). Assim, periga "Totolino" ser o primeiro grande livro da literatura brasileira em não sei quantas décadas, um ato de prestidigitação tanto mais notável pela leveza e simplicidade com que é executado. Nossa literatura dita séria é ridícula feito um adolescente de gola rolê afetando Weltschmerz; é um guichê de gente chata fazendo reclamações bobas, confiando que o jargão ideológico do momento vai fazer o trabalho por elas. Restou a um despretensioso romance escapista (até o título ridículo parece gritar "não tem nada de importante aqui, só inconsequências, tem certeza de que quer ler?") nos lembrar da realidade.

Longe de mim querer imputar intenções sérias ao Alexandre, mas é difícil não sentir um reconhecimento incômodo quando o totolinismo chega ao Brasil e se torna um novo modo de existir, sentir e pensar, encorajado em cerimônias públicas, defendido em editoriais de jornal e apoiado pelos bem pensantes, um desfile grotesco de anomia social tristemente familiar que culmina no momento de supremo horror quando Bel, jurada de morte por Totolino, afirma... até entender o lado do assassino. Está tudo normal. É assim que as coisas são.

O Alexandre escreveu um livro de terror (o gênero literário) que é também sobre o Terror (ou Terrores). A faca de Totolino corta verdadeiramente. A ferida permanece mesmo depois de terminada a leitura, para se reabrir sempre que nos lembramos de que, quando o dia chegar, não poderemos acordar, pois já estaremos acordados.
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