Não sendo adepta de poesia, nunca me tinha cruzado com nada escrito por Mário de Sá-Carneiro. E quando comecei a ler "A Confissão de Lúcio" não estava à espera de encontrar a escrita que encontrei. Contava encontrar um típico escritor e história dos finais do século XIX inícios do XX e na realidade, a história poderia ter sido contada por um escritor dos nossos dias e a escrita, embora com alguns traços da época é bem mais fluída e "desempoeirada", em parte porque a versão que li sofreu uma revisão, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, pelo que a grafia é mais actual. :)
No entanto, não terá sido por isso que este livro foi uma agradável surpresa.
"A Confissão de Lúcio" é, literalmente a confissão de Lúcio, um escritor que acabou de sair da prisão e sente necessidade de colocar em papel o que o levou à prisão. Mais do que uma confissão é um relato do que se passou, não para se justificar aos outros mas para que toda a história de certa forma se torne mais real, em toda a estranheza que a envolve.
Lúcio vai estudar Direito para Paris, onde muitos intelectuais da época acabavam por fazer os seus estudos, e onde voltavam amiúde para estar em contacto com uma sociedade menos repressiva que a portuguesa. Na realidade, e à semelhança de muitos dos seus colegas, Lúcio gosta é de escrever e tem já alguns textos publicados.
Lá conhece Ricardo, um poeta, e a afinidade que nasce entre os dois é imediata, tornando-se inseparáveis, sendo raros os dias em que não estão juntos.
Ricardo revela-se uma pessoa amargurada, obcecado pelo facto de não ser capaz de sentir pelos outros mais do que ternura, incapaz de parar de pensar, de racionalizar. Incapaz, nas próprias palavras, de amar, de se apaixonar, de ser amigo de alguém. Para ser amigo de alguém, uma vez que apenas sente ternuras - "uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar... de estreitar... Enfim: de possuir!" - teria de "possuir, quem eu estimasse, ou mulher ou homem.". Lúcio, embora estranhe a confissão do amigo, nada diz que possa perturbar ainda mais o amigo.
E é desta relação que vive o livro, da dinâmica entre os dois. Ricardo está nitidamente apaixonado por Lúcio e tenta encontrar uma razão para o que sente bem como procurar um caminho que lhe permita "sentir" de facto a sua amizade por Lúcio. E é aí que surge Marta, supostamente a mulher de Ricardo, mas que acaba por seduzir Lúcio, tornando-se sua amante.
E sobre a história não vale a pena dizer mais nada.
A personagem de Lúcio fez-me lembrar Raskólnikov, do recém lido "Crime e Castigo". Pela crescente loucura e constante perda de noção da realidade. Não sabemos o que realmente se passou ou não passou. Com Lúcio passa-se mais ou menos o mesmo. Vê-se envolvido numa espécie de sonho, envolto numa neblina que não lhe permite distinguir a realidade. E é dessa forma que descreve os seus dias em Lisboa, como os lembra, envoltos numa neblina e em confusão mental.
Foi uma boa surpresa este livro, pelo tema e pela forma como este é abordado. Recomendo.
Boas leituras!