Memória de ninguém é sobre uma mulher em luto após a morte do pai. Prestes a completar quarenta anos, ela entra em crise profunda diante da passagem do tempo, de sua própria incapacidade de concretizar qualquer coisa. Ao retornar à antiga casa de infância, é atropelada por lembranças para as quais tenta dar um sentido: a relação com a mãe e as irmãs gêmeas, os distúrbios alimentares, as tragédias familiares, os relacionamentos abusivos. Do riso ao pranto, do grito ao silêncio, do cotidiano às questões existenciais, as memórias chegam em torvelinho. Pairando sobre elas, uma memória que, mesmo sem contorno, teima em não ser esquecida. Um trauma que parece não pertencer a ninguém.
Helena Machado nasceu no Rio de Janeiro. É bacharel em Comunicação Social pela UFRJ e atriz formada pela CAL. Roteirista e dramaturga premiada pelas peças Sexton (5º Seleção Brasil em Cena – CCBB / MINC) e Aos peixes (Festival de Teatro do Rio de Janeiro). Memória de ninguém é seu romance de estreia e teve o primeiro capítulo publicado na Revista Granta.
“Parece um carretel essa coisa das lembranças, a gente acha a ponta do fio e de repente sai puxando”, diz a certa altura a narradora-protagonista de Memória de Ninguém, primeiro romance de Helena Machado. Essa frase bem resume a estrutura do livro, que se dá pelo fluxo da memória dessa personagem a partir da morte do pai. O tempo é um estilhaço aqui, a narrativa vai e volta, associações – às vezes livres – são feitas o tempo todo na cabeça dessa mulher.
Numa narrativa que transita entre a poesia e os horrores do cotidiano – este também não sem beleza –, Machado descortina a existência de uma mulher em busca de amores, em busca de sua plenitude e de si mesma. A autora, que também é dramaturga e roteirista, é mestra na escolha das palavras, mas, para mim, a força está mesmo na criação dessa personagem que se abre com tanta sinceridade para a gente.
Esse não é um romance que se lê para saber como vai acabar, embora queiramos saber como termina, mas, sim, por que queremos acompanhar a trajetória dessa personagem, seus altos e baixos, suas idas e vindas com o barrigudo do Moacir, sua relação de amor e raiva com a mãe, e também o que ela faz de seu presente a partir dos traumas que nos vão sendo revelados. Confesso que foi uma leitura compulsiva, obsessiva para mim, queria ficar o tempo todo próximo dessa personagem. E, ao fim, senti que a conhecia melhor – mas também conhecia um pouco mais da vida. Vou prestar muita atenção nos próximos projetos da Helena Machado.
que livro pesado e lindo. entrar em contato com pensamentos tão íntimos pode por vezes afastar aquele que lê, mas eu sou apaixonada pelo o que mais se tem de humano, aquilo que ninguém quer olhar. fluxo de pensamento incrivelmente cru, a personagem se despe na nossa frente. o trabalho com a memória também é incrível, como minha analista sempre me lembra: apagar nossas memórias é como apagar a nós mesmos. somos feitos do passado em constante trabalho com o presente.
Leitura não muito simples, mas bem interessante pois realmente dá a sensação de se estar no caso da cabeça de outra pessoa. Não faz muito meu tipo de livro, mas valeu a leitura
A escrita da Helena me pegou na primeira linha do livro e só foi indo mais a fundo. A fundo mesmo! Porque a personagem vai longe e a melhor coisa dessa história é se deixar ir junto com ela. Uma história sobre luto na superfície, mas sobre diversas outras coisas quando a gente mergulha. Incrível, não vejo a hora de ler mais coisas da autora.
“enquanto eu continuasse com medo de dar a cara a tapa, permaneceria na terra do nunca brincando de esconde-esconde sem conseguir terminar merda nenhuma”
Memória de ninguém causou em mim uma explosão de sentimentos. Como disse Carola no prefácio, este livro é sobre as muitas nuances possíveis do silêncio. Uma literatura ansiosa, verdadeira e genuína como sua protagonista. Melhor livro que li até agora em 2024.
Um dos melhores livros que já li na vida. Uma mistura de humor com dor, de presente com passado e futuro, de leveza e beleza no modo de escrever com a dureza dos assuntos tratados. Me emocionei, ri e me identifiquei bastante com a confusão interna da personagem, e acho que qualquer pessoa se identificaria, é um livro muito sobre todos nós, a dor da perda e a angústia diante do que fazer da vida perpassa ou perpassara cada um em algum, ou alguns, momentos. Lindo, lindo e lindo, a leitura flui perfeitamente e as frases vão nos levando a sentimentos, sensações e pensamentos tão humanos. Helena fala sobre os pensamentos confusos que fazem muito barulho no dia a dia, o quanto nossa família nos acompanha pra sempre já que somos cheios de passado no presente, dilemas relacionais e existenciais, nosso craquelamento e nunca inteireza, a finitude e o medo que viver dá. Obrigada Helena❤️
Há alguns anos eu caminhava nas ruas de Paris numa viagem solo, e durante aquela temporada ouvi muito um álbum do Chico Buarque - “sinto eu vou penar com essa pequena, mas o blues já valeu a pena”... eu ouvia tanto essa música naquela primavera enquanto sentia o vento cortante daquela cidade. Eu estava apaixonada por um "Moacir" da vida e só pensava que Chico ia se estrepar com a pequena dele, e eu com o minha paixão capenga, mas mesmo assim ele teria feito disso uma música. Todas estas memórias são (É?) o seu blues. E que canção bonita você criou. Bonita e também triste como um bom blues. Eu gosto dos primeiros pedaços, dos primeiros passos, dos primeiros livros. Gosto desse gosto agridoce que vem por ser o primeiro e por isso vem cheio de expectativa, medo e fúria. Helena, obrigada por trazer palavras tão íntimas ao mundo. Memória de ninguém é assombrosamente um espanto, um delírio, um sonho imenso. Eu estou miseravelmente feliz e preenchida, uma alegria que se encontra em parcos instantes - parafraseando você.
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Memória de ninguém é o livro de estreia da Helena Machado. A morte de um pai é o portal das memórias mais cortantes de uma mulher. Com muito humor, sexo - adorei essa parte- como é bom ler cenas de sexo nesse mundo que tá cafona demais (eu hein); a leitura é frenética porque uma ideia se encaixa na outra e na seguinte e por aí vai… ora num labirinto ora em linha reta. Portanto, tome um fôlego, beba um copo d'água - não necessariamente nessa ordem- e leia em voz alta. O ritmo das palavras vai bailar a sua voz. Experimente. É lindo.