Jorge Neto acorda com o despertador no dia de seu aniversário, escova os dentes e se corta fazendo a barba. Decidido a não sair de casa, rumina sobre a decadência do mundo à sua volta. Pode parecer que habitaremos os subterrâneos da mente desse homem amargurado, mas estamos no preâmbulo de uma história bem maior, composta de três partes que encadeiam violências concretas e simbólicas ao longo de gerações de uma família negra carioca.
A história de três homens negros de uma mesma família: Jorge Ferreira Neto, Jorge Ferreira e Jorge Ferreira Filho. Em comum, além do parentesco, vivências atravessadas pelo racismo.
Ambientado no Rio de Janeiro e em Friburgo, Cadu se utiliza de sua formação como historiador para revelar a cidade de Friburgo. Costumo dizer que amo livros com carga histórica, e esse me deu uma aula sobre a formação da cidade (e algumas horas no Google pesquisando).
Uma voz narrativa potente, com uma oralidade gostosa, real. Uma ironia fina, que exige uma leitura atenta. São tantas camadas nessas três histórias. E muita angústia.
Ri, chorei, terminei com o estômago embrulhado, com raiva. Fica complicado expressar tudo que a leitura me causou, portanto: se vocês confiam no que indico, deem uma chance para esse livro, vocês vão se surpreender!
esse menino que um dia eu já fui, desde aquele tempo eu já deixei de ser. e nem precisava de intervalo assim tão longo de tempo, trinta anos, poderia ser apenas um, ou sete meses, ou duas semanas, cinco dias, quarenta minutos, não faria diferença.
Para mim é um exemplo eloquente de como essa "tática" da literatura atual de fazer capítulos ou partes com vozes distintas pode dar muito errado. Pode ser "cool" escrever dessa maneira, mas grande parte dos romances atuais seria muito melhor caso se limitasse a contar uma história do início ao fim, em vez de se perder em vozes e narrativas, na tentativa de criar algum tipo de mosaico de histórias do qual emergiria alguma espécie de "sentido maior" que, idealmente, faria o leitor pensar "ducaralho!".
Esse romance em especial é composto de três partes, que são três histórias, e apenas a primeira delas me agradou (aliás, me agradou bastante, pela linguagem dinâmica, e entendi que mesmo a aparente banalidade dos comentários do narrador tinha um efeito estético e conduziria a boas reflexões). Na segunda parte, porém, a coisa muda, a história se desloca para o avô homônimo do personagem, e ali a linguagem não funcionou da mesma maneira (e eu deixei de gostar do livro).
Veio ainda uma terceira parte, focada um pouco no pai do personagem, mas mais no período em que esteve em uma espécie de colégio preparatório para militares e, a despeito de momentos até interessantes ao denunciar a perversidade e a irracionalidade de tais instituições, não cheguei a ver uma grande trama, e menos ainda um fio narrativo que ligasse as três histórias. Acho que não houve uma ligação eficiente e que certas pontas ficaram irremediavelmente abertas.
Então, como aconteceu outras vezes, eu gostei da história até o momento em que, atendendo às exigências da literatura moderna, ela se transformou em uma coisa completamente diferente.
A primeira parte é um 5, a segunda, um 4, mas a terceira é um 3 e caga um pouco. O começo é ressentido e arrastado, marcado por um trabalho da memória no plano de fundo das descrições de um cotidiano miserável que é de uma habilidade incrível. A construção mitológica do segundo capítulo é interessantíssima também. O terceiro já é um pouco mais complicado e parece ser muito forçado, chegando a ser piegas certas horas.
A concepção narrativa de Agora Agora , quando li a sinopse, agradou-me bastante: três gerações de homens - avó, pai e filho - que se misturam e se confundem nas mesmas pulsões e tragédias.
Bom, a concepção é interessante. A obra final de Carlos Eduardo Pereira, no entanto, é decepcionante.
A primeira e última parte do livro eu achei enfadonha e tive dificuldades para engatar e continuar a leitura. Gostei mais do miolo da narrativa, quando há ênfase na história da mãe de Jorge (avó), Catirina, escravizada que foge e torna-se prostituta. Além disso, a sugestão de . Após essa segunda história, o livro fica bem desinteressante (toda aquele segmento final do PREP da FAB foi bem chatinho).
Senti falta de mais mulheres na narrativa (as que surgem, mesmo que de relance, trazem mais possibilidades para uma narrativa mais instigante).O ponto, acredito, é que todos os homens dessa história não são tão complexos como promete essa ficção de ascendência e descendência masculina.
Não gostei do narrador. Achei-o antipático (não no sentido "nossa, que amargurado interessante", mas sim "bah, que condução chata"). A escrita é ok, nem boa nem ruim.
Não me sinto inspirada para escrever uma resenha mais interessante sobre esse livro. Tive muita expectativa e só tive decepção.
O livro traz uma voz narrativa muito potente e um personagem, o avô, que é uma figura muito original. Agora agora é uma das obras mais interessantes que li recentemente na literatura contemporânea brasileira.
“Os grandes inventores da cidade do Rio de Janeiro rufavam tambores”, diz uma crônica do Luiz Antonio Simas.
Agora Agora é dividido em três gerações de Jorges Ferreira cujas vidas ajudam a contar uma história extra-oficial do Rio de Janeiro. A frase do Simas ecoou pra mim especialmente com o primeiro deles, o avô, trabalhador braçal, filho de ex-escravizada e fundador de um clube que mistura todas as culturas marginalizadas que formam a alma carioca.
As gerações não são contadas de forma cronológica, mas se misturam temporalmente. A influência que a autoridade - paternal, mas também de instituições externas - causa na formação de cada um é muito interessante, e vejo que contribui pra entender como chegamos a essa realidade caótica e polarizada que é própria do Rio de Janeiro, mas que também espelha o Brasil.
Não por acaso, o livro me lembrou da relação entre pai e filho de O Avesso da Pele, e dos traumas gerados pelo racismo no exército de Marrom e Amarelo.
Não poderia encerrar sem falar que o tratamento de linguagem desse livro é uma delícia. A ironia fina do discurso anti-PT e pró-Bolsonaro arraigado nas instituições militares ressoa com os acontecimentos do 8 de janeiro.
Livro complicado... uma viagem no tempo visando à ancestralidade do personagem. O presente, o futuro e o passado atrelado à história que se desvenda só no último capítulo. Nos mostra como as experiências tornam a pessoa e mostram também como o homem pode se tornar preso na narrativa da extrema direita se não se tem cuidado com o que se pensa, com o que se faz. Um livro que retrata bem a realidade do nosso Brasil de agora!
No dia de seu aniversário, um sujeito chamado Jorge acorda, escova os dentes, faz a barba. Corta o rosto acidentalmente. Pensa sobre as compras do mercado. Resolve não sair de casa. Em um longo solilóquio, ele parece conversar com alguém que não está ali. Aos poucos entendemos: ele mantém um diálogo imaginário com um homem que causou um trauma a ele, há trinta anos, mas cuja participação na sua história e de sua família saberemos mais adiante.
Jorge, o narrador, é um homem negro que tece, na primeira parte do livro, suas elucubrações sobre a vida e sobre o que acontece hoje no Brasil. Este é um cidadão típico do seu país, que tem suas opiniões vazias sobre política, que vê conspirações pelo ar, que navega em grupos de WhatsApp e não parece se importar muito sobre se o que circula por lá é verdade ou não.
Ele opina: “você sabe, meu amigo, que isso não pode ser bem assim. O mentiroso pode estar perdido, pode ser que ele apenas suspeite, não tenha certeza absoluta, de que aquela informação seja falsa. A mentira faz parte, ela está presente na vida de todos que desejam um convívio social minimamente razoável (…). A mentira é ferramenta de consolo”.
Assim começa Agora Agora, segundo romance do escritor carioca Carlos Eduardo Pereira, publicado pela editora Todavia, que constrói um intrincado caleidoscópio familiar que amarra três Jorges: o neto, o avô e o filho. Os três são homens negros cujas existências atravessam os momentos históricos do Brasil, em que os contextos sociais se reconfiguram, mas algo sempre permanece: a opressão às pessoas negras, seja ela evidente ou velada.
O resultado do plano imbricado pelo escritor para contar esta história é o nascimento de um romance muito inspirado, em que humor e tragédia caminham juntos. Mas, sobretudo, o que se vê é um retrato muito bem engendrado que conta a história deste país.