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«Mathilde envelhecera […]. A pele do rosto, constantemente exposta ao sol e ao vento, parecia mais grossa. A testa e os cantos da boca estavam cobertos de rugas. Até o verde dos seus olhos perdera o brilho, como um vestido usado demasiadas vezes. Engordara. Para provocar o marido, num dia de calor abrasador, pegou na mangueira do jardim e, debaixo do nariz da criada e dos trabalhadores, regou-se da cabeça aos pés. As roupas colaram-se-lhe ao corpo, deixando ver os mamilos eretos e o velo púbico. Nesse dia, os trabalhadores rezaram ao Senhor, passando a língua entre os dentes enegrecidos, para que Amine não enlouquecesse.»
1968, Marrocos: Mathilde, alsaciana, e Amine, oficial do Exército marroquino, são um casal com uma longa história atrás de si e um incerto futuro pela frente, à imagem do país onde vivem. Esta é a história de uma família hesitante entre a tradição e a modernidade, protagonizada por uma mulher enredada entre duas culturas, sufocada pelo conservadorismo do país onde escolheu viver e dividida entre a dedicação à família e o amor à liberdade. É também a história de um país que acabou de conquistar a independência e que procura o seu lugar, entre o espartilho religioso e o fascínio pelo Ocidente, entre a repressão e o hedonismo.
Leïla Slimani, uma das vozes mais importantes da literatura francesa, regressa à história da própria família para construir um romance cheio de personagens inesquecíveis e imagens fortes. Retratando um tempo e um lugar em que ressoam os ecos do Maio de 68 e as mulheres encetam o pedregoso caminho da emancipação, a escritora reafirma a sua impressionante destreza narrativa e o olhar clínico sobre a intimidade.
344 pages, Paperback
First published February 3, 2022
Derrière chaque chemise repassée, chaque chaussure cirée, derrière chaque ventre gras et dépassant de la ceinture, elle voyait des mains de femmes. Des mains plongées dans des eaux glaciales et frottant au savon des manches tachées de sauce. Des mains couvertes de petites traces de brûlures ou de plaies qui ne cicatrisaient pas.
Behind each ironed shirt, each polished shoe, each stomach gross and hanging over a belt, she saw the hands of women. Hands plunged into icy water and rubbing soap into sleeves stained with sauce. Hands covered with small traces of burns or wounds that did not scar.
Сад был ее логовом, ее убежищем, ее гордостью. Она играла там со своими детьми. Они все вместе спали днем под плакучей ивой, устраивали пикники в тени бразильской гевеи. Она научила их искать всякую живность, скрывавшуюся в траве и кустах. Находить сов и летучих мышей, хамелеонов, которых дети сажали в картонные коробки, а потом, спрятав под кровать, забывали про них, и те умирали. Дети выросли, им наскучили их игры и ее нежность, и теперь она приходила сюда, чтобы забыть об одиночестве.
Они каждый вечер ходили танцевать в клуб на берегу. Иногда доезжали до набережной Ла-Корниш и отправлялись вилять бедрами в одном из клубов, где пятнадцать лет назад у входа висела табличка «Марокканцам вход воспрещен». У бортиков самого большого в мире бассейна девушки в бикини участвовали в конкурсах красоты и получали титулы «Мисс Таити» или «Мисс Акапулько». Компания Анри ходила на концерты эстрадных ансамблей, выступавших в стиле йе-йе, или знаменитых американских исполнителей. Марокканские певцы зачесывали назад курчавые волосы, густо их напомадив, и брали напрокат в лавочке в районе Маариф пиджаки с блестками. Всю ночь в клубе «Балкон», или в «Тюб», или в «Нотте» Анри с друзьями танцевали под песни Элвиса Пресли или группы The Platters и обнимали своих девушек, слушая голос Жильбера Беко.