Kiumba foi a segunda obra do Everaldo que li, depois do conto Um Mau Menino que li alguns dias antes. Tendo em vista a pequena surpresa que tive com o conto, eu não sabia bem o que iria ter pela frente em Kiumba apenas pela sinopse, mas agora posso afirmar que foi uma das melhores surpresas que tive no ano.
Aqui temos um romance histórico que se passa no Rio de Janeiro durante a década de 30, no início da Ditadura Vargas. Acompanhamos Bento, um jovem negro assombrado por fantasmas desde criança, e que após encontrar um deles em carne e osso decide compreender o que são aqueles que o perseguem há anos.
Durante a leitura, duas coisas me chamaram muito a atenção aqui: a primeira, é que a escrita do Everaldo é assombrosamente incrível, de deixar MUITO escritor gringo famoso no chinelo. Dá pra perceber que as palavras são cuidadosamente escolhidas, e isso se transmite em todas as sensações e sentimentos que você vivencia durante a leitura. A segunda, é que a verossimilhança que há aqui também é algo de se tirar o chapéu. Eu realmente fiquei me perguntando em como assim o Everaldo não viveu no Rio em 1937 antes de escrever esse livro.
Para além desses aspectos mais técnicos, a história aqui também é fantástica. Conforme vamos conhecendo o porquê dos fantasmas que assombram Bento vamos tendo um misto de sentimentos: raiva, nojo, frustração, assombro... Alguns momentos são realmente difíceis de se ler, de revirar o estômago, mas são apenas o reflexo de uma história que nosso país ainda se nega em encarar.
As personagens, por sua vez, se mostram muito humanas e reais, em especial Bento. Por uma visão impessoal e de fora, é fácil, julgá-lo, mas conforme você o conhece e entende suas motivações, a única coisa que você pode pensar é que tudo o que ele faz é compreensível. Lourenço, amigo de Bento, é outro que vemos suas camadas de complexidade ao longo da trama.
Por fim, o único ponto de crítica negativa aqui, mas que sinceramente não julgo que seja algo que influencie na experiência de leitura ou que faça dar uma nota menor, é que a segunda parte exige um pouco mais de atenção durante a leitura para que possa ser bem compreendida.
E é isso, Kiumba é um horror nacional que merece toda a atenção e destaque possível, por se propor a tocar em pontos da nossa história que tão poucos ousam, mas de forma tão bem feita.