Mikaia, romance de estreia de Taiane Santi Martins e vencedor do Prêmio Sesc de Literatura de 2022, narra, através da busca de Mikaia, uma dançarina de balé que sofre uma amnésia repentina, a história de três gerações de mulheres que viveram e fugiram da guerra civil moçambicana. Narrado por múltiplas vozes, o livro joga com as diferentes maneiras de se lidar com um passado traumático, pois, enquanto Mikaia quer lembrar, sua irmã, Simi, quer esquecer e sua avó, Shaira, decide silenciar. O desenrolar da trama se dá no embate entre as tentativas de Mikaia em recuperar um passado que lhe foi roubado, os retalhos de memória que lhe voltam confusos, e a resistência de Simi em renunciar a uma infância inventada e cultivada por vinte anos às custas do esquecimento.
O livro transita por temas como o corpo, a dança e a violência contra a mulher, a guerra, a construção da memória e a identidade cultural, além de discutir o olhar do Brasil sobre a cultura moçambicana, já que Mikaia vive o dilema de se sentir brasileira ao mesmo tempo que precisa reaprender o que significa ser moçambicana. Nesse sentido, assim como a personagem central transita entre identidades e pertencimentos, deslocando-se entre os oceanos Índico e Atlântico, a construção de linguagem do romance também transita entre as variantes do português brasileiro e moçambicano – e sua língua materna, o emakhuwa, torna-se elemento central nesse movimento de resgate.
No texto de orelha, Luciany Aparecida e Itamar Vieira Junior escrevem:
“Ao trazer como protagonistas mulheres negras que desejamos amar e escutar, o romance recria na dimensão literária histórias que nos foram tiradas por tempos de brutal invisibilidade. Se à primeira leitura Mikaia parece apresentar uma história sobre silenciamentos, ao final se entende que este é um romance de fala e, portanto, uma história que deve ser ouvida. Que possamos parar e escutar Mikaia, sentir com o corpo e o coração seus movimentos de esperança.”
Senti um pouco de dificuldade em conectar com o livro no começo e quase desisti de ler, mas por ter gostado tanto do parágrafo inicial, insisti na leitura e não me arrependo! A escrita é muito bonita e a falta de pertencimento da Mikaia é muito bem construída ao longo do livro, especialmente quando ela está preenchendo o formulário para o visto, em que ela fala que já foi africana tantas vezes e agora precisava pROVAR sua nacionalidade; me identifiquei muito com essa parte e também lembrei de uma música dos Titãs, Lugar Nenhum. Meu pai gosta muito deles e me mostrou essa música quando eu era criança, dizendo que essa música era muito a gente que, como descendentes de japoneses, não somos vistos como brasileiros aqui e nem mesmo chegamos perto de ser japoneses; sentimento idêntica ao da Mikaia que depois de ter passado a vida toda sendo lida como pertencente a inúmeros países africanos, é facilmente apontada como brasileira ao chegar em seu país de origem. O final, sinceramente, me decepcionou um pouco, porque depois de ter passado a gostar tanto da história, ter tido esse final brusco foi bem... decepcionante. Achei, por alguns momentos, que Mikaia fosse suicidar e teria sido uma morte muito bonita, embora pouco significante para o desenvolvimento da história, já que reforçaria todo o trabalho da Simi de ter escondido tudo da Mikaia, de que o passado não valia a pena ser lembrado por seu doloroso, que fazia Simi querer vomitar os órgãos e Mikaia se matar. Sei que os traumas da Simi e da avó delas não têm resolução, mas não vimos nem mesmo Mikaia voltar para elas com o que resgatou de sua memória. O livro termina no mesmo lugar em que começou, no limbo entre os dois países e, ainda, dentro da água, onde há discussões sobre até onde as águas pertencem a qual Estado.
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Livro tem um enredo interessante, mas acho que as histórias paralelas, que envolvem os outros personagens que aparecem no início até o 1/3 do livro, são deixadas de lado. O principal percorre, mas seu final não possibilita que todo o resto, esquecido (propositalmente?), seja justificado.
Mikaia, de Taiane Santi Martins; e Corpos Benzidos em Metal Pesado, Pedro Augusto Baia. Além de vencerem o Prêmio Sesc, as obras estiveram estão na lista das 10 melhores de 2022 nas categorias Romance e Conto, respectivamente, da Revista Bula.
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I am not giving 5 stars only because the book is short for its potential. It left me wondering about the healing process of Shaira and Simi. However, the story is amazing, literally breathtaking, very well written, a mix of prose and poetry like I haven’t seen for a longtime.
Me pareció un libro interesante pero el hecho de ser historias paralelas no está bien resuelto. Me costó entenderlo al principio. El final me pareció muy predecible.