Divertido e estressante.
O subtexto é clássico dos romances urbanos da época, sobre condições de vida precárias mesmo para quem tem uma situação um pouco melhor - o protagonista é um funcionário público. Mas a narrativa é muito bem construída - inclusive, em alguns momentos, o jogo de ironias me lembra um pouco uma prosa Machadiana -, o desespero do personagem te leva junto a pensar "puta merda, será que vou arrumar o dinheiro do leite?", o jogo como alternativa faz pensar sobre hoje, em que o Tigrinho é logo ali, e a felicidade da esposa quando o marido chega em casa com manteiga e queijo me alucina de pensar que ainda hoje são itens que não estão na mesa de qualquer trabalhador.
As voltas dadas na cidade, num dia que nunca termina, e a barriga sustentada por um cafezinho, avivam a agonia que quem é ou já foi fodido entende bem. E mesmo assim, Naziazeno é um péssimo funcionário, que parece não dar valor ao trabalho que tem, e suas péssimas escolhas provocam tanto um pouco de compaixão, pela honesta estupidez, quanto raiva, porque além de não resolver o problema, dele dependem sua esposa e seu filho pequeno.
É um romance divertido pela maneira como o autor narra os acontecimentos, mas é trágico o contexto e estressante acompanhar o homem brasileiro médio tentando fazer alguma coisa direito (até quando acerta erra). Enfim, o final me deu um pouco de alívio, mas segurei a respiração até o final, tal qual Naziazeno, pensando "meu Deus, será que os ratos...".