Berardi escreve este ensaio no meio da pandemia de Covid-19 na Itália, um dos países mais afetados, depois da China, nos primeiros meses de 2020.
Nesse contexto, o filósofo vislumbra o colapso do capitalismo a partir do colapso dos corpos e das mentes e de uma lógica produtivista forçada a desacelerar e inclusive a parar completamente pelos efeitos do virus.
Na tese do italiano, o capitalismo foi colocado em xeque não pela vontade política e revolucionária doutros momentos históricos, mas pelo efeito de um corpúsculo não humano: o virus.
A consequência desta parada brusca deveria ser o abandono definitivo das lógicas neoliberais de crescimento, vontade e desejos hiperestimulados, em benefício de conceitos como frugalidade, amizade e prazer.
Lido em 2024, o diagnóstico de expressado por Berardi mostra-se errado nas consequências, mas acertado nas causas: num contexto de calamidade climática, efeito já indiscutível da crise do clima anunciada há décadas, e que nestes loucos anos 20 mostra a sua cara com efeitos devastadores um pouco por todo o mundo, confirma-se o fracasso de um modelo que só nos oferece aceleração infinita, mas não se consegue vislumbrar a mudança de rota proposta no livro. Bem pelo contrário, o autoritarismo e a crença ilusória na tecnologia como solução milagrosa a todos os males, parece continuar campando na psicoesfera definida por Berardi.
O livro, em último termo, nos defronta com o desafio civilizacional contemporâneo, que passa pela necessidade de conexão física e de encontrar fontes de felicidade num contexto que nos demanda a consciência da nossa fragilidade e a certeza do perigo de extinção enquanto espécie com a crise do clima como sintoma mais evidente do colapso civilizatório.
Pareceu-me especialmente interessante a parte final em que reflexiona sobre a velhice e a morte, entendida como um devir que dá real sentido à vida.
No entanto, alguns conceitos interessantes, como a automatização linguística, mereceríam, do meu ponto de vista, mais aprofundamento. Igualmente, as referências poderiam ser mais diversificadas, de modo a tornar as reflexões mais abrangentes, pois elas ficam muito dependentes de meia dúzia de teóricos do hemisfério norte, na contramão do que o próprio Berardi critica.