Onde termina a culpa e começa a expiação? Em Nova Iorque, um estudante apaixona-se por uma rapariga enigmática com quem vive uma intensa relação. Mas a morte desta, inesperada e violenta, enche o protagonista de culpa e remorso, lançando-o numa espiral descendente até o transformar num vagabundo, sem dinheiro e sem posses. Prisioneiro do Memory Hotel, um pardieiro da baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas como ele próprio, é contratado por Samuel, um milionário excêntrico, para procurar um fadista português emigrado para os estados Unidos quarenta anos antes.
Tendo Nova Iorque como pano de fundo, dos anos sessenta até ao presente, e criando a figura inesquecível de Daniel da Silva, o fadista que conquista Manhattan com o seu talento, Hotel Memória é, ao mesmo tempo, um romance de mistério e aventura nos meandros da condição humana - uma história simultaneamente intrigante e comovente, que lida com os fantasmas da memória, da culpa e da redenção.
João Tordo was born in 1975. He has published twenty-one books - novels, crime novels and essays - and received several awards, including the José Saramago Literary Prize 2009, the Fernando Namora Prize 2021 and the GQ Prize. He was a finalist for many other awards, including the European Literary Prize, the Fernando Namora Prize, the Oceanos Prize and the PEN Club Prize. His books have been published in several countries, including France, Italy, Germany, Hungary, Spain, Croatia, Serbia, Czech Republic, Mexico, Argentina, Brazil, Uruguay and Colombia.
João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Publicou vinte e um livros - divididos entre o romance, o policial e o ensaio - e recebeu diversos prémios, incluindo o Prémio Literário José Saramago 2009, o Prémio Fernando Namora 2021 e o Prémio GQ. Foi finalista de muitos outros prémios, incluindo o Prémio Literário Europeu, o Prémio Fernando Namora, o Prémio Oceanos e o Prémio PEN Club. Os seus livros foram publicados em diversos países, incluindo França, Itália, Alemanha, Hungria, Espanha, Croácia, Sérvia, República Checa, México, Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia.
Ler este livro é como espreitar por uma porta entreaberta, tive a sensação de estar a ler algo que não deveria, a folhear as páginas de um diário às escondidas. O protagonista é levado a todos os limites: do amor, da culpa, da dor física, do sofrimento. A certo ponto torna-se difícil acompanhá-lo, vê-lo levar tantos pontapés (alguns literais) e manter-nos à margem. Nessa altura há qualquer coisa que nos faz vaguear pelas divisões da casa, como se procurássemos desesperadamente uma solução, uma saída. Acompanhamos um estudante recém-chegado a Nova Iorque que parece dar por si em situações cada vez mais difíceis de resolver, como se a sua vida se fosse tornando num novelo impossível de desembaraçar. E nós sabemos, logo ao princípio sabemos que vai tudo correr mal. Ler este livro é como caminhar por um túnel escuro onde pressentimos sombras e fantasmas que nunca se revelam, pelo meio surge o cheiro a queimado e vamo-nos perguntando "o que estará a arder?".
Hotel Memória é o pior sítio do mundo para o protagonista, pois ele conhece o seu passado e parece adivinhar os seus maiores receios. Quando ele chega a este lugar já está destruído, pensamos nós. Mas não, há sempre um pedaço que permanece intacto e no Hotel Memória todos eles são impiedosamente destruídos. Porém o livro não vive só deste rapaz, temos personagens marcantes como Daniel da Silva (um fadista português desaparecido), Samuel (um excêntrico milionário russo), Kim (a rapariga enigmática) entre outras personagens secundárias igualmente memoráveis. Assim, neste livro o autor consegue combinar um pouco de quase tudo: mistério, aventura e policial com uma preocupação pelo desenvolvimento dos personagens que normalmente não encontramos neste género de livros.
No meu caso, como fiz a viagem ao contrário (começando pela trilogia) está a ser duplamente interessante descobrir as bases que lhe permitiram torna-se naquilo que é hoje: um belíssimo escritor.
Vale a pena procurar por este livro nos sítios mais improváveis, actualmente não se encontra à venda mas faz muita falta nas prateleiras.
"Quando o medo tomou conta, a primeira coisa a desaparecer foi o tecto sobre a minha cabeça."
"Nunca tiveste aquela sensação de amares alguém, de amares alguém muito, e de as circunstâncias em que a tua vida acontece destruírem a possibilidade desse amor, apesar de ele continuar a existir dentro de ti?"
"... concluía que a solidão não era um estado de espírito, mas a ausência dele..."
«É aqui que a minha história começa. Ao mesmo tempo, é neste ponto que tudo termina.» Hotel Memória de João Tordo Achei muito interessante este livro que está dividido em duas partes na primeira o nosso narrador apaixona-se por uma mulher e depois de uma noite de amor acontece um acidente terrível pela qual ele se culpabiliza caindo em desgraça . Bebe muito perde tudo e acaba na rua , espancado perdido e completamente destruído quando está quase a desistir da vida encontra um homem que lhe oferece um trabalho de detetive e aqui começa a segunda parte , uma mistura de policial e mistério onde o narrador passa por peripécias impensáveis e dolorosas , durante uma investigação vertiginosa. Passado em Nova Iorque na década 60 até aos anos 2000 onde a música e o perigo das ruas está muito presente Gostei muito deste livro que tem nele os dois temas que o autor costuma utilizar em separado nas suas obras. Um homem deprimido e completamente destruído , o que mais gosto nos livros dele , e a parte policial e de investigação . 4 estrelas
Ennél biztosabbra menni – én nem tudom, lehet-e egyáltalán: fogjuk a szépirodalmat, és összeházasítjuk a második reneszánszát élő krimi noirral. Nem egy nagy vaszisztdasz az egész, csak a nyomozót kell behelyettesítenünk valami elcseszett bölcsésszel (egyetemről kihullott, lelkibeteg irodalomszakos – az pont jó lesz!), aztán nyakon öntjük rejtéllyel, fájdalommal, gyilkossággal, időn és téren átívelő nyomozással, és már meg is vagyunk. A zsáner már csak azért is kompatibilis a posztmodernnel, mert mindkettő az olvasó elbizonytalanítását tűzi ki célul, a posztmodernnek pedig még meg is van az az előnye, hogy nem kell a végén megoldani az ügyet, elég, ha elkenjük szépen – az úgyis olyan posztmodern. Szóval sokat vártam ettől a könyvtől, de ehhez képest keveset kaptam – nem volt ez rossz persze, sőt inkább jó, mint rossz, csak épp a benne rejlő potenciált nem sikerült kihozni.
Kezdjük ott, hogy Tordo talán belefeküdhetett volna jobban a krimi-szálba. Már azt sem éreztem különösebben hitelesnek, hogy a milliomos épp egy szánalmas T. S. Eliot-rajongó egykori egyetemistát szúr ki magának egy olyan nyomozás elvégzésére, amibe eddig mindenkinek beletört a bicskája*. Az pedig, amit az elbeszélő nyomozati munka címén végez… hát… elég halovány: addig-addig közli boldog-boldogtalannal, hogy „Jó napot kívánok! Én Daniel da Silvát keresem, nem látta véletlenül?”, amíg szét nem verik a pofáját. Bravúros, mi? A szépirodalmi elemek sem nyűgöztek le igazán, de ez már tényleg az én szubjektív magánproblémám. Az még teljesen rendben van, hogy a könyv harmada az elbeszélő lecsúszásának ábrázolásával telik el (jól is van megírva), és voltaképpen az is megbocsátható, hogy a krimikben szokásos „körvonalazás” aktusa (amikor a nyomozó és az olvasó úgy nagy vonalakban rájön, kábé mibe is csöppent) csak 50 oldallal a vége előtt történik meg egy ún. talált kézirat segítségével. Amúgy én igazán szeretem a talált kéziratokat, főleg ha vendégszövegként, egyfajta pszeudoidézetként vannak a regénybe illesztve, viszont kevésbé hatnak rám, ha a főhős csak úgy saját szavaival elmeséli, mit olvasott bennük – ráadásul egy hatvan oldalas blokkban. Ilyenkor azt érzem, a szerzőnek nem volt elég tudása, hogy az elsődleges elbeszélőén kívül egy második elbeszélői síkot is létrehozzon (lásd: A Mester és Margarita). Amúgy meg elvoltam a könyvvel – csak épp végig éreztem egy rést (ha nem is szakadékot) aközött, amilyen szenvedésekkel megverte Tordo a szereplőgárdát, és aközött, ahogy képes volt átélhetővé tenni ezeket a szenvedéseket. Majd legközelebb, biztos.
*Erre kapunk később magyarázatot, de engem az sem győzött meg. Kukacoskodó vagyok, na.
Desde cedo (sendo este o segundo romance que ele publicou), o João Tordo prova que consegue escrever histórias muito bonitas com coisas muito feias.
Foi interessante "voltar" a Nova Iorque depois de ler "O nome que a cidade esqueceu". Embora com histórias muito distintas, dá para perceber algum paralelismo de elementos.
3.5* Para quem já leu a sua mais recente obra «Ensina-me a voar sobre os telhados», torna-se complicado gostar ao mesmo nível desta mesma. O estilo e os assuntos semelhantes, próprios da narrativa de Tordo, continuam a fascinar. Este livro fala-nos de perda, da tentativa de superação e leva-nos a investigar um passado que, assim como tudo, se relaciona com a ciclicidade da vida.
Hotel Memória é uma história sobre o drama da culpa...O verso e o reverso desse sentimento (?).É um enredo que tarda a acontecer.As poucas personagens mantém a expectativa até ao final... Obsessão e Culpa.Castigo.Em Nova Iorque,a partir dos anos sessenta !
“Hotel Memória” é um romance envolvente, com personagens complexas e uma história intrigante. O autor consegue criar uma atmosfera de suspense e mistério que prende o leitor até ao fim. Na minha opinião, já aqui a querer de alguma forma, enveredar por algo mais “noir”.
O livro aborda temas bastante interessantes, como a identidade, a memória, o remorso e a redenção. Através da história do narrador, o autor explora a forma como o passado pode assombrar o presente e como a culpa pode destruir a vida de uma pessoa.
Apesar de não ter ficado no meu lote de favoritos, “Hotel Memória”é um livro recomendado a todos os que apreciam uma boa história de mistério que nos deixa a pensar após a sua leitura.
É o quarto livro do português João Tordo que acabei de ler e é o primeiro ao qual atribuo cinco estrelas, sem receio de o colocar nessa classificação. O Hotel Memória é uma relíquia na literatura portuguesa contemporânea, ninguém pode dizer o contrário. Ainda não havia sinal do Prémio José Saramago (não podemos negar que foi a partir desse galardão que o nome do escritor passou a estar debaixo das luzes da ribalta e dos críticos), mas já se sentia a qualidade da história apresentada. A história apresenta várias fases: o romance entre o protagonista e Kim; a investigação sobre o fadista desaparecido em Manhattan; a perda do olho e a descoberta da verdade. São estes os pontos chaves que me prenderam a atenção durante as pouco mais de duzentas páginas. João Tordo escreve bem. E quando digo isto não estou a fazer um elogio forçado, estou a ser simples e completamente direto com as minhas palavras. João Tordo, tu escreves maravilhosamente bem e sabes como usar as palavras e onde as colocar. Embala o leitor em ação quando menos espera, vira a história de pernas ao ar e dá tempo para respirar no fim. Respirar e dar um pouco de serenidade. Aconselho vivamente a todos a leitura deste Hotel Memória. O livro contém a dose certa de solidão, vingança, individualidade e diria mesmo maldade dentro do ser humano. Cinco estrelas, sim senhor!
PS - Afinal não é o meu primeiro livro do João Tordo ao qual atribuo cinco estrelas. Sempre soube que a Anatomia dos Mártires me tinha marcado!
O meu primeiro contacto com João Tordo, há uns anos, foi, de forma curta e simples, mau! Contam-se pelos dedos os livros que não consegui terminar e o “As Três Vidas” foi um deles. Na altura não consegui entrosar-me na história ou sentir qualquer empatia pelos personagens. No entanto, participei recentemente em duas masterclasses do autor, que adorei, e fiquei com uma enorme curiosidade de voltar a experimentar uma obra dele. E o “Hotel Memória” serviu como um ponto de viragem. Adorei o livro, a história é maravilhosa, se bem que meio tresloucada por vezes, as personagens são marcantes e a escrita é muito, muito boa. Foi uma agradável surpresa! Irei, certamente, ler outros livros do autor e, quiçá, dar uma nova oportunidade ao malfadado “As Três Vidas”.
Já li alguns livros do João Tordo e tenho a dizer que este não foi um dos que mais gostei, no entanto, é uma narrativa interessante e excitante! As histórias de amor são trágicas (o que me deixa triste e desinteressada) mas apenas mostra a realidade da vida. Nem toda a gente pode ter finais felizes. Mostra-nos também o impacto que a morte e a solidão tem nas pessoas, sempre com aquele toque psicótico que me deixa com medo de ler as suas obras de noite... No geral, um bom livro, uma rápida leitura e um bom tempo passado.
“Tudo era memória. ♥️ O presente era a memória de si próprio, e era possível existir apenas se pudéssemos conservar as recordações de momentos que nunca se repetiriam.”
“… era e continua a ser, um recluso na prisão que criou para si próprio. E essa é talvez a única maneira de viver para algumas pessoas. Ou de não viver. De tentar morrer com alguma paz, vivendo em silêncio, incólumes, o pouco tempo que lhes resta.”
“Significou, para mim, que o lugar que habitávamos era a terra dos mortos, que estar vivo não era mais do que uma ilusão de não querer aceitar a morte e que a morte acontecia aqui, todos os dias, debaixo dos nossos olhos.”
A memória é um tema muito explorado nas obras e pelas personagens de João Tordo, como algo que nunca fica para trás. 'Hotel Memória' não é excepção: o passado e a culpa são fantasmas que perseguem o protagonista até ao fim. Duas histórias entrelaçam-se numa busca de redenção que transforma a vida deste protagonista anónimo e que o leva a conhecer mundos do submundo que nunca pensou vir a conhecer.
É um 3,5* Li primeiro os dois últimos livros do João Tordo, os dois thrilers e são melhores que estes, houve uma clara evolução. Se tivesse lido este primeiro provavelmente teria-lhe dado um 4 mas agora não podia, por várias razões. Primeiro, a escrita é claramente mais simples, nos últimos livros a qualidade de escrita é muito melhor. Segundo, o estereotipo do personagem principal do "Hotel Memória" é o mesmo do "A Noite em que o Verão acabou": estudante de literatura em Nova Iorque perdido da vida. Terceiro, porque a história não é tão consistente, há muitas coisas que não são muito realistas e pedaços da história que se perdem sem explicação. Mesmo o final é vazio, que futuro tem o personagem principal? Dito tudo isto, é um livro que se lê muito bem, a história envolve e a qualidade da escrita é já suficientemente boa para garantir que estamos perante um excelente escritor. Vou continuar a descobrir os livros de João Tordo, sem dúvida um dos melhores escritores da actualidade em Portugal.
Tendo em conta as obras que li de João Tordo, é um autor que mantém uma coerência que o distingue de outros, através da sua escrita e dos enredos que cria. Sou já uma fiel seguidora e este livro veio mostrar-me que estou no caminho certo. João Tordo criou um enredo com poucas personagens, fortes e bem definidas, e explora, de alguma forma, a sua obsessão, culpa e castigo, numa narrativa que mantém a expectativa até ao final. É uma leitura relativamente pesada, na medida em que foca alguns dos aspetos mais obscuros dos seres humanos, mas é isso que para mim também a valoriza.
Para mim, o melhor de João Tordo até agora. Tenho a sensação que de facto conheci alguns daqueles personagens, e que partilhámos os mesmos espaços. Final brilhante.
Hotel Memória, de João Tordo, é um livro que vive entre o sonho e a vigília — uma espécie de nevoeiro narrativo onde a realidade se esbate, as memórias ganham forma física e o tempo parece descolar-se da linha reta a que estamos habituados. A premissa é original, quase poética, e o autor constrói um ambiente tão denso e atmosférico que, por momentos, temos mesmo a sensação de estar presos dentro de um espaço que não pertence inteiramente a este mundo.
A escrita, como já é habitual em Tordo, é elegante, minuciosa, e sabe equilibrar introspeção com tensão narrativa. Há parágrafos que nos dão vontade de sublinhar — não porque sejam frases de efeito, mas porque captam coisas difíceis de pôr por palavras: perdas, desejos antigos, ou a fragilidade do que achamos que sabemos sobre nós mesmos.
Mas, apesar de tudo isto, Hotel Memória não é um livro redondo. E é aí que surge o meu 3.5. Há momentos em que a narrativa se torna demasiado circular, como se andasse a adiar o que quer contar, ou a esconder-se num simbolismo que nem sempre compensa. Essa ambiguidade pode ser sedutora, sim — mas também pode frustrar, especialmente quando sentimos que certas ideias fortes (e há várias!) acabam por não ser totalmente exploradas. Fica a sensação de que o livro quer dizer muita coisa, mas hesita em mergulhar de cabeça.
A estrutura é interessante, com ecos de thriller psicológico, mas o ritmo oscila: há capítulos muito bem conseguidos e outros que se arrastam um pouco, mais enredados na atmosfera do que na progressão real da história. Em certos momentos, tive a sensação de estar a reler o mesmo tipo de reflexão em diferentes variações — como se o protagonista estivesse preso num loop emocional. E talvez seja esse o ponto… mas nem sempre resulta em favor do leitor.
As personagens, ainda que bem delineadas, funcionam mais como arquétipos do que como pessoas reais. O protagonista carrega o peso do mundo às costas, mas há uma certa distância emocional que nos impede de criar uma ligação mais visceral com ele. Não é falta de profundidade — é mais uma questão de temperatura narrativa: tudo é frio, distante, enevoado. E isso, embora coerente com o universo do livro, pode tornar a leitura emocionalmente morna.
Ainda assim, não posso deixar de reconhecer a força do conceito central. Hotel Memória é uma metáfora poderosa para o modo como lidamos com o passado, com o trauma, com o esquecimento e a reconstrução da identidade. A ideia de um espaço físico onde as memórias podem ser revisitadas é brilhante e cheia de potencial — e mesmo com os seus altos e baixos, o livro consegue deixar marca precisamente por isso.
Veredito final? Hotel Memória é um livro que vale a pena pela sua originalidade, pela escrita de qualidade e pela coragem de criar uma atmosfera tão própria. Mas é também um livro que exige paciência, e talvez beneficiasse de um pouco mais de clareza narrativa. Não é dos mais acessíveis de João Tordo, mas tem o seu lugar — especialmente para quem gosta de histórias onde o mais importante nem sempre é o que acontece, mas sim o que se sente no caminho.
3.5 estrelas bem pensadas: não é arrebatador, mas é intrigante o suficiente para ficar a ecoar na cabeça dias depois de o fecharmos.
“Quantas mortes seriam precisas para fazer uma notícia?”
Em “Hotel memória”, o segundo romance de João Tordo, somos apresentados a um narrador e um ambiente bem melancólico, coisa que gostei bastante (vivo para um bom livro triste!) e me cativou de tal forma que li metade do livro de rajada.
“Dois meses são muito tempo na vida de um homem sem destino.”
A falta de destino do narrador vai levá-lo a embrenhar-se numa história bem estranha, dando por si na pista de um fadista português. Nesta procura do fadista, o narrador procura também o sentido da sua vida, numa trama já bem característica de João Tordo, em que várias histórias se vão entrelaçando.
Talvez por ser o segundo romance de João Tordo, senti que não foi tão bem conseguido como outros que já li. A cerca de metade do livro, o entrelaçar das várias histórias não é conseguido da melhor forma, perdendo-se um pouco o fio condutor da história principal. Foi o que senti ser mais fraquinho neste livro, se bem que, se não tivesse lido outros mais recentes com o qual o comparar, talvez o tivesse apreciado mais. Ainda assim, é uma leitura rápida e cativante, com este caráter de tristeza que vai ser uma delicia para quem gosta destes livros.
“Portava-me como se carregasse comigo o peso de muitas almas.”
Duas personagens muitos distantes temporalmente e curiosamente muito próximas pelas suas experiências idênticas. O que nos leva a pensar se será tudo uma mera coincidência ou uma curiosadade transformada em obsessão que o leva a seguir e a cair nos mesmo passos. Esperança é algo que acredito que defina esta narrativa. Quando vemos alguém que já bateu tanto no fundo e que ,de repente, parece que vemos finalmente uma brecha de luz ficamos aliviados com esse mínimo de esperança, apesar de que após tanto, as coisas nunca voltam novamente a ser como eram. As marcas já estão feitas e é o aprender e a tentar viver com isso que definem em certa parte a persistência da personagem principal.
Li-o propositadamente durante a minha curta estadia em NY. Foi muito interessante pelo facto de a trama se passar lá. Tirando esse pormenor, que só para mim teve interesse, fiquei fã do estilo do autor - o mistério envolvido, o proibido, a consequência dos actos menos bons, tudo isso me fez não querer parar de ler!
É um livro muito bem escrito, bem estruturado, com um narrador sem nome... A grande imagem de marca de João Tordo... Todas as personagens têm a sua espiral negativa, com especial foco na forma com o sentimento de culpa nos preenche e, sem dar conta, pode consumir-nos... A teia complexa em torno de Daniel Da Silva e o seu desaparecimento prende-nos até ao fim...
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Um livro que se perde na procura de um equilíbrio entre uma Nova Yorkofilia cansada e uma narrativa que tem o potencial para ser interessante, mas está deserta de personagens que nos façam querer saber. Apesar de na sua maioria cansativo e pretensioso, consegue ser bonito e cativante por vezes. Tenho de ler mais deste gajo.
Gostei bastante deste livro do João Tordo, mais fácil de ler do que a sua obra-prima (As 3 Vidas – prémio Saramago), mais terra-a terra, mas também por isso menos grandioso. Gosto da veia criativa, do mistério e do emaranhado dos enredos. Gosto da sentimentalidade com que escreve (embora me transmita um certo negativismo que procuro evitar ... por isso 2 livros do Joao Tordo em 2018 já chegam, tentarei outro em 2019!) Aconselho a leitura.
O protagonista da história é, mais uma vez, uma personagem sem nome. Neste livro o protagonista é um estudante, oriundo de uma pequena cidade europeia que deixou, rumo aos Estados Unidos, mais precisamente ruma à Big Apple, para prosseguir os estudos em Literatura. Este homem, surge-nos, desde logo, como alguém inseguro, tímido, com uma personalidade pouco vincada, que parece ter encontrado nos livros e na bolsa de estudo que conseguiu, uma forma de escapar a uma família aparentemente sufocante, que raramente é mencionada. Mesmo nos seus piores momentos a possibilidade de recorrer à família nunca é equacionada. Tudo parece correr bem e, embora não seja a pessoa mais sociável do mundo, encontra em Manuel e em Kim, a rapariga por quem se apaixona, toda a companhia de que precisa. A imagem que é passada dele é a de uma pessoa um pouco vazia de ideias próprias, sem grandes vivências próprias para além das que encontra nos livros. Kim, por outro lado surge-nos como uma miúda cheia de mistérios, de ar distante, que parece já ter percorrido um grande caminho para estar onde está. O nosso protagonista apaixona-se por ela logo no primeiro momento em que se cruzam e é uma paixão breve mas intensa, que acabam por viver. Quando Kim morre de forma inesperada e violenta, a vida deste homem muda, literalmente da noite para o dia, iniciando-se aí uma espiral crescente de loucura, alheamento e solidão. Destroçado pela perda da mulher que amava, corroído pela culpa que não consegue evitar sentir pela sua morte, soterrado em memórias do que viveram juntos e do que esperava viver ainda com ela, torna-se um homem muito só, tristemente só... A solidão é, aliás, um sentimento ou uma condição, da qual sofrem muitas das personagens criadas por João Tordo. Sem força anímica para dar uma volta à sua vida depois de Kim morrer, vira-se para a bebida e quando é obrigado a sair da residência universitária, por ter perdido a bolsa, chega a dormir na rua. Vai trabalhar em locais e para pessoas de índole duvidosa e acaba a viver no Hotel Memória, o único abrigo que consegue pagar. É no Hotel Memória que muitos dos acontecimentos têm origem e é para lá que tudo parecer tender. É lá que conhece Samuel e ouve falar pela primeira vez do fadista português Daniel Silva, um mito da cultura nova iorquina que, reza a lenda era dono de uma voz prodigiosa mas que nunca chegou aos ouvidos do grande público porque a única cópia da sua única gravação em estúdio desapareceu sem deixar rastro, tal como o seu autor. Samuel é um multimilionário, mecenas da cultura, e procura o protagonista para que este o ajude a encontrar Daniel Silva. O que o levou a ele, quem é Daniel Silva e qual e o interesse de Samuel no mesmo, são apenas algumas das questões que vão sendo respondidas ao longo do livro e que ajudam o nosso protagonista a sair do estado de apatia em que se encontrava.
É um livro muito bem escrito, com uma aura de mistério que João Tordo consegue transmitir muito bem. A história, à semelhança dos outros dois livros que li dele, é um pouco absurda, no sentido de não ser, de todo, uma história linear e que respeite uma estrutura narrativa típica dos livros de mistério ou mesmo dos policiais. As personagens são estranhas, inadaptadas e cheias de conflitos interiores. O protagonista vai sofrer, e muito até conseguir encontrar a paz interior necessária para prosseguir com a sua vida. Esta não é uma personagem particularmente simpática, é fraco, como se costuma dizer "não tem espinha dorsal", mas acaba por crescer, ao longo de livro, tornando-se mais merecedor da nossa empatia. Aliás, com excepção de Kim e Manuel, com quem foi fácil criar alguma empatia, nenhuma das outras personagens são simpáticas. Não quero dizer com isto que são más personagens, ou mal concebidas, antes pelo contrário, são antes seres humanos cheios de vícios, egoístas, que se movimentam num mundo cheio de tudo e ao mesmo tempo cheio de nada.
É um livro relativamente pequeno, em número de páginas, mas é um que exige uma leitura mais cuidada, mais atenta para poder saborear e apreender tudo aquilo que está para além das palavras.
No geral, gostei da maneira de escrever de João Tordo, mas devo confessar que a história não me entusiasmou muito, principalmente a partir da segunda parte (ou seja, a partir do momento em que o protagonista vai parar ao Memory Hotel).
A parte de que mais gostei do livro foi a primeira (a qual tem como título "Os primeiros tempos") porque me manteve em suspenso graças à forma bastante "paul austeriana" (sim... de Paul Auster!) utilizada pelo autor. A história é mantida sob um manto de mistério durante grande parte do início do livro, fazendo com que ansiemos por que aconteça algo ao nosso narrador, de quem pouco ou nada sabemos (nem o nome verdadeiro ficamos a saber), um estrangeiro (quase certamente um europeu) que estuda em Nova Iorque e que se apaixona por uma colega da Faculdade...
Mas é precisamente quando acontece algo ao narrador que, na minha opinião, a história descarrila. Ainda que o meu interesse no livro se tivesse mantido até terminar de o ler, a verdade é que não fiquei muito empolgado com o desenrolar da história a partir do momento em que "Bartleby" começa a trabalhar no restaurante chinês ou quando vai parar ao Memory Hotel e Samuel entra em contacto com ele. Penso que nessa altura João Tordo não teve mão na história que começou a escrever e tudo se tornou um pouco chachada para um início de história que me parecia ter um potencial bem melhor. A busca de um fadista desaparecido em Nova Iorque que gravou um único disco (do qual sobreviveu apenas uma cópia) e que a máfia quer ver morto? Não... Sinceramente não me convenceu de todo...
Antes preferia que a história se tivesse centrado no "Bartleby" e no seu naufrágio existencial em vez de numa história banalíssima de thriller de algibeira...
Em todo o caso, foi bom conhecer a escrita de João Tordo, da qual gostei bastante, por ele conseguir transmitir muito bem as suas ideias, de forma consistente e credível, demonstrando grande potencial para futuros livros.
A cidade é como um labirinto. E neste livro do Tordo sente-se essa névoa que paira e, tal como o personagem, o herói trágico, somos levados por um qualquer destino, sem controlo e sem qualquer vislumbre de futuro, como se estivéssemos nas mãos dos deuses.
A memória não nos desvela o futuro, que por razões óbvias ainda não aconteceu, mas constitui-nos e dá-nos todos os fios da Ariadne possíveis para trilhar a existência na melhor lucidez possível.
Há falhas, sim. Há erros e muitas vezes memórias falsas. Outras que parece que se transformam noutra coisa. Ainda há outras tantas que se ocultam. Outras que se desvanecem. Somos falíveis. Ainda assim, é com elas que nos amanhamos e que nos apresentamos: Eu sou! Sou alguma coisa! Porque até aqui vivi.
Conseguem imaginar a ausência de memória? Não existir qualquer registo da experiência. Pois mesmo com esta faculdade, que Aristóteles tanto prezava (fundamental), há tanto mundo que fica velado, mesmo que tenhamos caminhado ao lado dele, e que se acumula num aglomerado, organizado, ou não, inconsciente.
Sigam, portanto, não só nesta narrativa do Tordo, mas na própria vida, atentos com o que se cruzam e com o que vos escapa, pois estou certo (quase) que é no que nos escapa, e que tantas vezes nos leva a voltar atrás, ou a olhar noutros pormenores, onde se encontra o outro lado da vida.