Lançado originalmente em 1930, O Quinze foi o primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz. Ao narrar as histórias de Conceição, Vicente e a saga do vaqueiro Chico Bento e sua família, Rachel expõe de maneira única e original o drama causado pela história seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro, sem perder de vista os dilemas humanos universais, que fazem desse livro um clássico de nossa literatura.
Quinta ocupante da Cadeira 5, eleita em 4 de agosto de 1977, na sucessão de Candido Motta Filho e recebida pelo Acadêmico Adonias Filho em 4 de novembro de 1977.
Raquel de Queirós nasceu em Fortaleza (CE), em 17 de novembro de 1910, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 4 de novembro de 2003. Filha de Daniel de Queirós e de Clotilde Franklin de Queirós, descende, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar, parente portanto do autor ilustre de O Guarani, e, pelo lado paterno, dos Queirós, família de raízes profundamente lançadas no Quixadá e Beberibe.
Em 1917, veio para o Rio de Janeiro, em companhia dos pais que procuravam, nessa migração, fugir dos horrores da terrível seca de 1915, que mais tarde a romancista iria aproveitar como tema de O Quinze, seu livro de estréia. No Rio, a família Queirós pouco se demorou, viajando logo a seguir para Belém do Pará, onde residiu por dois anos.
Em 1919, regressou a Fortaleza e, em 1921, matriculou-se no Colégio da Imaculada Conceição, onde fez o curso normal, diplomando-se em 1925, aos 15 anos de idade.
Estreou em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queirós, publicando trabalho no jornal O Ceará, de que se tornou afinal redatora efetiva. Em fins de 1930, publicou o romance O Quinze, que teve inesperada e funda repercussão no Rio de em São Paulo. Com vinte anos apenas, projetava-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca.
O livro, editado às expensas da autora, apareceu em modesta edição de mil exemplares, impresso no Estabelecimento Gráfico Urânia, de Fortaleza. Recebeu crítica de Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha, Agripino Grieco e Gastão Gruls. A consagração veio com o Prêmio da Fundação Graça Aranha.
Em 1932, publicou um novo romance, intitulado João Miguel, e em 1937, retornou com Caminho de pedras. Dois anos depois, conquistou o prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira, com o romance As três Marias. Em 1950, publicou em folhetins, na revista O Cruzeiro, o romance O galo de ouro.
Cronista emérita, publicou mais de duas mil crônicas, cuja seleta propiciou a edição dos seguintes livros: A donzela e a Moura Torta, 100 crônicas escolhidas, O brasileiro perplexo e O caçador de tatu. No Rio, onde passou a residir em 1939, colaborou no Diário de Notícias, em O Cruzeiro e em O Jornal. Escreveu duas peças de teatro, Lampião, em 1953, e A Beata Maria do Egito, de 1958, laureada com o prêmio de teatro do Instituto Nacional do Livro, além de O padrezinho santo, peça que escreveu para a televisão, ainda inédita em livro. No campo da literatura infantil, escreveu o livro O menino mágico, a pedido de Lúcia Benedetti. O livro surgiu, entretanto, das histórias que inventava para os netos. Dentre as suas atividades, destacavam-se também a de tradutora, com cerca de quarenta volumes vertidos para o português.
Foi membro do Conselho Federal de Cultura, desde a sua fundação, em 1967, até sua extinção, em 1989. Participou da 21ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em 1966, onde serviu como delegada do Brasil, trabalhando especialmente na Comissão dos Direitos do Homem. Em 1988, iniciou sua colaboração semanal no jornal O Estado de São Paulo e no Diário de Pernambuco.
Recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Brasília para conjunto de obra em 1980; o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, em 1981; a Medalha Mascarenhas de Morais, em solenidade realizada no Clube Militar (1983); a Medalha Rio Branco, do Itamarati (1985); a Medalha do Mérito Militar no grau de Grande Comendador (1986); a Medalha da Inconfidência do Governo de Minas Gerais (1989); O Prêmio Luís de Camões (1993); o Prêmio Moinho Santista, na categoria de romance (1996); o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2000). Em 2000, foi eleita para o elenco dos “20 Brasileiros empreendedores do Século XX”, em pesquisa r
Conceição passava agora quase o dia inteiro no Campo de Concentração, ajudando a tratar, vendo morrer às centenas as criancinhas lazarentas e trôpegas que as retirantes atiravam no chão, entre montes de trapos, como um lixo humano que aos poucos se integrava de todo o imundo ambiente onde jazia.
Apesar de associarmos o termo “campo de concentração” à guerra e ao extermínio, no livro “O Quinze” ele refere-se aos imundos campos de deslocados, de retirantes, a população indigente que fugia da seca extrema que atingiu o Sertão Nordestino em 1915, com o objectivo de chegar a Fortaleza. É terrível e arrepiante o cenário pintado tanto nesses campos de contenção criados pelo governo como nas quintas abandonadas e nos percursos percorridos pela população faminta e sedenta, com o gado a não se aguentar em pé e as crianças a morrerem de doenças e inanição. Das personagens que seguimos, as mais marcantes para mim foram as masculinas: Chico Bento, pai humilde mas batalhador de uma família numerosa, e Vicente, um jovem voluntarioso e decidido que se recusa a desistir do seu gado como muitos outros fazendeiros o haviam feito. Conceição, a professora, apesar de generosa, é arrogante e racista, enquanto a sua avó, Dona Inácia é demasiado beata e moralista. Produtos do seu tempo, sem dúvida, mas ainda assim não me cativaram. O que me cativou foi a escrita de Rachel de Queiroz, que é precisa e melodiosa. Uma precursora no mundo das letras extremamente masculino no Brasil do início do século XX, muito elogiada no seu tempo, mas que agora me parece esquecida.
Tolice, não senhora! Então Mãe Nácia acha uma tolice um moço branco andar se sujando com negras? (...) Eu podia gostar de uma pessoa como gostasse, mas sabendo de uma história assim, não tinha santo que desse jeito!
Com apenas 19 anos, a autora cearense publicou um dos principais clássicos sobre a nossa cultura brasileira: um retrato humano do sertão nordestino, da vida difícil do sertanejo, que faz de tudo para tentar sobreviver diante de tanta miséria e dificuldades ambientais. Mas, além disso, “O quinze” ficou marcado na historia por ter sido publicado por uma mulher durante a década de 30, explorando temas de relevância social e retratando personagens femininas que fogem do estereótipo esperado naquela época.
Apesar de ter nascido em uma família de intelectuais e em boas condições financeiras, Rachel de Queiroz conhecia a tradição local, cresceu ouvindo sobre a seca e sobre as dificuldades de muitos dos seus conterrâneos. É por isso que consegue nos transmitir essa realidade de forma tão tocante. Carregada de regionalismo, a autora faz uma denuncia sobre a miséria, a desigualdade e a indiferença dos abastados e dos políticos frente à pobreza do povo.
O período retratado em “O quinze" é a seca que assolou o Ceará em 1915 (daí a razão do título). O personagem principal é Chico Bento e sua família, um grupo de retirantes que carregam o pouco - ou quase nada - do que tinham para fugir e da seca. Atravessam a pé a terra sedenta em busca de salvação no litoral nordestino. O outro núcleo da narrativa é conduzido por Conceição, uma jovem que vive com a avó e que, nascida em melhores condições, consegue fugir de trem da pequena cidade de Logradouro. Nesse cenário, já fica claro que a seca atinge o povo de forma desigual.
A escrita é carregada de oralidade e regionalismos, mas com uma linguagem mais simples, diferente do que Euclides da Cunha usa em “Os sertões”, por exemplo. Gostei muito da forma humana que um ambiente tão brasileiro é construído. Não dá para não sentir uma identidade com “Vidas secas”, um livro que me marcou demais na juventude. E, inclusive, Graciliano Ramos pode ter se inspirado em “O quinze" para escrever uma das suas grandes obras. “O quinze” deve sempre ser lembrado, celebrado e aproveitado por nós, leitores.
Segui a recomendação da Paulinha e conheci esta autora brasileira que escreveu esta obra com apenas 20 anos e me deixou encantada com a sua maturidade, com a limpeza da sua escrita e com o quanto mexeu comigo com toda a contextualização social de um ano horrível e sufocante no sertão do Ceará.
Fez recordar-me leituras neorrealistas que fiz há muitos, muitos anos!
"Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz."
Rachel de Queiroz publicou este livro aos 20 anos. Baseou-se na seca de 1915, uma das mais graves que assolou o nordeste brasileiro, vivida pela própria quando era criança. Impressionou os grandes nomes da escrita, e foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, em 1977.
A escrita directa mas com um som de melodia não esconde a miséria e o sofrimento das personagens, pelo contrário, cria maior empatia com aquela gente simples que vai tentando escapar a um prenúncio de morte. Para lá de registar o impacto social que esta calamidade teve no país, Rachel de Queiroz ainda encontrou espaço para puxar uma brasinha ao feminismo.
"Conceição tinha vinte e dois anos e não pensava em se casar.
- E para que você torceu sua natureza? Porque não se casa? - Nunca achei quem valesse a pena..."
Rachel de Queiroz ainda não tinha 20 anos quando escreveu O Quinze, o seu primeiro romance, que tem como tema a grande seca no Sertão do Ceará em 1915.
Não foi a primeira seca. Em 1877, a seca e a fome já tinham assolado a região e deslocado alguns milhares de pessoas para a capital do estado. Em 1915, temendo que a situação se repetisse, foi criado o primeiro campo de concentração do Ceará, em Fortaleza, no chamado Alagadiço. Milhares de pessoas eram “concentradas” num local sem condições, e vigiadas por soldados.
“Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água.”
É uma história dura, de sobrevivência e morte. No sertão Conceição convence Mãe Nácia a partirem para Fortaleza. Vicente fica, para salvar o gado. Dona Maroca manda soltar o gado, Chico Bento fica sem emprego, vende as reses e parte a pé com a família. Os Retirantes, a seca, a fome e a morte, um drama vivido por toda uma região.
Título: O quinze Autor: Rachel de Queiroz Editora: José Olympio Páginas: 157 Minha classificação: ⭐️⭐️
_____________________________________ Como nordestino é natural que eu tenho grande apreço por livros cuja temática retratem essa região brasileira. Percorrendo as páginas de O quinze, da cearense Rachel de Queiroz, primeira mulher a fazer parte da ABL, como que vejo diante dos meus olhos minha infância nos rincões do interior do Piauí. Terras estas acostumadas com a seca castigadora, com a predominância cinzenta de árvores de galhos retorcidos e espinhosos, a batalha pela vida travada pelos rebanhos famélicos que muitas vezes emolduram esse cenário tão triste mas à sua maneira tão cheio de beleza. O livro de Rachel me fez pensar nesse tempo, quando eu também um menino de engenho, no dizer de José Lins do Rego, depositávamos na terra seca as manivas que dariam origem a frondosos pés de mandioca, cuja raiz, uma vez triturada e peneirada, alegrariam as tardes de farinhada. Ainda posso sentir o cheiro da farinha recém tostada no imenso tacho, onde também eram feitos enormes beijus que logo eram untados com manteiga de gado e acompanhados com um fumegante café. Talvez "O quinze", sendo um tanto curto e um tanto superficial, tenha deixado em mim a impressão de que há mais poesia na miséria da seca do que a ali retratada: a seca é um fato, as grandes hordas de retirantes também, mas, acima de tudo, a terra tem também os seus fiéis, homens e mulheres que não só esperam o fruto dela advindo, mas também são parte dela, a terra do meu Nordeste amado. Rachel de Queiroz não me decepciona nem me traz tanto enlevo, como o que sentia ao escolher ler O quinze. Mas, em matéria de temática nordestina, prefiro Zé Lins do Rego e o grande Graciliano Ramos, estes sim, mestres em retratar um Nordeste cheio de problemas, mas de uma riqueza humana e cultural em cujos livros me vi verdadeiramente.
O Quinze - Rachel de Queiroz | Um retrato literário da Seca do Nordeste | NITROLEITURAS
Um livro curto mas poderoso, que sedimenta a minha paixão pela prosa seca, precisa e de implacável análise psicológica do inferno da Seca nordestina.
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O Quinze - Rachel de Queiroz | Siciliano, 1993, 149 páginas | Lido no dia 16.05.2016
SINOPSE
Publicado em 1930, o romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, renovou a ficção regionalista. Possui cenas e episódios característicos da região, com a procissão de pedir chuva, são traços descritivos da condição do retirante. O sentido reivindicatório, entretanto não traz soluções prontas, preferindo apontar os males da região através de observação narrativa.
Em O Quinze, primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz, a autora exprime intensa preocupação social, apoiada, contudo, na análise psicológica das personagens, especialmente o homem nordestino, sob pressão de forças atávicas que o impelem à aceitação fatalista do destino. Há uma tomada de posição temática da seca, do coronelismo e dos impulsos passionais, em que o psicológico se harmoniza com o social.
A obra apresenta a seca do nordeste e a fome como conseqüência, não trazendo ou tentando dar uma lição, mas como imagem da vida.
Não percebe-se uma total separação entre ricos e pobres, e esta fusão é feita através da personagem Conceição que pertence realmente aos dois mundos. Evitando assim o perigo dos romances sociais na divisão entre "bons pobres" e "maus ricos", não condicionando inocentes ou culpados.
RESENHA
Impressionante como uma jovem de 19 anos pode escrever, de cara um clássico da literatura regionalista brasileira. Livro fantástico, curto mas sofrido, com uma prosa impecável e madura.
Rachel de Queiroz é uma das maiores escritoras que já tivemos, é uma pena que sua obra não é tão grande assim, mas que obra! Vi em uma entrevista que ela lia muito Eça de Queiroz, desde pequena, e que sua casa tinha uma biblioteca fartíssima, o que pode explicar como ela atingiu uma maturidade literária ainda tão nova.
"O Quinze" pinta um retrato fatalista e sofrido da seca nordestina. A narrativa não faz julgamentos, apenas mostra o horror da seca e o sofrimento dos retirantes, mergulhando em suas almas e suas preocupações.
A prosa é um espetáculo em si, Rachel economiza palavras e tem um texto direto e acessível, o que valoriza as cenas descritas. Sem o apoio de um melodrama, o leitor é levado a assistir a tragédia da seca com a mesma impotência dos protagonistas.
RECOMENDO "O Quinze" para quem:
Quer conhecer a obra de Rachel.
Gosta de livros curtos, que dão para ler em um dia! :)
Quem curte literatura brasileira de qualidade universal ("O Quinze" é lido no mundo todo!).
Quem curte literatura regionalista.
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O Quinze, da Rachel de Queiroz, é um livro singelo e um tanto ingênuo. Mas se deve levar em conta que foi escrito por uma jovem de 19 anos que está descrevendo o mundo que ela conhece e os tipos que o habitam, por isso há uma dose de sinceridade que redime o romance. Está longe de ser um grande romance – e perde ainda mais se pensarmos que, menos de dez anos depois, Graciliano Ramos publicaria Vidas Secas. De qualquer forma, a personagem principal, a jovem Conceição, é interessante, especialmente com suas ideias feministas que parecem deslocadas naquele tempo e lugar.
O tema em si não é novidade, mas a forma narrativa é inovadora. Escrita dura, realista, frases objetivas, secas, impactantes. A Rachel não romantiza a seca, descreve-a tal como ela é: impiedosa.
“Lá adiante, em plena estrada, o pasto se enramava, e uma pelúcia verde, verde e macia, se estendia no chão até perder de vista. A caatinga despontava toda em grelos verdes; pauis esverdeados, dum sujo tom de azinhavre líquido, onde as folhas verdes das pacaviras emergiam, e boiavam os verdes círculos de aguapé, enchiam os barreiros que marginavam os caminhos. Insetos cor de folha—esperanças—saltavam sobre a rama. E tudo era verde, e até no céu, periquitos verdes esvoaçavam gritando. O borralho cinzento do verão vestira-se todo de esperança.”
um ótimo romance para entender a prosa do modernismo dos anos 30, sem dúvidas. as descrições de Rachel são vivas, ternas, entranham-se na nossa carne.
2,5 Não sei bem o motivo desse livro não ter funcionado pra mim, mas o fato é que foi uma leitura extremamente chata e arrastada, infelizmente. O livro tem coisas MUITO boas (como umas coisas bem ~feministas apesar da autora não se dizer feminista rs , um retrato pesado e muito cru da dor da seca, etc) mas a forma como é escrito conseguiu fazer com que suas 150 páginas parecessem muito, muito, muito mais. Além disso, meio que nada acontece. O que faz parte da construção do cenário da seca, ok, mas ainda assim, nada acontecer + uma escrita bem pacata fez dessa obra muito chatinha pra mim. MAS eu ainda quero ler outras coisas da autora, até porque esse foi o primeiro livro dela com vinte anos, então tenho fé nas outras obras e na evolução de sua escrita. Essa, infelizmente, foi meio meh...
Análise totalmente viesada, já que me lembra muito minha vó contando as histórias do sertão. Livro melancólico, contando a seca como ela é, sem romantismo, mostrando a naturalidade com que o povo enfrentava as tragédias da vida; e passando um pouco do espírito do sertanejo:
- Chico, que é que se come amanhã? A generosidade matuta que vem na massa.do sangue, e florescia no altruísmo singelo do vaqueiro, não se pertubou: - Sei lá! Deus ajuda! Eu é que não havera de deixar esses desgraçados roerem osso podre...
Uma estrelinha a mais por ter sido escrito por uma moça de 19 anos em plena década de 30.
A mocinha que lê romance francês e sonha com o sertanejo vermelho do sol, a família que se retira por terra e enfrenta as piores condições em busca da sobrevivência. O embate do ser humano com a natureza, o sofrimento causado pela seca, que deixa sua marca geração por geração. Rachel de Queiroz foi desacreditada, na época da publicação, disseram que se tratava de obra de homem barbado. Junto com Dora, Doralina, O quinze é um dos meus livros preferidos.
O Quinze foi um livro que sempre me despertou a curiosidade. O meu avô nasceu numa cidadezinha do Ceará a cerca de 100km do cenário onde a história se desenrola. Finalmente consegui ler e não me arrependi nenhum pouco.
O livro é curtindo mas espetacular. Conta a história da grande seca de 1915 no Ceará através de 2 núcleos de personagens: a família do vaqueiro Chico Bento e o de Conceição, Vicente e Dona Inácia. Os dois núcleos se encontram diversas vezes ao longo da trama.
A escrita de Rachel de Queiroz é magistral ao mostrar o drama da seca sob a ótica de cada um desses personagens. Não conseguimos sentir nada diferente de comiseração pela família de Chico Bento e toda epopeia que passa ao ser obrigada a migrar devido à falta de trabalho. Sentimos também por Dona Inácia, que acostumada com sua sua vida no interior é obrigada a se exilar na cidade por uns tempos. Nunca perdeu a sua fé durante este tempo. Vicente e Conceição também viviam uma espécie de namorico e têm também suas vidas modificadas pela seca.
A escrita e o vocabulário são tão bons que consigo ler imaginando o sotaque das personagens. O mais incrível é que Rachel de Queiroz tinha apenas 19 anos quando o livro foi publicado. Uma obra que vale a pena ler para conhecer a realidade do “Brasil profundo”.
É um retrato da seca que atingiu o Ceará em 1915. A seca, aliás, é o grande protagonista. Além disso, há, grosso modo, 2 núcleos de personagens. O primeiro é daqueles que estão em torno de Conceição, a professora normalista. O segundo está em torno de Chico Bento e família. O primeiro núcleo é o dos personagens, digamos assim, mais bem arranjados na vida. O segundo é o dos sertanejos mais humildes, mais atingidos pela miséria. Interessante que, ao ler o livro, fiquei curioso em saber o quanto a Rachel de Queiroz leu os russos. Há – foi minha impressão – um eco de Tolstói no livro. Vicente, o fazendeiro do sertão (e interesse amoroso de Conceição) me pareceu ser uma espécie de Levin (o proprietário rural de Anna Karenina): preocupado em não abandonar o campo e de certa forma um contraponto da força do sertanejo em relação ao seu irmão Paulo, que virou o almofadinha promotor público que vive na cidade grande. Conceição também me parece ter algo de Kitty, o interesse amoroso de Levin, incapaz de se comunicar – ou de comunicar os seus desejos – ao seu amado. A família de Chico Bento é a que se vê diante da impossibilidade de sobreviver. São comparáveis à família de Fabiano e Sinhá Vitória, de Vidas Secas. Do mesmo modo, acabam indo embora do Ceará. No meio do caminho, há, ainda a morte de um filho, o desaparecimento de outro e a entrega de um terceiro para ser criado por Conceição. Sobram Chico Bento, sua mulher Cordulina e 2 filhos. São os desterrados para quem há só a possibilidade de migrar para o sul. Sobrevivem pelo acaso e pela ajuda de outras pessoas. Gostei do livro, acho que é muito bom, mas fiquei com a impressão que daria uma daqueles romances-mamutes escritos à moda de Tolstói.
Descobri este livro por puro acaso! Nunca tinha ouvido falar desta autora ou até deste período da história do Brasil! Muito semelhante ao que aconteceu alguns anos mais tarde nos Estados Unidos e que levou milhões de pessoas a deixarem tudo para trás na esperança de um lugar melhor. Não fazia ideia que tal tinha acontecido no Brasil também.
Hoje é um bom dia, descobri uma autora nova e ainda fiquei a conhecer um pouco mais da História do Brasil (mesmo que tenha sido uma tão trágica).
O Quinze consta ser a primeira obra de Rachel de Queiroz. É impressionante como uma garota com menos de 20 anos escreve uma obra assim. Parabéns!! A obra discorre sobre as dificuldades da seca nas catingas do nordeste. A pobreza e miséria em destaque. Pesado.
O Quinze trata de uma grande seca que houve no Ceará em 1915. A visão da autora sobre os acontecimentos não tanto recai sobre o fenômeno natural, mas sobre a natureza humana.
As personagens vivas são jogadas naquela situação e movem-se com naturalidade, como poder-se-ia imaginar que de fato se moveriam. É um livro bonito, sem sentimentalismos, sem vitimismos nem politicagem. É um retrato, bem escrito, de seres humanos vivendo, e em sua maioria, tentando agir da melhor maneira que podem.
“E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daquela miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo...”
#DLL21 - Janeiro Tema: ler um livro de autor brasileiro nunca lido (Rachel de Queiroz). 🐝🐝🐝🐝🐝
O período retratado em “O quinze" é a seca que devastou o Ceará em 1915 (daí a razão do título). O personagem principal é Chico Bento e sua família, um grupo de retirantes que carregam o pouco - ou quase nada - do que tinham para fugir e da seca. Atravessam a pé a terra sedenta em busca de salvação no litoral nordestino. O outro núcleo da narrativa é conduzido por Conceição, uma jovem que vive com a avó e que, nascida em melhores condições, consegue fugir de trem da pequena cidade de Logradouro.
O Quinze é um livro muito sofrido. Senti um aperto no peito em vários momentos, principalmente por saber que Rachel de Queiroz estava contando histórias similares às que presenciara, e que milhares de pessoas passaram pelas situações lamentáveis contadas na narrativa. A leitura descreve a fome e miséria da seca, que nega tudo aos que dependem da terra. História de um amor à terra, apesar de tudo, e de vários apegos que precisam ser superados para seguir em frente. Conta a história da grande seca pelos olhos de personagens, mostrando a naturalidade com que o povo enfrentava as tragédias da vida; e passando um pouco do espírito do sertanejo:
"- Chico, que é que se come amanhã? A generosidade matuta que vem na massa do sangue, e florescia no altruísmo singelo do vaqueiro, não se perturbou: - Sei lá! Deus ajuda! Eu é que não haverá de deixar esses desgraçados roerem osso podre..."
Uma estrelinha a mais por ter sido escrito por uma moça de 19 anos em plena década de 30.
Um livro muito bem escrito sobre a seca de 1915 no Nordeste, principalmente as partes do Chico Bento e sua família, que eram retirantes, e também algumas do Vicente. Gostei muito das discussões e críticas sociais do livro, além da descrição e presença do Campo de Concentração para retirantes presente no Ceará na época, que muitas vezes é apagado da nossa história; as mortes em massa que ocorreram nele e o trabalho escravo que muitos dos retirantes eram forçados a sofrer para manter a si suas famílias vivas. As partes do Chico Bento com certeza foram o ponto forte do livro, todas repletas de discussões sociais.
Seria um ótimo livro não fosse o racismo horrendo da autora durante o livro inteiro, principalmente nas cenas da Conceição, uma personagem dificilmente agradável, não só pelo seu forte racismo, mas por acrescentar tão pouco a história além de algumas discussões rasas sobre a situação da mulher na época. Novamente sobre o racismo, considerando que Raquel de Queiroz era uma mulher branca da elite e que apoiava o conceito da "democracia racial" brasileira, duvido que as cenas fossem algum tipo de crítica, principalmente pela quantidade e naturalidade na narrativa.
"Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz." Primeiro romance nordestino que li. De um lado acompanhamos a travessia de uma família de retirantes tentando sobreviver em meio à seca que atingiu o Ceará em 1915, rumo à um destino mais justo. De outro lado acompanhamos um 'romance' entre Conceição e Vicente, romance que não saiu do pensamento por conta do orgulho dos dois. 3 Triste do início ao fim. Mas gostei e recomendo! Primeiro de muitos que ainda quero ler sobre o meu país lindo e seus contrastes e culturas. Ontem Rio Grande do Sul, hoje Ceará, amanhã o que será?
Descubrir autoras talentosas que a su vez me permiten descubrir realidades tan distintas a la mía es una de las cosas que más disfruto de la lectura en los últimos años y en este caso este descubrimiento se lo debo a mi círculo de lectura. Con tan solo 19 años, Rachel de Queiroz escribió esta novela corta que relata una de las sequías más difíciles en Brasil, la sequía de 1915. En la historia podemos darnos cuenta cómo la población de la región del sertón padece esta catástrofe y es evidente el contraste entre la manera en la que lo padecen las familias privilegiadas y los pobres. La narrativa es muy ligera y sencilla, pero también está cargada de muchas reflexiones que van desde las diferencias de clase hasta reflexiones sobre la maternidad y el matrimonio.
O Quinze é uma obra magnífica sobre o maior mal que assola o Nordeste do Brasil, a seca. Em uma narrativa emocionante, usando como plano de fundo a grande seca de 1915, a autora descreve a vida e o sofrimento das pessoas e as mudanças da sociedade. Fundamental para entender o Nordeste e o povo nordestino. Recomendo especialmente para quem gosta de romance regional e temática nordestina.
Hora de tapar uns buracos meio feios no meu currículo, e de dar opiniões meio controversas. O Quinze é um livro essencial, e ok. Bom até. Pensar que Queiroz publicou isso aqui com 19 anos em 1930 é impressionante, digno de respeito, historicamente poderoso. É uma obra que pega a dor e o sofrimento da vida no sertão, contrasta com o sofrimento de uma vida bem menos sofrida, e pronto, ficção regionalista de alta qualidade. Mas...
Mas Vidas Secas.
E Vidas Secas é muito melhor. E tudo que eu consigo fazer ao ler O Quinze é comparar com a obra de Graciliamos Ramos e considerar muito pior. O que é injusto, já que Vidas Secas foi publicado 8 anos depois, e Queiroz não tem culpa. Injusto, pois a qualidade de um livro não me deveria ofuscar outro. Não me sinto bem ao me ver incapaz de me conectar muito com uma obra, por não deixar de pensar em outra que fez melhor, e qual a consequência disso? Toda obra regionalista nordestina vai automaticamente parecer menor para mim ao não parecer melhor que o titã do gênero, mesmo que tendo sido publicada previamente? Acho que é a natureza humana comparar, mas me pego pensando que se eu lesse O Quinze, e depois Vidas Secas; eu gostaria consideravelmente mais de ambos. Este seria uma experiência excepcional, e o segundo beiraria apoteose. Mas não. Tudo que eu sinto é um leve desapontamento, enquanto ainda percebo que o livro é bom.
Tem cenas fortes. Todo o dissolver da família do Chico Bento (e que nome maldito que me fez demorar para conseguir levar o livro a sério) é doloroso e bem construído. Suas cenas são o grande destaque da obra, e onde se carrega o maior peso emocional, bem construída a jornada através da seca, e como o sofrimento se mantém até a cidade. Conceição tem bons momentos, e seu contraste com a pobreza mais explícita é um importante apontamento social nas diferentes escalas de vulnerabilidade. Vicente é meio sem graça, só andando de um lado pro outro meio confuso meio sem propósito, interesse romântico largado.
O livro é construída nessa dualidade de Chico Bento se fodendo e o vai-não-vai de Conceição e Vicente, história meio desconectadas mas que compartilham espaço, e eventualmente se cruzam. É um contraste que funciona, mas que tem suas melhores cenas na metade do retirante, e as perde quando ele sai da história, e perde fôlego para a conclusão.
É bom, tem uma construção legal, dá pra se emocionar se estiver com a mente no estado certo. Mas é um sofrimento esperado, contado de uma forma meio manjada, o que não torna ruim; reconheço a qualidade e a relevância de um clássico.
Este pequeno tesouro da literatura brasileira traz nas suas pouco mais de 150 páginas, retratos da seca histórica do Nordeste em 1915. No Quixadá, sertão do Ceará, acompanhamos dois diferentes núcleos que, apesar de partirem e chegarem ao mesmo ponto, atravessam jornadas tão completamente diferentes. Enquanto, de um lado, Conceição e sua avó Inácia, embora impactadas pela seca, têm recursos para esperar que esta passe, Chico Bento e sua família são obrigados a migrar de forma desumana em busca de salvação, e passam por tragédia, fome, desespero e humilhação. O Quinze tornou-se um dos meus livros favoritos. Em poucas páginas, fui levada numa viagem com tanta riqueza cultural e histórica, e me deixei envolver por personagens tão reais. Todos esses retratos da seca são pintados pela autora de forma muito objetiva, abrindo o olhar do leitor para que observe tudo de forma bastante clara e sem grande romantismo ou salvação de uma situação que simplesmente é.
A autora pioneira, escreveu esse, que foi o seu primeiro livro aos 19 anos. A obra foi publicada em 1930 e, na época, fez tanto furor com a sua força narrativa, maturidade e profundidade social, que muitos duvidaram que tal pudesse ter sido escrita por uma mulher. Em 1977, Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras.
Um livro ágil, ligeiro, cortante. Dividido principalmente em três narrativas que se cruzam em determinados pontos: Vicente, que resolve ficar em Quixadá e enfrentar a seca praticamente sozinho, Conceição, sua prima e ex-namorada, que ganha a vida longe da seca e Chico Bento, que precisa cruzar quilômetros e mais quilômetros com a família depois de perder seu posto e seus animais de criação pela falta de água. Cada um do seu jeito, entendemos como a seca afeta tanto na superfície óbvia que devasta a condição humana, principalmente pela jornada de dor e morte de Chico Bento, quanto nas distâncias entre corações e cabeças que se desenvolvem de forma tão distintas, como a frieza que se instaura entre Vicente e Conceição, um dos pontos mais interessantes da trama. Cada um leva um pedaço da seca dentro de si e as raízes que brotam dela são bem distintas. O livro é muito eficaz na missão de pintar um cenário devastado e representar a sorte dos retirantes. Da mesma forma, é lindo ver a forma dura, mas ao mesmo tempo poética que a autora utiliza para tratar desses múltiplos cenários. Ótima e rápida leitura.