O livro "A Filha Rebelde", dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, resulta de uma investigação histórica acerca da vida de Annie Silva Pais, filha única do último diretor da polícia política PIDE, o major Fernando Silva Pais, muito próximo do ditador Oliveira Salazar, a qual com 29 anos de idade, em outubro de 1965, decide abandonar o marido, a família e os amigos e juntar-se ao governo de Fidel Castro, apoiando entusiasticamente a revolução cubana, cujos ideais situavam-se no extremo oposto dos do Estado Novo, o primeiro uma ditadura comunista e o segundo uma ditadura fascista.
Com 29 anos de idade, Annie Silva Pais vivia com o marido, um diplomata suíço, na cidade de Havana, capital de Cuba, por força do trabalho daquele e participava assiduamente nos eventos organizados pelas diversas embaixadas, onde estavam também presentes membros do governo cubano, incluíndo o Presidente, Fidel Castro, e um dos seus ministros mais influentes, Che Guevara.
Annie, uma jovem muito bonita, alegre e cheia de vida, sente-se atraída por Che Guevera, apaixona-se por este, mas os seus sentimentos limitam-se a um mero amor platónico, não obstante durar toda a sua vida.
No entanto, Annie, cujo casamento se encontrava em crise, entusiasma-se pelos ideais da revolução cubana e, após o regresso de uma viagem ao México, enquanto o marido a esperava no aeroporto de Havana, desaparece, e os seus pais e o seu cônjuge, do qual acaba por se divorciar, apesar das buscas realizadas para a tentarem localizar, não conseguem saber do seu paradeiro.
Annie Silva Pais aparece uns meses depois, manda notícias aos pais e encontra-se a viver numa casa cedida pelo governo cubano, começando a trabalhar como intérprete e tradutora no ESTI, o serviço de traduções e interpretação de Cuba.
Perante esta situação, que causa o maior alarme na família e no governo português, o pai, diretor da PIDE, informa o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, da sua situação familiar, temendo perder o seu cargo, o que não sucede, pois o ditador português mantém a confiança naquele.
A partir de então, Annie trabalha para o governo cubano, envolve-se amorosamente com o médico pessoal de Fidel Castro e com um dos seus ministros mais importantes, o qual acaba preso em 1989, por ter participado num esquema de corrupção e tráfico de droga, que envolveu altas figuras políticas e militares do regime de Cuba.
Annie Silva Pais viaja por todo o mundo como intérprete dos governantes e militares cubanos, nomeadamente, pelos países africanos recentemente tornados independentes das potências europeias, pelos países latino-americanos e também desloca-se à União Soviética e à Coreia do Norte.
Mas só volta a Portugal, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, de modo a visitar o pai na prisão, que estava a aguardar julgamento, acusado de ser o autor moral do homicídio do General Humberto Delgado, perpetrado por agentes da PIDE, em Espanha.
Apesar de a nível político, pai e filha não poderem ser mais diferentes, ambos mantêm uma relação afetiva de grande proximidade, até porque tinham em comum interesses culturais.
O livro aborda também o papel do major António Silva Pais e da PIDE no apoio total à ditadura, bem como na repressão, prisão e assassínio dos opositores políticos do regime ao longo desse período, dos quais Oliveira Salazar era informado quase diariamente pelo diretor da PIDE, designadamente o plano para assassinar o general Humberto Delgado, que foi levado a cabo com o conhecimento prévio do ditador português.
Um livro muito interessante sobre uma eterna jovem, que, num período em que as mulheres eram figuras secundárias das suas vidas, foi dona do seu destino e viveu de acordo com as suas convicções, tendo sido verdadeiramente livre, apesar de ter residido em dois países cujos regimes políticos que não eram democráticos.