Uma história impactante e envolvente das três travestis que comandaram o centro de São Paulo entre 1970 e 2010, do autor do podcast A mulher da casa abandonada.
Entre as décadas de 1970 e 2010, Jacqueline Welch, Andréa de Mayo e Cristiane Jordan comandaram o centro da cidade de São Paulo. Três pessoas T que passaram por mudanças políticas e sociais, sofreram e perpetuaram ameaças e violências diversas, abusos e crimes. Contudo, a história delas quase não aparece nos documentos oficiais. Não restam fotos de Jacqueline com suas “filhas” no bordel. Não há reportagens ou processos de quando Cristiane foi vítima de pedofilia na prostituição. Não há inquéritos policiais dos assassinatos que Andréa dizia ter cometido. Diante desse apagamento loquaz, Chico Felitti, um dos mais engenhosos e inovadores jornalistas da atualidade, resolveu montar uma complexa rede de pesquisa e entrevistas para reconstituir a história de três personalidades fundamentais tanto para São Paulo quanto para a comunidade LGBTQIA+. Com sua narrativa envolvente e embasada, Felitti mostra o que ficou de fora do registro burocrático: a ternura, a riqueza, a generosidade e a irmandade das três travestis fortes que dominaram o centro da maior cidade do Brasil por décadas.
Mestrando de escrita na Universidade Columbia, em Nova York. Trabalhou na Folha de S.Paulo, onde foi repórter, colunista e editor, por 10 anos. Colaborador da Piauí, da Galileu e da Revista Joyce Pascowitch, foi o autor do perfil de Ricardo Pereira, um artista de rua conhecido como Fofão da Augusta, publicado pelo Buzzfeed em 2017 e que deu origem ao livro “Ricardo e Vânia” (editora Todavia).
Poderia ser uma excelente fonte para conhecer as histórias obscuras da vida das travestis em São Paulo nas últimas décadas do século XX, não fosse a narrativa confusa, cheia de idas e vindas, agravada pela quantidade inaceitável de erros factuais. Cito 3, que notei logo. Deve haver outros. 1. Logo no início, há a descrição da chegada a São Paulo de uma das personagens do livro, vinda de Paris, em 1974, desembarcando em Cumbica. O aeroporto foi inaugurado apenas em 1985. 2. Refere-se à Via Dutra, em 1981, como Via Leste, alegando que somente décadas depois ela passou a ter o nome pelo qual é conhecida. Na placa de inauguração da estrada, em janeiro de 1951, já está o nome de Rodovia Presidente Dutra. 3. Cita a morte de Tancredo Neves como tendo ocorrido no dia 15/03/85. Na verdade, esse foi o dia da internação do presidente eleito (de forma indireta pelo Congresso). A morte ocorreu no dia 21/04 do mesmo ano.
"Eu passei bem, viu? Podem falar que sou gorda e caolha. Que era mais difícil do que hoje, até porque era mesmo. Mas a gente se divertiu pra caralho..."
Por mais histórias de gays trambiqueiras, dando tiro, assalto, roubando carro etc.
Sou fascinado pelo realismo fantástico travesti. Esse gênero (foda que a palavra é essa mesmo) de histórias que vai de Cristina Veneno à Cristiane Jordan, de Camila Sosa Villada a Chico Felitti, de Pose à Almodóvar, Paris is Burning e São Paulo em Hi-Fi, verdadeiros mitos que correm de boca a boca mas infelizmente raramente são narrados por suas protagonistas. Como se essa realidade por si só já não fosse tão surreal: o absurdo intrínseco de ser incumbida com uma jornada, uma transição (não tô falando de quaisquer procedimentos). Parece que junto com isso vem outro nível de magia, como se fosse aceitar a balbúrdia da vida e fazer uma festa, chegar nela montada num elefante. Acho que isso tudo tá soando como uma romantização descabida de um observador e de fato não representa exatamente o que o livro quer passar (apesar dele também não buscar fugir disso). Tem aqui relatos de uma dúzia de travestis que passaram pelo centro de São Paulo desde a metade do século passado, dentre elas três proeminentes figuras. Seus sofrimentos são tão surreais quanto suas celebrações, a violência infligida por elas às suas parceiras também não é suavizada. Gosto do jeito que Chico escreve, como se ele estivesse lá (herança de um outro grande viado). Acho que um único ponto fraco do livro é que ele vai e volta demais entre as personagens e o tempo, acabei me perdendo nas biografias individuais. O negócio é ler mais como uma coletânea de anedotas mesmo — e uma excelente coletânea.
Seria 3.5; acho que o autor ainda tem o tom da reportagem p/ podcast na cabeça, então algumas escolhas na linguagem e no ritmo não se sustentam por escrito. vai e volta demais, podia ter ordenado melhor os eventos. às vezes tb força muito a barra atrás de uma profundidade que aterrissa no piegas. mas a pesquisa foi show
terceiro livro que leio do chico felitti e terceiro livro dele que favorito!!!
como eu amo a escrita e a sensibilidade desse autor!
acho que ricardo e vânia vai continuar sendo meu trabalho preferido dele porque me apeguei demais à história dos dois, mas aqui temos outro livro que vai nas profundezas das histórias esquecidas ou apagadas.
amei conhecer mais sobre as rainhas de são paulo, com todas as polêmicas e erros e surtos. foi incrível!
Adorei ter aprendido tudo que aprendi com esse livro. Leitura divertida e emocionante, essencial para LGBTs e aliados (e para moradores do centro de SP que quase sempre somos tudo isso). Viva as rainhas da noite, que seus nomes não sejam esquecidos.
Fazia muito tempo que estava querendo ler esse livro, pois adoro as histórias sobre a São Paulo dos anos 1970 e 1980. Chico tem uma narrativa fácil de acompanhar, que me prendeu do início ao fim. Adorei conhecer um pouco da história de Jacqueline, Andréa e Cris, suas versões e perversões, como disse Kaká di Polly.
"as pessoas são tudo. ela é boa, ela é ruim, ela é feia, ela é gostosa, ela é ruim de cama. todo mundo tem dois lados, duas versões. e às vezes tem três, às vezes tem quatro. tem as versões escondidas, as perversões, porque não são só as versões, tem as perversões também."
Maravilhoso! A história é tão bem contada que me senti na pista de dança da Prohibidus, nas ruas de São Paulo e também de Paris. Terminei o livro com um vazio aqui dentro, pensando em todas outras as Andreas, Jacquelines e anônimas que sofreram e sofrem o preconceito por serem trans e travestis.
Achei a história bastante confusa, cheia de idas e vindas. Tirando esse ponto, eu gostei muito da forma nua e crua como o Chico narra as vidas da Andreia, da Cris e da Jaqueline.
Fico imaginando como essas mulheres foram fortes e quanto as mulheres trans continuam sofrendo e sendo marginalizadas.
Como diz a Kaka Di Polly, precisamos mostrar o mundo que existiu e existe vida trans para deixar o caminho menos árduo para quem chega agora e para homenagear quem abriu e lutou e luta bravamente no passado e no presente!
MARAVILHOSO! Apesar dos pesares, foram grandes ícones da noite e da causa LGBTQ, principalmente na letra T que é marginalizada entre as marginalizadas. Adorei a escrita do Chico, apesar de alguns errinhos nas datas aqui e acolá.
Nem vilãs, nem heroínas - as rainhas da noite representam um retrato das lutas da comunidade T da década de 1970 até meados dos anos 2000. Neste livro empolgante do jornalista Chico Felitti, acompanhamos a jornada intensa de travestis e transsexuais que dominaram a noite paulistana por mais de 30 anos. As personagens principais são Jacqueline Welch, Andréa de Mayo e Cristiane Jordan. Entre um capítulo e outro, apresentações artísticas muito bem descritas, que nos dão a sensação de estar naqueles locais. Felitti cruza narrativas, apresenta personagens complexas e fascinantes, conta boa parte da história do próprio centro de São Paulo e ensaia o que poderia muito bem ser um épico. Deixa muito claro, de início - toda história é contada por um lado e esta assume a posição da comunidade T. Uma história muito negligenciada e que, por muitos anos, foi escrita majoritariamente em documentos policiais. Vemos um registro completo da vida dessas e outras rainhas da noite. Suas lutas, suas resistências, suas vinganças, mentiras e mais. Esse é um livro inesquecível e que daria uma maravilhosa adaptação para a TV (ou streaming).
E quem conseguiria imaginar o que foi o centro de São Paulo que essas pessoas T vivenciaram senão o Felitti? A paisagem que o livro mostra é realmente de um mundo anterior, e as coadjuvantes e protagonistas desta cena tem histórias mais memoráveis que muitas personalidades que vimos e ouvimos por aí. Violência e acolhimento são opostos que convivem e disputam os espaços diários deste contexto, que só hoje encontra sua voz (graças!) e vem à tona mais de cinquenta anos depois, através de uma reparação histórica, por toda a marginalização e apagamento de tantas vidas.
A narrativa se perde diante de tantos fatos. Não dá para entender se há a linearidade, se seguimos as sujeitas ou se a história - ou as histórias - precisa ser contada numa confusão semelhante àquela que pareceu compô-la. É um registro intenso, vale a leitura.
Reconhecer as ruas, alguns dos nomes de boates e se sentir próximas das rainhas é muito interessante. Chico faz isso de forma fácil de ler, empática e jornalística.
Historias interessantes que ficam meio confusas na narrativa caótica. Talvez seja essa mesmo a intenção do autor, pautar um ritmo meio desestruturado - tal qual a vida das personagens. Gostei mas não amei.
“No começo, queriam pôr a gente pra brigar, criar uma disputa. Mas nunca teve disso. Nós éramos irmãs.”
Ouvi esse livro pelo audiobook da Storytel e de primeira fiquei decepcionada quando vi que não era narrado pelo Chico Felitti, mas logo que comecei a ouvir vi que foi uma "boa decepção", porque a narração da Renata Carvalho é excepcional, traz ainda mais alma pro livro. Eu me senti uma burra sem cultura, como eu vivi quase 30 anos em São Paulo e não conhecia essas personalidades? O trabalho de pesquisa do Chico, como sempre, foi maravilhoso. Esse livro em certos momentos é divertido, as vezes brutal, mas o tempo todo é interessante. Comentário clichê, eu sei, mas são histórias que necessitavam ser contadas. A polícia, a sociedade, todos tentaram muito apagar não só a história, mas a existência, a própria vida, dessas travestis. Por mais obras que devolvam um pouco do que essas mulheres mereciam.
Interessante história do underground de São Paulo dos anos 70, 80 e 90. História incrível sobre travestis que, na ausência do Estado, criaram suas própria leis pra se protegerem.
Chico felitti sendo Chico felitti - pouca profundidade, fatos históricos errados e alternância de tempos, épocas e personagem, bem como a narrativa, muito confusos.
Rainhas da Noite é um livro triste. E essa tristeza não vem apenas das violências narradas, mas do reconhecimento de que elas não pertencem ao passado. O livro termina, mas a lógica que produziu aquelas vidas e aquelas mortes continua operando. Chico Felitti reconstrói a trajetória de travestis que dominaram a noite do centro de São Paulo e, ao fazê-lo, expõe um país que insiste em apagar, perseguir e destruir certas existências.
O conceito de violência arquival, apresentado nas primeiras páginas, é central para compreender o livro. Essas mulheres não foram apenas vítimas de violência física, policial ou social; foram também vítimas de um apagamento sistemático. Seus nomes, histórias e trajetórias não entraram no arquivo oficial. Quando aparecem, surgem distorcidas, reduzidas a notas policiais ou ao sensacionalismo. Rainhas da Noite atua nesse vazio, trabalhando com memória oral, relatos fragmentários e lembranças atravessadas pelo medo, pela violência e pelo esquecimento imposto.
Parte da recepção do livro acusa Felitti de “humanizar criminosas”. Essa crítica revela mais sobre quem lê do que sobre o texto. O livro não absolve nem embeleza suas personagens. Ele as apresenta como foram: violentas em muitos momentos, contraditórias, capazes tanto de gestos de brutalidade quanto de cuidado. Andrea de Mayo, por exemplo, exercia controle violento sobre outras travestis, explorava, agia com crueldade, mas também tinha momentos de ternura. Mostrar isso não é justificar; é recusar a caricatura. A ideia de que apresentar complexidade equivale a “humanizar demais” revela o quanto ainda se espera que corpos travestis sejam unidimensionais, legíveis apenas como vítimas ou monstros.
Essa exigência moral raramente recai com a mesma força sobre personagens históricos cis, brancos e de classe média. A literatura está repleta de figuras violentas e eticamente ambíguas tratadas como complexas, trágicas ou interessantes. O desconforto surge quando essa complexidade aparece em corpos que muitos prefeririam manter no lugar da desumanização. O livro expõe esse limite do leitor.
A violência atravessa a obra em múltiplas camadas. Violência familiar, que expulsa essas meninas de casa. Violência institucional, que as empurra para a prostituição. Violência policial, narrada sem eufemismo. Operações tratadas pela imprensa como “limpeza” revelam um projeto explícito de higienização social. A polícia aparece não como proteção falha, mas como agente ativo da violência.
Há também violência entre travestis, e o livro não a suaviza. Lê-la de forma moralizante, porém, é um erro. Essa violência não surge do nada. Ela é resposta, forma de sobrevivência num mundo que só oferece brutalidade. Essas mulheres devolvem ao mundo o que o mundo sempre lhes entregou. Quando a vida só oferece horror, não nasce virtude; nasce endurecimento.
Há violências mais silenciosas, igualmente devastadoras. O nome negado na vida e na morte. Andrea de Mayo enterrada sob o nome de registro, corrigido apenas depois. A dignidade recusada até o fim. A impossibilidade do amor, da família, da segurança. O corpo constantemente ameaçado pelo HIV, pelo silicone industrial, pelas drogas, pelos clientes, pela polícia. Para corpos trans, não há lugar seguro — nunca houve, e ainda não há.
Talvez uma das constatações mais cruéis do livro seja esta: até a bondade foi roubada dessas mulheres. Qualquer gesto de cuidado precisava coexistir com dureza extrema, porque a suavidade também era punida. Elas se endureceram para sobreviver e depois foram criminalizadas por isso.
Há quem aponte possíveis imprecisões factuais no livro. Essas observações não devem ser descartadas, mas precisam ser pensadas à luz do projeto da obra. Exigir precisão absoluta de um livro que denuncia a violência arquival pode, em certos casos, acabar reafirmando a ideia de que apenas os registros oficiais — produzidos por instituições que historicamente apagaram essas vidas — têm valor como verdade. Isso não significa que erros não importem, mas que seu peso precisa ser avaliado com critério.
Rainhas da Noite é um livro necessário porque essas histórias continuam acontecendo. O Brasil segue sendo, ano após ano, um dos países que mais mata pessoas trans no mundo. E, ainda assim, quantos nomes conhecemos? Quantas histórias chegam ao espaço público? O apagamento simbólico continua produzindo morte real.
Felitti não salva essas mulheres. Não tenta. O que ele faz é recusar traí-las mais uma vez. Ao lhes conceder dignidade narrativa, o livro realiza um reparo simbólico contra uma história que insistiu em negar a essas existências até mesmo o direito à memória. Não é consolo. É confronto.
esse seria um livro 5 estrelas se eu não houvesse pesquisado mais sobre o background de tais rainhas! o livro humaniza as mesmas trazendo aspectos de suas vidas que vão além de toda a violência cometida pela realeza, e de certa todas são humanizadas
o fato de mostrar o outro lado da história delas é legal e interessante, mas desenvolvi um sentimento de empatia que não gosto. isso é um ponto positivo pro autor que consegue “manipular” o leitor a acreditar que as figuras apresentadas são pessoas além da violência. mas a partir do momento em que os relatos apresentados são de pessoas afetuosas com as mesmas, excluindo completamente pessoas que poderiam complementar a história ao explicar a antipatia por tais, me senti meio manipulado a acreditar que as rainhas eram empáticas e muitas vezes solidárias, o que não é vdd!
acho que esse livro merece ser lido por toda a comunidade lgbt brasileira, porém com pesquisa além! entender a história das 3, vai além do que é documentado aqui, e se a personalidade “maldosa” não houvesse sido ofuscada, eu teria, com toda certeza, dado essas 5 estrelas
Estava animado para essa leitura. Já havia lido outro livro do Chico Felitti e curto as suas reportagens e podcasts. Foi interessante entender quem eram as rainhas da noite. Não apenas por eu ser um homem gay — e essa ser a pré-história da história de todos nós do Brasil — mas também, por ser a minha história com a cidade de São Paulo. Muitos tios e primos meus moram na metrópole e convivem com o centro. A São Paulo que eu, ainda criança do interior do RS, conheci, foi essa retratada no livro. As suas travestis eram aquelas personagens que eu via de longe, vagando por uma praça ou escoradas em uma esquina. Foi um prazer ainda maior ler Rainhas da Noite junto a outra obra, especialmente complementar a essa e que indicou fazer essa leitura combinandinha: Babado Forte, da Erika Palomino. Comprei a nova edição (já que a antiga existia apenas em sebos e em valores estratosféricos) e chegou junto ao livro do Felitti. Na obra de Palomino, temos a biografia das noites. Na de Felitti, a biografia das Rainhas noturnas.
esse áudio livro foi uma experiência única. escutei super rápido pq a história é super envolvente, me deixou curiosa do início ao fim. foi como um podcast que não quero parar de ouvir nunca. ao longo da história, fiquei muito emocionada com a vida de mulheres tão incríveis (apesar de todos os pesares), incrédula com os eventos e as lendas das rainhas da noite e profundamente envergonhada por desconhecer tanto de vidas quase históricas. a vida noturna de São Paulo nos anos de 1980 é assustadora, violenta e visceral. é surpreendente que um ambiente tão inóspito possa abrigar bom humor, cumplicidade e irmandade tão genuína. livro incrível que recomendo para todos.
spoiler: a história da morte da Jaqueline me deixou mto abalada. o trecho que a mona ela não podia ter ficado sozinha na morte acabou comigo. esse assassinato continuar sendo um mistério é um fato vergonhoso que só escancara a negligência e violência institucional das pessoas trans e travestis. violência absurda e triste que desumaniza até quando não há mais vida.
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