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Mulher Feita e Outros Contos

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Como podemos comparar um homem que deixou de ser escritor para se dedicar ao ofício de mecânico com uma mulher que viaja em um trem de Berlim para Munique enquanto observa outra passageira comer um ovo, e ainda, com uma menina que não aceita o fato de não ser notada por um colega de classe? Como esses e outros personagens tão diversos podem confluir? Aparentemente, não há nada que nos faça pensar que histórias tão banais possam se interligar, mas, nos dez textos de Mulher feita e outros contos, Marilene Felinto usa a simplicidade cotidiana para mostrar ao leitor que a complexidade da vida está ligada de modo íntimo ao ordinário.

A certa altura, uma senhora se surpreende ao ser questionada por uma jovem a respeito de formigas tanajuras servidas como iguarias no interior do país. Aquela pergunta tão singela, sobre algo tão prosaico, recria "na memória da velha senhora o alarido de crianças e adultos, a gritaria, a correria alegre de gente abatendo com redes finas e pedaços de pano as tanajuras que esvoaçavam baixo, voando e revoando em nuvens, enxames pretos, cheias de asas, sobre as cabeças das pessoas". De uma conversa quase retórica em uma mesa de café da manhã, Marilene Felinto revolve áreas há muito desativadas da memória social, apresenta um choque de gerações e, consequentemente, carrega o leitor ao mais profundo dos Brasis.

Nesta volta da consagrada autora de As mulheres de Tijucopapo ao conto, as confluências e separações acontecem ao acaso, de forma leve, mas impactante. O leitor que mergulhar nesse microcosmo sairá dele com a sensação de que se encontrou com um amigo, com a infância, ou a própria velhice, como se um pouco de cada um de nós estivesse descrito nas linhas desse livro.

Mulher feita e outros contos é uma reunião desse tipo de acontecimento, com personagens majoritariamente femininas que nos permitem refletir sobre a inconstância dos dias, como se fosse "um comentário qualquer desses, do lugar da nossa arrogância inútil" que nos faz rir "feito adolescentes sem compromisso". São as linhas que costuram os nossos dias, os traços que, como desenhos imperfeitos, atingem a beleza que buscamos no comum.

94 pages, Kindle Edition

First published September 20, 2022

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About the author

Marilene Felinto

20 books9 followers
Marilene Felinto (Recife, 1957) é escritora e crítica. Vive em São Paulo desde 1968, onde formou-se em letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Em 1982, publicou seu primeiro romance, As mulheres de Tijucopapo (relançado por ocasião da Flip), ganhador prêmio Jabuti na categoria “Autor Revelação”. Foi colunista no jornal Folha de S.Paulo e na revista Caros Amigos. Em 2019, lança Fama e infâmia: uma crítica ao jornalismo brasileiro, Sinfonia de contos de infância: para crianças e adultos, Contos reunidos e Autobiografia de uma escrita de ficção (sua dissertação de mestrado) todos em edições de autora.

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Profile Image for Henrique.
1,034 reviews29 followers
August 4, 2025
Que escrita sensível e delicada! Tenho lido neste ano muitos livros contemporâneos de conto, todos brasileiros, e este foi um dos que mais me impactou. As histórias flagram pequenas dores, grande parte envolvendo mulheres, por vezes crianças, e chegam a um resultado terno e emocionante.

Gostei já a partir do primeiro conto, "Hipertexto a lápis", em que uma mulher adulta rememora um episódio da escola, quando uma professora quis mostrar à turma que não existia ninguém feio, o que contradizia fortemente o que essa menina sempre havia ouvido a seu próprio respeito.

Esse conto é aparentado ao seguinte, "Mulher feita", em que uma garota se dá conta de que mulheres têm peito, e começa a refletir sobre o quanto isso lhe parecia estranho, enquanto pensa no seu próprio caso e faz comparações com o dos homens, em uma luta contra seu próprio corpo.

Em "Michael", a sensibilidade já é de uma mulher mais velha, que rememora um antigo amor, um sujeito que havia lutado em uma guerra e não gostava de falar a respeito, e a mulher o associa a outras paixões da sua vida, enquanto segue tentando suprir essa ausência de décadas.

"Segunda classe" trata de um encontro em um trem, de Berlim a Munique, entre a narradora e uma mulher pobre que começa a fazer uma refeição a base de ovo e batata no próprio vagão, levando a narradora a fazer uma série de reflexões sobre sua própria trajetória em meio à miséria.

Já em "Formiga moderna", há o encontro de uma senhora e uma jovem, duas gerações distintas, subitamente ligadas por uma pergunta sobre comer tanajura, a qual provoca todo um movimento proustiano na senhora, que evoca suas memórias e as confronta com o que vê na jovem.

"Primeira morte", por sua vez, tem como protagonista um homem, alguém que havia tentado ser um escritor, mas por fim desistiu e se tornou um mecânico, e o conto flagra todos os movimentos interiores pelos quais esse homem passou para tomar essa decisão e viver com base nela.

"Escarlatina", outra grande peça, também é um conto de infância, no qual uma menina passa a se interessar por um menino da sua sala, e a certa altura esse menino pega a escarlatina, enquanto a menina reflete sobre a falta de atenção que todos lhe dão e enxerga um instante de vingança.

"Ponto-cruz, ponto-atrás" é uma dolorosa história sobre a filha de uma costureira, de uma mulher que ganhava o pão dessa maneira, mas que não suportava esse ofício e essa condição, enquanto a filha havia decidido que, ao contrário dela, seria feliz, mas também precisava lidar com costura.

Há ainda "Canja", em que uma filha precisa preparar a dita canja para a mãe já envelhecida e que não poderia mesmo comer algo mais substancial, enquanto rememora como era o processo de degola de galinhas empreendido por essa própria mãe durante a infância dessa filha.

O livro tem ainda o conto "Ao vivo", este também com um narrador homem, em que ele reflete sobre a perda de um amigo de muito tempo, revivendo histórias, dizeres e conversares, enquanto contempla as filhas dele pulando e rindo e, mesmo em seu ateísmo, cogita um reencontro.

São 10 contos, portanto, e fiz questão de fazer um resuminho de todos para eu mesmo me lembrar, já que eles me tocaram bastante. A escrita da autora é simples, mas consegue com muito naturalidade arrastar o leitor para o ambiente e, sobretudo, as emoções de seus personagens.

Grande livro, em suma.
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