"Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância/ é o sumo bem dos cidadãos de bem,/ é a verdadeira marca dos eleitos./ Ter sucesso é não ter que saber. Saber cansa", escreve Paulo Henriques Britto no poema "Vers de circonstance (Brasil, 2020)". Com ceticismo e sarcasmo, o poeta alia verve ao rigor da forma fixa em um de seus livros mais mordazes – e em muitos momentos retrata diretamente os dias que correm, pautados pela fé cega e pelo desprezo pela racionalidade.
Paulo Fernando Henriques Britto (Rio de Janeiro RJ 1952). Poeta, contista, tradutor e professor. Vive no Rio de Janeiro, exceto nos períodos entre 1962-1964 e 1972-1973, quando mora nos Estados Unidos. Os conhecimentos linguísticos e culturais adquiridos nesses períodos o levam a se especializar nos estudos, bem como trabalhar como professor e tradutor de língua inglesa. Forma-se em português e inglês no curso de letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Pela mesma instituição obtém título de mestre e, mais tarde, torna-se professor em cursos de tradução, criação literária e literatura brasileira. Estreia como poeta, em 1982, com Liturgia da Matéria. À obra seguem-se outros volumes de poesia, como Macau (2003), pelo qual recebe o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. Prosador e ensaísta, publica contos em Paraísos Artificiais (2004) e Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (2009), este com textos que partem do álbum homônimo do músico Sérgio Sampaio (1947 - 1994), para falar sobre o tropicalismo. É tradutor de diversas obras importantes, tendo vertido do inglês para o português cerca de 80 livros, entre os quais se destacam O Som e a Fúria, do americano William Faulkner (1897 - 1962), e Beppo, do inglês Lord Byron (1788 - 1824).
Fim de Verão, a poesia que dá título ao livro, é uma das melhores elaborações que já li sobre a nossa (in)capacidade de apreender as migalhas do tempo na busca pelo sentido das coisas. Na maioria das poesias, Paulo Henrique torce a linguagem em uma jornada sobre os escombros de um tempo perdido e que, no entanto, não cessa de pesar sobre o ser com uma força gravitacional.
Toda vida é provisória, todo poema é fragmento. Cada dia, cada hora, cada verso é só um momento de alguma totalidade que você sequer concebe. Viva e escreva e não se abale. Você não é o que você escreve"