MULHER IDOSA ADORMECE NO MEU OMBRO
(…)
Mulher Idosa no autocarro levanta-se,
sacos de plástico cheios de 70 montanhas e um rio.
Ofereço-lhe ajuda. Ela está preocupada com a minha coluna.
É graças a mulheres como ela que tenho espinha dorsal.
(…) Saímos do autocarro, caminhando para a barreira militar.
Sob ocupação, ao caminhar sentimo-nos descalços.
Aqui, ao caminhar sentimos que tentamos correr na água
O soldado, louro e bronzeado, pede-lhe a licença.
A minha licença: estas rugas
mais velhas do que a existência do vosso país.
O meu sorriso é um sol.
O soldado, com sotaque e não judeu, pergunta-lhe o que está no saco.
Figos, cabrão. Que mais queres saber?
Recheei-os com tempestades
e bombas e baques
(…)
Já conhecia do livro “Vítimas Perfeitas” a história de Rifqa, a combativa avó de Mohammed El-Kurd, que morreu aos 103 anos.
A minha avó atravessou várias guerras e muito mais. Era mais velha do que a colonização sionista. Foi, por isso, saudada como o “ícone da resistência palestiniana” pelos hierosolimitas. Durante a Nakba de 1948, deixou a sua casa de Haifa meticulosamente limpa, sem saber que a estava a preparar para os seus colonizadores. Refugiada, atirada com os seus filhos de cidade em cidade, instalou-se finalmente em Jerusalém, apenas para ser confrontada com a Naksa e com o saque de Jerusalém e, nos seus últimos dias de vida, com a confiscação iminente da Cisjordânia.
Quando chegou a altura de recolher os seus poemas para os publicar, percebeu que o denominador comum era essa avó, apelidada de “árvore de jasmim da Palestina” e é assim que “Rifqa” surge para a homenagear e imortalizar.
Entre os meus preferidos encontra-se o tríptico "Três Mulheres", em que a terceira parte tão visceral me fez recordar “Acaso é Nascer” de Marta Pais de Oliveira.
TRÊS MULHERES
(…)
Gaza – mulher,
vive onde os buldózeres assentam em nuvens.
A cama de hospital é o entulho da sua casa,
nada restou do marido a não ser uma barba ensanguentada.
Nada à sua volta a não ser frigoríficos em árvores,
mobília conspurcada,
fragmentos de uma vida, desfigurada.
Ela agarra-se ao recife de cimento
como a um cobertor, como à salva de Maria.
Não há vida sem fazer força, não há vida sob cerco.
A língua dela é um minarete que canta o nome de Deus
numa oração furiosa.
Os mísseis, como a chuva, dizem-lhe para fazer força.
As suas coxas abrem-se, dando à luz um céu roxo,
destroçado e silencioso.
Ela lamenta-se,
chora a sua incapacidade de fazer outro luto.
Imagina o cordão umbilical,
uma forca.