Assim que li a sinopse de "Do Outro Lado" de Mafalda Santos, fiquei bastante curiosa com esta obra que prometia mundos paralelos, encontros e desencontros, vírus mortais e claro, segredos. A narrativa inicia tendo como motor uma história de amor interrompida de forma inexplicável e mais cedo do que os seus protagonistas esperavam, mas outras realidades confluem para esta narrativa que não basta com um laço (ou deslaço) amoroso.
Além da história em si mesma, vamos encontrando nesta obra várias referências que acabam por nos dar uma visão mais alargada, e até simbólica, das história e das experiências das personagens que vamos acompanhando ao longo destas curtas páginas. Por isso, destaco a música de Philip Glass, que me remete para loops intermináveis, ou os painéis de "O Juízo Final" de Hieronymus Bosch, uma lembrança de pecados e de castigos.
O livro é relativamente curto, com capítulos que se lêem num fôlego, e que nos deixa muito pouco tempo para aquilo em que as personagens se estão a meter (e a nós com elas). E gostava de ter lido muito mais, pois acredito que havia tanto que poderia ser explorado neste(s) mundo(s) considerando o que nos foi mostrado, pese embora a urgência na sobrevivência das suas personagens. A escrita tem um tom bastante cinematográfico, que contribui para essa rapidez, em que o pensamento deve ser tão ou mais célere que as acções. Ainda assim, gostava de ter visto alguns momentos de transição, aproveitados para enriquecer a narrativa.
Mas, acima de tudo, acho que este livro é feito de deslumbramentos, que se desfazem ante os nossos olhos, sem que sejamos capazes de fazer outra coisa que não olhar para o vazio que nos deixam. Há tanto a perder neste(s) mundo(s) e que não podem mais ser recuperados: a vida que se tinha, os amores que se sentia, os amigos que se abraçavam e os sentimentos de empatia, esperança ou de um novo começo que se acalentava. As escolhas que, analisadas de longe ou com um café de Jamaica Blue Mountain na mão e Philip Glass de fundo, serão julgadas e castigadas em concordância.
Porque se não podemos mudar o passado, talvez não se deva, igualmente, alterar o futuro.
► Livro cedido pela Suma de Letras, do Grupo Penguin Random House Portugal.