Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira, lugarejo do interior baiano, protótipo do político interiorano, com vocação para a verborragia e demagogo por natureza, espelho do homem público de província latino-americana, tem por ideal mórbido e fixo dar à pacata e sonolenta comunidade, onde há muito ninguém morreu ou algum crime é cometido, um cemitério. Para isso, no entanto, e assim satisfazer seus sonhos de grandeza, é forçoso "encontrar" um morto. E em política, declara Odorico, "os finalmentes justifica os não obstantes". Assim, um cangaceiro famoso ascende ao posto de delegado, um órgão de imprensa é invadido, a honra de uma esposa é maculada e ela se torna pivô e alvo de sangrento atentado, a mentira e a calúnia grassam, tudo isso acobertado pela malícia e o cinismo do experimentado politiqueiro. A linha que cose todo o entrecho é inegavelmente a fala arrevesada e pretensiosa da figura do prefeito, que, com sua lábia, eivada de saborosos neologismos (e a frase oswaldiana, "A milionária contribuição de todos os erros" imediatamente vem à tona), leva no bico a tudo e a todos.
Alfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido pelo sobrenome Dias Gomes, foi um romancista, dramaturgo, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras.
Cresci vendo o Paulo Gracindo fazendo miséria com seu Odorico Paraguaçu da TV, portanto é uma delícia finalmente ir ao texto original e ficar lembrando dele e dos demais atores que encarnaram tais personagens tão icônicos. O texto por si só é uma delicinha de ler, além do componente crítico não apenas da política do Brasil profundo, mas como a macropolitica que ainda vemos hoje.
É incrível como a peça O Bem-Amado, de Dias Gomes, ainda continua bastante atual – talvez tenha até ganhado uma nova camada, ao ter ao seu centro a necropolítica. A sátira à política brasileira, por si só, é atemporal, mas no atual cenário, o texto encontra um novo fôlego. Odorico Paraguaçu é o típico candidato populista brasileiro, o que já deixa a peça sempre na moda, e se elege prefeito com uma única proposta: construir um cemitério na cidade de Sucupira, que não tem nenhum. Ora, é uma promessa válida e necessária, mas há um gosto pelo mórbido. Ele não tem planos sociais, para educação ou melhoria de outras coisas na cidade, apenas o cemitério.
Ao ser eleito, como diz Anatol Rosenfeld, Odorico gasta “o dinheiro que se destina à vida (água, luz)” com a morte. Após a construção da necrópole, a expectativa da morte de algum cidadão torna-se uma necessidade, mas como isso não acontece, o jeito é contratar um pistoleiro, Zeca Diabo, para dar cabo de alguém e inaugurar o cemitério, com toda pompa e circunstância.
Que a política brasileira é pautada pela hipocrisia não é nenhuma novidade, nesse sentido, Dias Gomes não inventa nada, mas O Bem-Amado sabe como caçoar disso tudo. Não devia haver nenhuma revelação na peça no quando de sua estreia em 1962, e nem agora, mas ela tira o véu do jogo cínico do poder que parece ser a base do governismo no Brasil, fora isso, o texto é muito engraçado com seus tipos – em especial, obviamente, o protagonista, dado a criar neologismo, em especial advérbios, como “prafrentemente”.
Ao final do 5o quadro, Odorico diz: “Em política, os finalmentes justificam os não-obstantes”, e a peça toda gira em torno disso, os desvios de condutas que precisam ser justificados em nome de um, suposto, progresso, que, no caso, é a inauguração do cemitério. Há uma série de intrigas para que isso finalmente aconteça selando o destino não muito inesperado do seu protagonista.
Sensacional! Odorico Paraguaçu continua super atual (e engraçadíssimo):
"...é uma alegria poder anunciar que prafrentemente vocês já poderão morrer descansados, tranquilos e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira. E quem votou em mim, basta dizer isso ao padre na hora da extrema-unção, que tem enterro e cova de graça, conforme o prometido".
E o Zeca Diabo:
Odorico: O senhor sabe ler? Zeca Diabo: De carreirinha, não, mas soletrando, vai.
Hahahaha! Pra quem se lembra desses dois na pele dos PERFEITOS Paulo Gracindo e Lima Duarte, fica melhor ainda!
Incrível como o texto da peça é bom, é engraçado e traz personagens bem únicos. Gostei muito da versão que eu li contar com prefácio explicando mais sobre a obra, tanto sua concepção, quanto adaptações para novela e seriado em plena ditadura militar.
"O bem-amado" faz parte do imaginário do brasileiro contemporâneo, como o futebol, o carnaval; Sucupira e Odorico constroem o tipo-Brasil, e a utopia inversa. Na mestria do teatro de Dias Gomes, é difícil desgostar da peça que, além de bastante profunda moral e politicamente, é engraçadíssima. Começa-se pela situação cômica estabelecida a priori no texto e seu absurdo que advém disso: a busca por um defunto. Assim é a utopia inversa de Sucupira: uma cidade em que se busca alguém para morrer, mas de tão pacata e boa, até cura os moribundos; que pergunte-se a Ernesto! Repleta de reviravoltas e uma profundidade assustadora dos personagens, o texto conciso de Dias Gomes é muito cativante e chamativo, não à toa é um grande sucesso popular depois de adaptado para a televisão na década de 70 e para o cinema recentemente. Quem é Odorico se não grandes figuras da política como Getúlio Vargas, Lula, João Dória e Michel Temer? Quem é Neco Pedreira se não jornalistas em busca de furos sensacionalistas como a Folha de S. Paulo e o Estadão? Quem é Zeca Diabo e Dorotéa se não todos nós, assomados pelas dificuldades de que não somos inteiramente culpados, mas que também nos responsabilizamos; porém, acima de tudo, que estamos nas mãos da política demagoga e da imprensa marronzista? Difícil é desgostar de Dias Gomes, difícil é não se identificar n'O Bem-Amado.
Escrito há muito tempo, mas infelizmente ainda muito atual, valendo para diferentes escalas da política brasileira. Tudo se resume à campanha para se manter no poder, independentemente do preço, para que o político seja "bem-amado", vale tudo. Áreas importantes sofrem pois seus recursos são desviados. Mas no fim, por mais que a oposição ataque ao longo de um grande tempo, a maioria é sempre "farinha do mesmo saco".
Acho que nunca tinha lido e vi no Goodreads alguém que leu e falou bem e era curtinho... me lembrou muito O alienista, com a ironia terrivelmente política por trás de cada página e o drama culturalmente tão latino saltando pelas páginas. (ainda gosto mais do Alienista, contudo).
(PT) Na povoação de Sucupira, algures da Bahia, o perfeito Odorico Paraguaçu tem um problema: construiu um cemitério... e não tem defunto. E necessita de um. Rapidamente.
Esse teatro é muito divertido e envolvente, sinto que consegui sair de uma fase da minha vida onde nada do que eu lia me agravada como eu queria (por pura hiperatividade literária), mas esse teatro, cara... Eu sinto capaz de ler até a bula do Neosoro! É um teatro atemporal, e sempre que falamos de política e defunto na mesma frase quando se trata no Brasil - infelizmente - tornamos o assunto atemporal. Dias Gomes é muito sagaz, muito mesmo. Obrigada por me fazer rir, querido.
A história não é nenhuma novidade, visto que já foi adaptada para a televisão e o cinema, mas saber o que acontecia não mudou em nada a diversão que foi acompanhar essa saga do prefeito em busca de um defunto.
Décadas se passaram desde a publicação e tudo continua tão atual que em alguns momentos eu ria de nervoso com a similaridade de algumas recentes situações.
Dias Gomes não foi conhecido como maioral à toa e o único lamento é que a história é curta demais. Tirando isso, é realmente ótima e vale muito a pena a leitura.
Conhecer Dias Gomes através da televisão já é fascinante. Ler o texto de dramaturgia das peripécias de Odorico Paraguaçu é uma delícia. Vale a pena para observar a ideia do texto em cena e descobrir que a primeira encenação no Rio de Janeiro contou com Procópio Ferreira como Odorico.
mais um que sorteei da minha lista de leitura do goodreads. ele tinha sido colocado nela faz mtos anos então acredito que tenha sido recomendação de alguma professora da escola. bem engraçado e atemporal!
Dias Gomes escreveu uma comédia alegórica (ou farsa) infelizmente atemporal sobre políticos demagógicos e seus delírios, tão comuns nos dias de hoje (vide o ex-presidente e sua corja de apoiadores na Câmara e no Senado). É uma leitura simples, rápida e, em vários momentos, hilária que trás a cidadezinha de Sucupira como cenário, uma metonímia que representa todo o Brasil. Recomendo demais essa leitura, mas sempre mantendo em mente que figuras como o Odorico não são tão perigosas como ridículas.