Vi de perto (e muitos anos passados) alguns dos efeitos que a discriminação contra os retornados teve. Sei o rancor, mas também a superação. Mas nunca, até hoje, tinha percebido que era o medo de ser invisível, a recusa de uma existência individual, mas sobretudo a recusa de uma existência comum aquilo que levava aos comportamentos que presenciei:
"...estou de luto, hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado, vivemos na certeza de que as terras não morrem, vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa para sempre e que também nunca faltará aos nossos filhos a terra onde os fizemos nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode morrer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra."
O Retorno não é um livro fácil. Não é fácil de ler ou digerir, e, certamente, terá sido uma espécie de epopeia o ato de o escrever. Porque aqui não se trata necessariamente o colonialismo, a guerra, não se tratam as relações entre um povo colonizador e um povo colonizado, mas sim as tensões entre filhos da mesma terra, a inveja mesquinha, o medo, a ignorância, a intolerância e o orgulho que separaram por muito tempo aqueles que foram e vieram dos que ficaram:
"A puta de matemática pôs os retornados na fila mais afastada das janelas, nos lugares com menos luz, deve pensar que somos como as rosas da mãe que murchavam se não lhes dava o sol, deve ser isso. Um dos retornados que responda, a puta nunca diz os nossos nomes, um dos retornados que responda, era o que faltava, nunca abro a boca, o retornado da carteira do fundo que responda, insistiu a gaja, estava mesmo a querer farra. Custa assim tanto decorar o meu nome, se me chamasse Kijibanganga ainda tinha desculpa mas Rui, porra, é um nome fácil e mesmo que me chamasse Kijibanganga a puta tinha obrigação de decorar. Mas não, o retornado aí do fundo que responda, é que nem que me tivesse arrancado as unhas e os dentes falava, nem que fossem buscar os da PIDE que prenderam o pai do Helder."
Estes comportamentos ainda ecoavam quando cresci - já não se dirigiam a ninguém a particular, mas nomeavam uma classe de cidadãos que, pelo olhar de muitos, tinha abdicado dos seus direitos em terra nacional pela ousadia de ir procurar o Eldourado nas colónias:
"Um homem tem de seguir o trabalho como o carro segue os bois. E ter um coração agradecido. O pai só estudou até à segunda classe mas não há nada que não saiba sobre o livro da vida que, segundo o pai, é o que mais ensina."
Aquilo que foi vendido, a uns e outros, foi uma ideia bárbara e absurda, transvestida do brilho de uma estrela já morta: Portugal foi um colonizador e as suas ações mais tardias são uma triste amostra do fim de um império que, como todos, sempre assentou tanto na exploração do mais fraco como na ideia subliminar de uma igualdade em que um é mais igual do que o outro:
"Os pretos. A não ser que se queira explicar o que são, aí é o preto, o preto é preguiçoso, gostam de estar ao sol como os lagartos, o preto é arrogante, se caminham de cabeça baixa é só para não olharem para nós, o preto é burro, não entendem o que se lhes diz, o preto é abusador, se lhes damos a mão querem logo o braço, o preto é ingrato, por muito que lhes façamos nunca estão contentes, podia-se estar horas a falar do preto mas os brancos não gostavam de perder tempo com isso, bastava dizer, é preto e já se sabe do que a casa gasta."
A agonia do império é palpável nas palavras do narrador de O Retorno e, uma vez mais, espelha muita coisa que me foi ensinada e deixa claro que Portugal é um país onde o tempo passa muito, muito devagar, onde sucessivas gerações vivem os mesmos ideais, são educados com os mesmos currículos arcaicos, as mesmas ideias idiotas de uma glória antiga que se vai, só agora, finalmente, dissolvendo no tempo porque já não é possível fazer passar a exploração como um grande feito da humanidade:
"Portugal não é um país pequeno, era o que estava escrito no mapa da escola, Portugal não é um país pequeno, é um império do Minho a Timor. A metrópole não pode ser como hoje a vimos no caminho que o táxi fez, ninguém nos ia obrigar a cantar hinos aos sábados de manhã se a metrópole fosse tão acanhada e suja, com ruas tão estreitas onde parece que nem cabemos."
As feridas que ficaram do regresso dos portugueses e do fim das colónias estão latentes na nossa sociedade (talvez se tenham metorfoseado, mas estão cá) e não creio que, tão depressa, sarem. O racismo é endémico, e a inveja quase patológica que grassa as nossas relações, alimentada pelo consumismo desenfreado, também não deve ter grande fim à vista:
"Os de cá não têm razão quando dizem que os pretos não gostavam de nós, os pretos gostavam de nós e queriam que ficássemos lá, foram os de cá que os mandaram expulsar-nos de lá. Por que haviam de fazer uma coisa dessas. Por inveja, os de cá são muito invejosos. Como é que sabes se quase não conheces ninguém de cá. Não é preciso, basta olhar para a cara deles, têm todos cara de fuinhas invejosos."
Aquilo que O Retorno nos devolve é uma imagem muito triste do que foi, e ainda é, Portugal - um país pequenino, de tamanho e mentalidade:
"Se calhar sou eu que vejo mudança onde na verdade não há mudança nenhuma, se calhar sou eu que invento mistério onde não há mistério nenhum, se calhar a mudança não existe e vamo-nos só mostrando de maneiras diferentes."
Definitivamente, aquilo que mais me impressionou foi a dimensão do desalento sentido por quem voltou a casa sem nada para mostrar, sem bens, sem dinheiro, sem roupa e sem a sua própria identidade - perdidos num mar de violência e de incompreensão, numa situação que saiu fora do controlo de todos:
"Amanhã já não estou aqui. Parece impossível. Parece impossivel que o dia de deixar o hotel tenha chegado e que eu tenha medo de sermos outra vez ama familia com uma casa. Tenho medo de deixarmos de ser uma família entre famílias de retornados no hotel e passarmos a ser uma família de retornados entre as famílias de cá. Acho que nunca mais vou ser capaz de pensar e sentir uma coisa de cada vez. Com o tempo devo habituar-me e deixar de me incomodar com isso. Não posso evitar que umas coisas tragam outras ou façam perder outras. Não deve ter mal. E também não deve fazer mal.
(...)
Um avião risca o céu a direito. Silencioso. Como um giz preguiçoso nas mãos invisíveis de deus. Noutro tempo ter-lhe-ia respondido daqui de baixo. Talvez ainda responda. Noutro tempo ter-lhe-ia escrito, talvez ainda escreva, em letras bem grandes a todo o comprimento do terraço para que não possa deixar de ver-me, eu estive aqui.
Eu estive aqui."