Arruda e guiné são plantas com frequência associadas ao continente africano em decorrência de seus usos litúrgicos nas religiões afro-brasileiras, muito embora não sejam nativas da África. Do mesmo modo, os saberes implicados no uso medicinal e mágico-religioso delas não foram transplantados para cá, mas se construíram nas trocas entre ngangas — feiticeiros — negros e pajés, no Brasil. Por isso, os itinerários etno-botânicos dessas plantas nos falam da atualização de um projeto de resistência negra. Se no contexto em que era constitucional dividir pessoas entre senhores e mercadorias, a arruda curou escravizados e a guiné "amansou" senhores, dando contornos de guerra ao massacre ora em curso, hoje, essas plantas atualizam o significado dos saberes tradicionais como ponto de partida do exercício de reinterpretar e imaginar a democracia. Os textos de Bianca Santana reunidos nesta coletânea — apresentada por Edson Lopes Cardoso — foram escritos no calor dos acontecimentos e informam a respeito de diversos temas que figuraram nos noticiários entre 2017 e 2022. Lidos em conjunto, no entanto, eles oferecem uma chave de leitura do Brasil contemporâneo e convocam a imaginar outros futuros. Entre os temas urgentes que Santana aborda, a crise sanitária e a gestão da pandemia de Covid-19 são tópicos que se inserem em um projeto político de desestabilização dos valores republicanos. As constantes ameaças às terras dos povos tradicionais retomam os conflitos da questão agrária e das relações raciais no Brasil. Ainda, a disputa em torno da PEC das Domésticas lança luz sobre a falta de letramento político e racial da nossa classe média. A reunião desses textos potencializa o papel formativo que eles desempenham, e proporciona ao leitor um novo aporte para a percepção das dinâmicas entre presente e passado, além de criar nexos entre notícia e processos históricos, sociais e políticos. E é esse modo de comunicar que reitera os sentidos éticos e políticos evocados pela arruda e guiné.
Diretora-executiva da Casa Sueli Carneiro. Militante da UNEafro Brasil, movimento que compõe a Coalizão Negra Por Direitos. Colunista de ECOA-UOL e da revista Gama.
Doutora em ciência da informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, com uma tese sobre memória e escrita de mulheres negras. Mestra em educação também pela USP.
Autora de Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro (Companhia das Letras, 2021) e de Quando me descobri negra (SESI-SP, 2015).
Organizadora das coletâneas Inovação Ancestral de Mulheres Negras: táticas e políticas do cotidiano ( Oralituras, 2019), Vozes Insurgentes de Mulheres Negras: do século XVIII à primeira década do século XXI (Mazza Edições/ Fundação Rosa Luxemburgo, 2019), e Recursos Educacionais Abertos: práticas colaborativas e políticas públicas (Edufba/Casa de Cultura Digital, 2012).
Colaboradora da revista Cult.
Escritora convidada na Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e na Feira do Livro de Buenos Aires em 2019. Uma das curadoras do Festival Literário de Iguape em 2019 e 2020.
É associada da SOF – Sempreviva Organização Feminista e compõe os conselhos da Artigo 19, dos institutos Marielle Franco e Vladimir Herzog.
Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap.
não sei dizer, eu me senti atraída pela capa e simplesmente comecei a ficar obcecada pela Bianca Santana sem ter lembrança alguma sobre ela. Com certeza saí dessa leitura como uma jornalista ainda melhor!