«A vida come-se quando é boa; come-nos quando é má. E às vezes, quando menos esperamos, também comemos com ela. Em Portugal, antes de todas as coisas, está o tempo. Este tempo. Este que ninguém nos pode tirar e a que os povos com tempos piores chamam, à falta de melhor, clima. Depois, há coisas que crescem por causa do tempo. Como o tempo é bom, são boas. E como as coisas são boas, os portugueses querem comê-las. E comem-nas bem comidas, o mais perto que possam ficar da nascença. Ou da cozinha. O resto bem pode ser do pior que pode haver no mundo. Não é. Mas pode ser, à vontade do freguês, conforme se quiser. Que se lixe esse resto. Quando se come bem – quando se come a vida à nossa volta, com Portugal inteiro à nossa volta, a comer connosco – esse resto também não parece grande por aí além. Que fique por saber como realmente se vive em Portugal. Mas que fique claro que comer, não se come mal. Que sirva este meu livro de gordo desmentido. E o resto é como o resto. Ah, Portugal, nosso restaurante! Mas, quando se come bem e se está com a barriga cheia, o resto que está mal é como o resto de um bom almoço. Alguma coisa há-de fazer-se com ele. Porventura deliciosa, se faz favor.» Miguel Esteves Cardoso
Miguel Esteves Cardoso is a Portuguese writer, translator, critic and journalist. He's a well known monarchist and conservative.
Miguel was born in a middle class family in Lisbon. His father, Joaquim Carlos Esteves Cardoso, was Portuguese and his mother, Hazel Diana Smith, was English. He had a good education and the advantage of a bilingual and bicultural upbringing, helping him to develop an outsider's detachment from the culture of his birth country. In 1979, he graduated from Manchester University in political studies and four years later, in 1983, he received his doctorate in Political Philosophy. While there he made contact with some of the New Wave bands of the Factory records like Joy Division or New Order.
In 1981 Cardoso became the father of twin girls. One year later he returned to Portugal, where he worked as an assisting investigator of the Social Studies Institute on the Lisbon University. He later became a supporting teacher of political sociology in ISCTE and then returned to Manchester University for a postdoctorate in Political Philosophy oriented by Derek Parfit and Joseph Raz.
Embora brilhe aqui e ali, Em Portugal Não Se Come Mal acabou por desiludir. Começou bem, começou com artigos que trazem à lembrança o MEC de antigamente que trabalhava a língua portuguesa e lhe dava voltas de génio que deixam (ainda hoje!) qualquer leitor a rir desenfreadamente.
N'A Causa das Coisas encontra-se pelo menos uma frase genial por artigo (se não mais!), no Em Portugal Não Se Come Mal encontra-se uma ou outra nos primeiros artigos (dignas de nota, há que reconhecer o génio de observações tais como "Os dois molhos portugueses são, metade das vezes, a fome e a outra metade o azeite.") e depois vão gotejando até desaparecer.
Os primeiros artigos são despretensiosos, há o omnipresente privilégio burguês típico de MEC, mas também isso tem o seu encanto. Elogia-se Portugal e os produtos que temos, a sagacidade das velhas que vão às praças. É acutilante e ao mesmo tempo humilde. Mas ainda não se chega bem a meio do livro e é um não parar de recomendações para o Gambrinus e restaurantes que tais, conselhos sobre como encomendar presunto do El Corte Inglés, e divagações sobre chefs e culinária e um mundo que não está ao alcance dos bolsos da maioria dos portugueses. Atenção, nada disto seria de desprezar se fosse mais do que um rol de elogios sem uma ponta de humor. Se eu quisesse estar a ler sobre onde comem os ricos e famosos (passe a expressão, que em Portugal há muito pouco quer de uns quer de outros), estaria a ler a Lux ou uma revista do género.
Esperava muito melhor do MEC, aliás porque cresci a ler os artigos dele e é uma referência para mim.