Após sua caminhonete morrer no meio de uma estrada perdida por entre os caminhos do Sertão, Zé Trancoso se vê diante da porteira de uma cidadezinha guardada por três velhas cegas. Mal sabia o contador de histórias que ali começava um encontro marcado com o seu destino.
Em "Sina", Márcio Benjamin nos apresenta, de forma magistral, o melhor do horror nacional, resgatando por meio dos "causos" e das "histórias de trancoso" uma tradição que corre sempre viva nas veias do nosso Nordeste: o gosto pelo fantástico e pelo assustador.
Basta ir atrás para ver. São gêneros sempre presentes em nossa história, tão antigos quanto a imaginação humana. Seja por meio da contação feita pelos mais velhos, seja através dos romances de cordel, a ficção de gênero tem raízes fortes em terras nordestinas.
Na obra de Márcio, vemos justamente o poder dessas histórias. Temos um romance que se passa em períodos temporais distintos (mas que talvez não sejam tão distintos assim), entremeado por contos, fazendo assim com que "Sina" tenha uma estrutura narrativa um pouco diversa do convencional. Aqui, nos deparamos com uma colcha de retalhos de histórias, que ajudam a compor um cenário maior (algo que eu simplesmente adoro).
E para quem, como eu, acompanha o trabalho do autor há um tempo, deve ter aproveitado bastante a oportunidade de se reencontrar com personagens e narrativas que o autor já havia nos apresentado em obras anteriores, como "Maldito Sertão" e "Agouro", agora apresentadas sob uma nova perspectiva.
Somos apresentados a lobisomens, mulas, entidades diabólicas e fantasmagóricas, visagens e malassombros de todos os tipos, habitantes de um Sertão mágico, onde tudo é possível, até o impossível. E tudo isso com uma escrita saborosíssima, pois a escrita do autor é um negócio fora de série. Para completar, a obra ainda conta com ilustrações fenomenais de Shiko.
No mais, deixo aqui a minha recomendação para todos que procuram terror nacional da melhor qualidade, assim como meus parabéns para Márcio. Compadre, que você continue a alçar voos cada vez mais elevados!