Sina é o primeiro romance do premiado autor Márcio Benjamin publicado pela DarkSide® Books. Uma obra de voz única, mordaz e que transborda assombro e verdade, um presente para quem procura uma literatura enraizada no solo brasileiro. Com um único fio condutor e três linhas temporais distintas que se entrelaçam, nossa jornada começa ao lado de José Trancoso, um viajante que se vê sem carro ou destino, abandonado pela graça divina em uma assombrada estrada de chão batido. A partir desse momento, tudo o que o leitor conhece como “real” passa a ser sublimado, mas não completamente esquecido.
As histórias de Márcio Benjamin e seu porta-voz, Zé Trancoso, não habitam apenas o imaginário coletivo; elas fazem parte do cotidiano das regiões mais interioranas do país, de suas lendas, de seu folclore. O folk horror que o autor apresenta em Sina é exuberante, pungente e facilmente confundido com a realidade do interior nordestino. Para representar o Nordeste com propriedade precisamos experimentar a secura da terra, a amargura do sertão, a beleza que às vezes se esconde no meio da penúria. Para falar do Nordeste é preciso conhecê-lo, e Márcio Benjamin se mostra um especialista em cada palmo de chão que pavimenta seu novo livro. Um genuíno filho dessa terra.
Sina é um livro denso, feito de chão, sangue e gente. Logo no início do livro, como quem desperta de um sonho dentro do outro, nos deparamos com um estranho povoado e suas Três Guardiãs, três mulheres cegas. Da mesma forma, o povoado Solidão também se descortina em um novo personagem, cercado de segredos, um verdadeiro portal no tempo que vai e volta, que oculta e revela, assim como a narrativa enigmática e surpreendente do autor.
A verdadeira sina de um leitor é garimpar, escavar e encontrar obras raras como essa em uma edição trevosa com o toque da Caveira e as ilustrações magistrais de Shiko, vencedor dos prêmios HQMix e Angelo Agostini e considerado um dos maiores nomes do quadrinho brasileiro atual. Como resultado, os leitores podem esperar uma experiência imersiva e sensorial.
Márcio Benjamin nasceu em Natal (RN), em 1980. Autor de romances, roteiros e livros de contos de horror rural e folclóricos (Maldito Sertão, Fome e Agouro), também já se aventurou no teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje) e trabalha como advogado. Figura constante em projetos do Sesc (Arte da Palavra, Mostra Sesc de Culturas, Mostra Sesc Carri, Flipelô), participou de eventos nacionais como a Bienal do Livro do Ceará e de Recife, e internacionais, como a Primavera Literária de Paris e Nova York e a Feira do Livro de Paris. Márcio também é roteirista de séries, curtas-metragens e longas-metragens. Ganhador dos Prêmios Moacy Cirne de Ficção de 2019 e do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica Narrativa Curta de Horror 2020.
Nascido e criado no sertão paraibano, Shiko é ilustrador, grafiteiro, roteirista, diretor de curta-metragem e autor de quadrinhos. Já expôs em galerias de Portugal, Itália, Holanda, França e Brasil. Como autor de quadrinhos produziu Marginal Zine, Blue Note, O Quinze, adaptação do romance de Rachel de Queiroz. Em 2013, publicou pelo projeto Graphic MSP a HQ Piteco: Ingá e lançou O Azul Indiferente do Céu, pelos quais recebeu os prêmios Angelo Agostini e HQMix de Melhor Desenhista 2014, além do HQMix de Melhor Álbum de Terror/Aventura/Fantasia. Voltou a receber esse prêmio em 2015 pela HQ Lavagem. Em 2019, lançou o quadrinho Três Buracos. Suas obras mais recentes são Carniça e a Blindagem Mística – É Bonito Meu Punhal (2020) e Carniça e a Blindagem Mística Parte 2 – A Tutela do Oculto (2021). Saiba mais em seu instagram @chicoshiko.
Uma baguncinha boa dessas que deixa a gente contente de ter sido bagunçado.
Márcio Benjamin é um contista de mão cheia. Ele tem um jeito de contar histórias sucintas e fazer a gente entender o que se passa mais pelas entrelinhas e pelo que as palavras escondem do que pelo que elas revelam. Não é só uma questão de oralidade, é manha de gente que sabe o que tá fazendo mesmo.
Sina, então, é um romance feito em parte de contos ligeiros e em parte de histórias maiores que vão amarrando a grande viagem do protagonista Zé Trancoso por lugares deste e de outros mundos: as lembranças de infância ao lado do avô, o contador de histórias original; a passagem por cenários inóspitos quando seu carro quebra; seus dilemas diante de lobisomens insistentes; porcas amaldiçoadas, espíritos que voltam para a casa de mães preocupadas e defuntos que voltam para se vingar; pregadores da fé que de inocentes não têm nada. Há de tudo um pouco, um tudo que se conecta pela temática e pela honestidade da voz do autor.
Se a memória não me prega peça, Sina reúne contos da produção independente do autor, como Maldito Sertão e Agouro, por exemplo. Olhar para o próprio passado, afinal, tem e teria tudo a ver com a proposta do livro, que termina nos fazendo questionar se o próprio Márcio não possuiria sua cota de encontros inusitados com o malassombro para nos contar, seja na varanda de uma casa numa cidadezinha do interior ou nos painéis dos grandes eventos literários.
No fim do livro, quando Zé Trancoso enfrenta sua Sina, resta a vontade de que possamos encontrar esses personagens outra vez. Pelo menos os que seguem vivos. Ou algo parecido com isso.
Após sua caminhonete morrer no meio de uma estrada perdida por entre os caminhos do Sertão, Zé Trancoso se vê diante da porteira de uma cidadezinha guardada por três velhas cegas. Mal sabia o contador de histórias que ali começava um encontro marcado com o seu destino.
Em "Sina", Márcio Benjamin nos apresenta, de forma magistral, o melhor do horror nacional, resgatando por meio dos "causos" e das "histórias de trancoso" uma tradição que corre sempre viva nas veias do nosso Nordeste: o gosto pelo fantástico e pelo assustador.
Basta ir atrás para ver. São gêneros sempre presentes em nossa história, tão antigos quanto a imaginação humana. Seja por meio da contação feita pelos mais velhos, seja através dos romances de cordel, a ficção de gênero tem raízes fortes em terras nordestinas.
Na obra de Márcio, vemos justamente o poder dessas histórias. Temos um romance que se passa em períodos temporais distintos (mas que talvez não sejam tão distintos assim), entremeado por contos, fazendo assim com que "Sina" tenha uma estrutura narrativa um pouco diversa do convencional. Aqui, nos deparamos com uma colcha de retalhos de histórias, que ajudam a compor um cenário maior (algo que eu simplesmente adoro).
E para quem, como eu, acompanha o trabalho do autor há um tempo, deve ter aproveitado bastante a oportunidade de se reencontrar com personagens e narrativas que o autor já havia nos apresentado em obras anteriores, como "Maldito Sertão" e "Agouro", agora apresentadas sob uma nova perspectiva.
Somos apresentados a lobisomens, mulas, entidades diabólicas e fantasmagóricas, visagens e malassombros de todos os tipos, habitantes de um Sertão mágico, onde tudo é possível, até o impossível. E tudo isso com uma escrita saborosíssima, pois a escrita do autor é um negócio fora de série. Para completar, a obra ainda conta com ilustrações fenomenais de Shiko.
No mais, deixo aqui a minha recomendação para todos que procuram terror nacional da melhor qualidade, assim como meus parabéns para Márcio. Compadre, que você continue a alçar voos cada vez mais elevados!
"Sina" é um conjunto de narrativas curtas (contos) com um background que amarra tudo e transforma a obra num romance. É bonito, poético, traz as mazelas do sertão e, quando menos se espera, transforma-se numa cena de horror. O universo de Sina está povoado por seres sobrenaturais e muitas vezes nos identificamos com aquelas histórias que, temos certeza, já ouvimos na infância ou adolescência. Encontrei ecos de muitos clássicos, como Pedro Páramo, O som e a fúria, os clássicos da mitologia e, óbvio, Grande sertão veredas. A linguagem é outro ponto alto, muito bem trabalhado. Só tenho elogios para a obra.
Ótimos contos e na segunda parte a história principal engrena de um jeito super viciante. leitura rápida e muito bem escrito por Benjamin, que mergulha no regionalismo de forma muito sedutora. Acho confuso em um trecho ou outro, especialmente quando a história principal é abandonada por uma sequência de contos, mas nada que tire um impacto dessa ótima obra.