Por Sensciente nível 5, eu já sabia que não ia gostar de "Porém Bruxa" (e também vi outras resenhas e etc que consolidaram a posição: "duvido que vou gostar"). E li simplesmente porque eu queria entender O QUE me faz desgostar. Enfim, em breve, nos Rascunhos Abertos, um texto mais elaborado sobre isso, já que nesta leitura fui mais atento, fiz várias marcações e anotações.
Aqui vai as impressões preliminares:
Esta história tem potencial para ser legal, mas no final, não é. Achei o prólogo funcional e fiquei com esperanças de ela ser, pelo menos, bem escrita. Porém, também não é bem escrita. Tem umas coisas estranhas que soam muito "estou cansado de escrever, preguiçaaa" (nada de errado na primeira versão, mas a edição serve para mexer nessas coisas com mais calma). Exemplos:
A narração é em primeira pessoa, usando conjugação no passado. Não é documental e também não é uma conversa com o leitor, como se fosse alguém contando um "causo". É aquela coisa que a gente já está bem acostumado a ver na literatura comercial contemporânea: não precisa ter uma lógica específica para a voz do narrador, é só a forma como somos expostos à história. Vemos a história através de um personagem que a narra, tendo suas subjetividade e etc. E é isso.
A Carol Chiovatto, em momentos elatórios, muda o estilo da narração sem querer. Do nada quebra a quarta parede, como se a narração fosse daquele estilo "tô te contando um causo" (geralmente faz isso para dar algum infodump ou tentar fazer alguma piada. Falando nisso, quase nenhuma piada funcionou para mim. Pareciam mal colocadas). E existe um determinado ponto em que a Ísis diz algo como "Não vou colocar o endereço para não por em risco um eventual leitor superaventureiro do presente relato". Mas a história também não foi escrita como relato! Além do mais, a Ísis já revelou ao longo da narrativa várias informações íntimas e outras confidenciais para não-bruxos. Se fosse um relato para muitas pessoas lerem, teria suprimido todas essas outras informações, não só o endereço da batalha final do livro.
Outra coisa que incomoda na escrita é o uso exagerado da narração indireta das cenas. É tipo aquele negócio do "Mostre, não conte" (que não é uma regra absoluta, deve ser questionada e blábláblá). A Carol abusou do "contar" neste livro, o que dá uma impressão de que a maioria das cenas são irrelevantes. Está rolando uma investigação e quase todos os passos investigativos da Ísis são só "contados", não "mostrados", daí parece que não é para focar nisso.
Aproveitando este gancho, devo dizer que a mairoia das cenas "mostradas" envolvem algum tipo de assédio/violência contra minoria. E aqui é um tópico bem polêmico, porque essas situações são DE FATO cotidianas, e dá para entender o apelo de querer retratar esta pedra no nosso sapato. Estamos vivendo nossas vidas, e aí DO NADA, alguém é violento (racismo, lgbtqfobia, misoginia...). Só que me incomoda... Parece muito aquela coisa do torture porn quando é recorrente demais. Além disso, isso fica quase como elemento de cenário. Tá ali, deixa a protagonista PUTA, mas ela mesma não faz nada sobre (porque individualmente não há o que fazer... tem até um trecho em que ela demonstra esta frustração e foi tenso, porque é poucos passinhos para o pensamento fascista. Poxa, você não pensou que é possível UNIR as pessoas para lidar com os problemas sistêmicos? Falta certo estudo de história aí, hein... Dá para começar com os eventos de 1848, tá?). Enfim... É tenso, e a escolha de dar destaque de "mostrar" praticamente só para estas cenas faz parecer que é isso o que importa no livro. "Porém Bruxa" é para chocar com a realidade difícil. Livro pesado.
Outras coisas que me incomodam: a protagonista é UM PORRE. Nossa, a Ísis é muito chata, cara. Tudo é sobre ela. Uma protagonista com "síndrome de protagonismo" (haha que irônico). É, basicamente tô dizendo, ela é mulher branca demais, com todo o estereótipo racial da branquitude (aquele lugar de se impor como o principal, o universal). Eu ODEIO as cenas aleatórias colocadas lá para a Ísis lacrar. Tipo quando a Helena (uma mulher negra) resolve usar pejorativamente a palavra "macumba" e a Ísis vai lá dar um sabão nela. Este detalhe foi inútil para a construção da cena e para a construção da personagem Helena, só serviu para mostrar que a Ísis é "fada sensata", mas... Porra, a branca lutando contra o racismo da negra? Não colou, sabe? Nesse nível superficial, a Ísis até parece ter mais consciência e etc, mas ela ainda tem todos os comportamentos da socialização branca. Acho difícil por em palavras, mas acho que pessoas racializadas devem entender o que tô falando. Gente branca se porta como se estivesse acima da gente, mesmo sem perceber. É a vida, acontece, a autora branca (e o editor branco) iam reproduzir isso mesmo, só que... Porraaaa não coloca a personagem pra ficar "lacrando" em cima dos outros então! Isso pegou mal demais, me incomodou real.
Também achei engraçado que o círculo de amigos da Ísis é composto de: um bissexual (que, no início da história, ela trata quase como brinquedo sexual, o que me deixou com muito ranço da Ísis logo no capítulo 1); uma mulher negra; uma mulher negra de candomblé; e uma mulher trans. Daí aparece o interesse romântico (óbvio) dela: Victor SPENCER, um homem branco dos olhos azuis. Tá bom que ele também é bruxo e tal, mas que discrepância. Parece que as políticas afirmativas eram só para cotas de amizade com a Ísis, para o amor não tem ainda não. Ah, por mais que o Victor seja um personagem bem legal, isso ficou uma porcaria (em minha humilde opinião).
O fator White Savior foi tão presente que me lembrei de Indiana Jones diversas vezes. Me lembrar de Indiana Jones não é bom. Indiana Jones é a personificação do White Savior para mim.
Vamos lá: um terreiro de candomblé foi atacado por neopentecostais radicalizados em racismo religioso. Este terreiro com certeza é frequentado por uma comunidade maior do que apenas DUAS pessoas (a mãe-de=santo e a filha dela, Fernanda, já citada como amiga da Ísis). Com certeza esta comunidade se reuniria para um mutirão, se apoiaria, ou algo do tipo, né? E, se as divindades tem existência comprovada, Exu ou qualquer outro orixá se manifestaria para ESTA comunidade, não?
NÃO! Aqui a comunidade simplesmente nem é citada e a mãe-de-santo incorpora o Exu para falar com a ísis. A ÍSIS! Parece que a comunidade fragilizada não é capaz de se defender, precisa contar com a Bruxa Branca.
E isso vai outro incômodo: por que tratar de religiosidades reais se elas vão ser tratadas de uma maneira tão superficial? Parece que mirou no relativismo cultural e acertou no etnocentrismo. Tipo assim... Ela usa o conceito "as divindades existem desde que tenha a crença das pessoas para sustentar suas existências" (acho que Deuses Americanos segue essa premissa, né? tem algo no riordanverso também, não é um conceito estranho). Até aí tudo bem... Mas me joga o lance de que isso não vale para a Terra (Gaia ou como quiser chamar), que alimenta as bruxas. Isso tirou as bruxas da categoria "religião" e as colocou na categoria "algo mais do que só uma religião". E putz... a maioria das bruxas/bruxos são brancos. O livro tá cheio de crítica ao cristianismo, mas a bruxaria foi colocada sabe onde? No lugar em que o cristianismo ocupou no projeto colonial. Não é porque eles estão "protegendo e preservando" que isso aí não soa menos ofensivo.
Destaque para o "Todas as religiões se preocupam com o destino da alma porque sabem que o corpo é da Terra". Acho que esta fala da Ísis exemplifica essa superioridade colocada na bruxaria branca dela. (Fora que existem religiões que não fazem essa separação corpo/alma, e nem precisa ir longe. Tem ramificações de judaísmo e cristianismo que pensam só em termos de "morte e ressurreição", e não de "morte e pós-vida"... e tem religiões que nem "pós-vida" tem).
Outro comentário de worldbuilding religioso: o mundo cristão era identificado pelos bruxos como O Verbo e seus Príncipes. Cara, eu tenho estudado bastante cristianismo (porque cresci e ainda vivo neste ambiente), mas esse conceito aí foi totalmente novo para mim. Eu lido bem com Trindade, por exemplo, e anjos sendo mensageiros. Para mim, o "Verbo" de João 1 tem outra conotação que não significa "o nome de Deus", daí faria mais sentido usar Jeová ou qualquer outra variação de YHWH. E na boa... Eu nunca tinha ouvido falar de Samael. Sei que o sufixo "el" significa Deus em hebraico, daí a maioria dos nomes de anjos terminam em "el" porque eles vieram da parte de Deus. Mas não lembro de Samael na Bíblia. Esse veio de um apócrifo? É da cabala judaica? Não sei. E o livro tratar como se os leitores soubessem do que eles estavam falando foi mais irritante ainda.
Bom, daí nem quero imaginar como deve ser para quem entende de religiões de matriz africana e matriz indígena a experiência de ver Ísis falando sobre as entidades.
Voltando ao incômodo: White Savior e superioridade das bruxas. Demônios ficaram sendo algo muito misterioso, não entendi direito o que são, mas ficou parecendo que o Inferno e os Demônios são aquilo lá da tradição católica romana mesmo. Sendo assim, bruxo por pacto com demônio não é uma visão cristianizada demais? E aí o bruxo em questão ser um falso pastor cristão, o demônio do pacto ser também cristão, sendo preso por um selo indígena, e daí incomodando os orixás... A única parte que toca nos bruxos aí é o "bruxo por pacto". De resto, porque todo mundo depende da Ísis?
E vamos lá, outra coisa ruim: a Ísis é muito ruim no que faz. Ela recebe três casos no início da história e logo no início da "investigação" (mal escrita demais, Carol Chiovatto precisava ler e estudar mais thriller e romances policiais) aparecem ligações óbvias entre os casos. Jorge Silveira, marido da mulher desaparecida, e ex-motorista dos pais da menina desaparecida, é crente igual os que atacaram o terreiro. Quando a Helena diz que ele estava transportando bichinhos de madeira para Paraty, eu já saquei que era a símile de onça. Mas levou umas 50 páginas para a Ísis perceber.
Tá, talvez investigação não seja o foco de uma monitora, mas monitorar com certeza é. O Marcos Dimas é um bruxo mequetrefe, segundo descrições reiteradas da Ísis. A batalha final mostrou lá a diferença de poder entre eles, foi muito fácil. Então POR QUE DIABOS ELA DEIXOU A SITUAÇÃO CHEGAR ÀQUELA ESCALA? A tal intuição dela demorou muito a funcionar, hein!
E indo mais a fundo na sociedade bruxa... Sério? Uma megalópole tipo São Paulo e vocês colocam uma ÚNICA bruxa para monitorar?
E eu de início achava que era serviço público, tipo Ministério da Magia. O que é essa Cidade dos Nobres? De onde vêm tantos recursos financeiros? Isso ficou disfuncional demais, e não da forma como a ísis via e criticava, mas na forma de criação de mundo mesmo. Por que outras religiões não tinham organizações parecidas? Ah, é, deve ser porque bruxos são "mais que uma religião". Polícia do sobrenatural.
E ah... me irritou a Ísis tentando resolver as coisas sozinha e os amigos tendo que se intrometer para ajudar no caso. Todos eles foram bem mais úteis que a própria Ísis na resolução do caso.
Sobre o trauma pessoal da Ísis e como o Victor ajudou... Isso eu não sei dizer ao certo, mas também não achei legal. Me lembrou muito Lore Olympus, só que em Lore Olympus teve um tratamento super legal. Aqui não. Ah, me lembrou também os livros da Victoria Gomes... Só que nos livros da Victoria Gomes o tratamento é bom. Aqui faltou alguma coisa, só que preciso pensar melhor para identificar o que é.
Enfim, as impressões gerais são essas. Algum dia desses eu organizo tudo e monto um texto mais inteligível.